Manduco

Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

VLADEMIRO DIAS : UM HOMEM DO POVO E DA CULTURA TRADICIONAL

Introdução

 

Há pessoas que pelo contributo dado à sociedade permanecem eternamente na memória colectiva das sucessivas gerações. Destarte, as figuras ligadas à cultura, mormente tradicional, só desaparecem fisicamente do nosso meio. Pois, as suas experiências, vivências e práticas da vida transformam-nas em quase imortais. Na ilha do Fogo, a história tem resgistado as práticas (contribuições) de muitas figuras simples e humildes na produção, preservação e enriquecimento da Cultura Tradicional. Assim, penso não estar a exagerar afirmando que, aqui, não se pode falar das festas de Romaria sem se falar dos Senhores, Sangolé, Nhonho Corcobada, Alexandre Andrade (TCHITCHITI), Pedro de Amélia e Vlademiro Dias. Os quatro primeiros já não fazem parte deste mundo. Todavia, pelas suas contribuições, na produção, preservação e enriquecimento da nossa Cultura Tradicional, persistem no nosso meio, através da memória colectiva. O último, o Sr. Vlademiro Dias (conhecido entre nós como homem da Cultura Tradicional) que ainda labuta e vive entre nós, contínua a nos brilhantar nas Festas de Romaria e com muita ênfase nas de São Filipe. É sobre Vlademiro Dias e suas contribuições na Cultura Tradicional do Fogo que vou Falar.

 

Vida

 

Vlademiro Dias nasceu a 10 de Novembro de 1937, na Cidade de São Filipe, ilha do Fogo; filho de António Dias e de Ana Lopes Dias; casou-se em 1960 com Isabel Souto Barbosa Dias; pai de sete filhos; avô de dez netos e bisavô de dois bisnetos. Vlademiro revelou-se muito cedo como pai, homem, chefe de família e profissional exemplar. Católico, Vlademiro apaixonou-se, muito cedo, pelo tambor e pelas festas de Romaria. Aliás, aos 14 anos já praticava os toques de tambor.  

Nos anos cinquenta, Vlademiro jogava futebol. Foi colega do Sr. Zuca e Tuné de Comazinha; Foi também braçal durante 11 anos (1957-1968) no Porto de Fonte Vila, onde transportou sacos às costas para carregar e descarregar os barcos que entravam e saíam desse porto.  Em 1970 trabalhou como magarefe na cidade de São Filipe. Abatia os animais como cabra, vaca, porco para a venda na cidade e no interior da ilha. Com a criação do porto de Vale dos Cavaleiros em 1968, Vlademiro, tendo como chefe Nhô Nelinho de Bia, na qualidade de estivador, passou a trabalhar ali. Foi, tal como muitos outros braçais, também pescador em pequenas embarcações de boca aberta na orla marítima desde porto de Vale dos Cavaleiros até Baia do Corvo, no Concelho dos Mosteiros. 

 

Em 2006, a morte arrebatou-lhe a esposa Isabel Souto Barbosa Dias, após 46 anos de vivência matrimonial. Hoje, Vlademiro é um homem viúvo. E assim, nos garante que irá morrer.

 

Vlademiro, Homem da Cultura Tradicional do Fogo 

 

Como homem da Cultura Tradicional ligado às festas de Romaria na ilha, com incidência nas de São Filipe, Vlademiro iniciou a sua carreira como tamboreiro aos 19 anos como aluno e admirador do tamboreiro mestre - Alexandre Andrade (1906-1984). Hoje, apesar de introduzir novos toques e estilos próprios, Vlademiro continua a praticar os toques criados e desenvolvidos pelo seu mestre, Tchitchiti, que são conhecidos, genericamente, por “briais” (“brial”, no singular): o “brial” do almoço dos cavaleiros, o “brial” das corridas de perícia, o “brial” das cavalhadas, da tomada de bandeira etc. Apesar do sucesso conseguido na sua carreira como tamboreiro ele continua a nutrir forte respeito pelo o seu mestre (Tchitchiti). Vlademiro Dias é, hoje em termos de tamboreiro, fruto de uma vivência intensiva junto de tamboreiros experimentados da ilha como mestre Tchitchiti e Pedro de Amélia, seus antecessores directos.

 

Com o desenterro da Bandeira de São Filipe pelo Grupo de sete Estrelo em 1917, Alexandre Andrade (NHO TCHITCHITI) passou a ser o chefe principal dos tamboreiros nas festividades de Romarias em São Filipe. Nho Tchitchiti permaneceu como chefe principal até 27 de Junho de 1984, altura em que faleceu, na noite do canizade de São Pedro. Tendo desfalecido cerca das 9 da noite enquanto tocava, Tchitchiti foi transportado ao hospital onde faleceu horas depois. Após a morte desse mestre, Pedro de Pina, mais conhecido por Pedro de Amélia passou a ser o novo chefe dos tamboreiros nas festividades de Romaria em São Filipe até 1996, altura da sua morte. A partir daí, Vlademiro Dias assumiu a chefia principal dos Tamboreiros até a actualidade. Com a mediatização das Festas, Vlademiro Dias e a Cultura Tradicional do Fogo conheceram uma nova dinâmica. Na qualidade de tamboreiro principal, tem levado as festas das Bandeiras da ilha para outros cantos do arquipélago nomeadamente, São Vicente, Cidade Velha, Assomada e Praia, como também no estrangeiro, em particular, Holanda e Bélgica em parceria com a Câmara Municipal de São Filipe e com o grupo PBS, através do Sr. João Rodrigues Pires. 

 

Vlademiro Dias tem enveredado esforços no sentido de fazer com que os jovens de hoje também comecem a aprender a tocar o tambor. Diz-nos sempre: “Minó di Mámá moreu e a gaita ficou guardada no Fogo, mas quando Vlademiro Dias morrer alguém irá continuar a tocar tambor na ilha do Fogo”. Ele defende que a nossa cultura tem de ser cultivada, tem de ter continuidade. 

 

Como homem da cultura e chefe nº 1 do grupo Estrelas do Fogo tem já, para o próximo mês de julho, um convite do Sr. Markus Leukel, percussionista e investigador dos ritmos de África e do Brasil (alemão) para efectuar uma digressão à Alemanha e Áustria onde o grupo irá divulgar e promover as festas das Bandeiras ligadas à cultura tradicional do Fogo. 

 

Actualidade 

 

Além de exercer as actividades ligadas à Cultura Tradicional da ilha do Fogo, Vlademiro Dias desempenha a função de contínuo na Escola Secundária Dr. Teixeira de Sousa desde 25 de Fevereiro de 1995. Trabalhador exemplar que respeita os funcionários e que assim conquista o seu respeito. Reconhecido pelas sucessivas Direcções, professores, alunos, auxiliares administrativos e colegas como homem assíduo, pontual e cumpridor de horário e de seus deveres. Como contínuo, exige sempre que os professores sejam pontuais e assíduos. Exerce e faz os outros exercerem suas funções com responsabilidade, honestidade e competência. 

 

Composição do Grupo Estrelas do Fogo 2009

1.      Vlademiro Dias (1º Taboreiro Chefe) 

2.      Roosevelt Lopes Correia (2º Taboreiro Chefe)  

3.      Nilson Lopes (3º Tamboreiro e Colecheiro) 

4.      Lici Sequeira (4º Tamboreiro e Colecheiro)  

5.      João Pedro Rodrigues (5º Tamboreiro e Colecheiro) 

 

Coladores  

1.      Américo Sequeira (Natanael)  

2.      Daniel Alves (Nho Sopa)  

3.      José de Maria (residente em Velho Manuel) 

 

Coladeiras  

1.      Catarina de Pina Brandão (Idalina)  

2.      Maria Lopes (Maria Tchuneta)  

3.      Joaquina Dias (Budjodja)  

4.      Maria Socorro Teixeira (Domingas)  

5.      Lucinda Mendes (Mama de Rompe)  

6.      Manuel Pina Cabral (Mané Bispo)

 

Vlademiro, que tenha vida longa e muita saúde!   

 

O professor  

Alberto Nunes

 

 

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