Manduco

Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

Tchitchite

Alexandre Andrade, o tocador de tambor de avental branco na foto ao lado, era mais conhecido por Tchitchite, “rei de djarfogo”. Foi o tocador da primeira bandeira de S. Filipe (entende-se aqui a primeira bandeira como a do desenterro, em 1917). Tchitchite criou todos os toques dessa bandeira, conhecidos por briais: o brial do almoço dos cavaleiros, o brial das corridas de perícia, o brial das cavalhadas, da tomada de bandeira, e assim por diante. Um mestre, portanto!

A Câmara Municipal de S. Filipe homenageou esse homem, falecido em plena bandeira de S.Pedro, a 27 de Junho de 1984, mas esqueceu-se de falar do seu grande feito em prol das bandeiras do Fogo.

Tchitchite foi também, quando chegou a S. Filipe, o pregão da cidade. A pessoa que anunciava as deliberações da Câmara Municipal, a chegada dos barcos no porto, etc.
O homem da foto, ao lado de Tchitchite, chama-se Pedro de Pina. Faleceu em 1996 e foi o sucessor de Tchitchite como primeiro tamboreiro da Ilha do Fogo. Ao redor, algumas coladeras famosas, algumas ainda no activo.

A sessão acima, para quem não sabe, denomina-se pilão - a preparação do milho para o dia da festa grande, que decorre num ambiente festivo de cânticos e toques de tambor.
 
 

 

TCHITCHITI

Cheguei de conhecer este homem. Os seus traços ainda os tenho no meu disco duro da memória.

Era dos poucos prêtos da minha cidade que tinha “um bom cabelo” como era hábito ainda dizer-se quem tem cabelo liso.

Considerado o maior tamborileiro que havia no nosso país. Rufava o seu tambor com gosto e sempre com o seu avental branco, bem penteado com uma madeixa caindo pela testa, cobrindo parcialmente os seus olhos achinezados.

Com o seu tambor Tchitchiti andava pelas ruas de S. Filipe anunciando os mais diversos avisos importantes das autoridades Municipais, principalmente.

Cada acontecimento tinha o seu toque especial . Familiar a todos menos os mais novos.

Era como um jornal de grande tiragem -ambulante, que tinha mais som que palavras que todos “comprava” e ouvia-lia” .

O interesse daquele aviso sonoro despertava atenção a muitos e ele educadamente informava.

Tchitchiti, está tocando porquê?
Para irem pagar as “décimas na Fazenda antes de relaxar senão ficam sem terra e sem casa”.

E hoje, porquê.
Para os contratados buscar a farda e o dinheiro. O “falucho” que vai levá-los está na Fonte Bila. Vão até Praia e depois tomam o vapor para S. Tomé.

Quando o toque é mais “rapicado” é porque a notícia é deveras “sabi”.

Logo cedo Tchitchiti acordou toda a cidade e arredores. Alguns ainda ensonados.

Era o aviso “rapicado” de que o Presidente da República de Portugal chegava no dia seguinte ao meio dia à Ilha no barco de guerra “Almeida Carvalho”.
O Administrador do Concelho “mandou intimar” toda a gente. Tinha que ir de fato e gravata.

A concentração é na Praça da Cãmara às nove horas e dali seguem para Fonte Bila no carro “José Catchim”.

De fato e gravata?
Sim porquê?
Com este “calorzão” de Maio toda a gente vai desmaiar...

Parapam-pam-pampam-pampampam.
Era o recrutamento dos mancebos para a tropa em S. Vicente e na Praia.

Pam...pam...pam. pam. de longe a longe ouvia-se o anúncio da morte.
Tchitchiti com aquele ar triste pedia às pessoas para irem enterrar o coitado, que já esperava havia muito na Cruz dos Passos -o descanso obrigatório de todos os finados do campo.

Sabiam que era um pobre no caixão da Câmara não descartado.
Emprestado.
Cedido.
Retornável.

Era verde e apenas um, servindo a todo o tipo de finado . Não interessava a altura nem a largura.

Muitos iam com os seus alvos pés de fora baloiçando no compasso dos que carregavam o caixão nas suas quatro cordas laterais, duas à frente e duas atrás O Cabo-Chefe com uma espada ameaçadora dizendo ”vamos depressa porque há mais” .
Dividia o grupo em dois: quatro para levar o corpo e outros quatro para trazer o caixão de volta à Câmara.

Tchitchiti não tocava o seu tambor apenas nessas ocasiões.

Sem ele as festas de S. Filipe, S. João e S. Pedro não aconteciam.
Era o primeiro a ser chamado e com ele a sua Banda.
Ficava à frente desta como um Comandante na parada com os seus subordinados desfilando.

Nas grandes festas dos sobrados de Bila, Tchitchiti era convidado só para tocar.

Fazia-o com gosto e profissionalismo.

Depois dos cavalheiros molharem os pés dos seus cavalos na praia do Bocarron, vinham à missa sob o toque peculiar da cavalgada.

Na Igreja o seu tambor soava iniciando a procissão.

Depois o almoço naquelas grandes varandas e salões com a Banda do Tchtchiti rufando o tambor no quintal.

Coladeiras colando com mensagens algumas vezes abrangentes!
Incomodativas!
Talvez subtilmente picantes.

Tinham o alvo certo e cheio de pruridos.

Faziam grandes pratos para o Tchitchiti e a sua Banda comerem lá mesmo no quintal.

Nunca ele os aceitou.

Recusava a comida nem bebida tão pouco.

Dizia ele que tinha comida em sua casa e não era “nego” de quintal de ninguém.

Apenas profissional.

No meio do almoço, Tchitchiti e a sua Banda subiam até os salões cumprindo a tradição.

Ali davam três voltas à mesa repicando o seu tambor e atrás as coladeirasr colando e rebolando ao som do tambor e da tchabeta.
Não tocavam num só bolo.

Veio a fome e com ela várias pessoas foram dizimadas.

Tchitchiti não parava em casa.

O seu dia estava sempre cheio, solicitado pelo Administrador que poucas vezes pagava-lhe pelo tambor. E com a fome, o trabalho triplicou e a energia mitigou.

Por toda a cidade o tambor da morte ecoava e reverberava nos ouvidos dos vivos.

Mesmo com fome Tchitchiti fazia o seu trabalho desobedecendo a própria mulher.

Quantas vezes não teria desmaiado por causa da fome!

Não havia caixão para os mortos nem mãos para levá-los ao cemitério.

Muitos iam embrulhados em “finingue” que na hora de dar à terra era-lhes retirado para servir o próximo.

Na boca da cova dos finados, viram um “finingue” fazendo ondas mais que tantos outros que tiveram o mesmo fim.

Ficaram curiosos olhos arregalados porque aqueles movimentos chamavam a qualquer um atenção.

Não foi como muitos casos da mesma índole que deixaram passar.

Cuidadosamente e com medo, descobriram a cabeça do morto e ouviram uma ténue voz :” sou eu, Tcitchiti, só estava desmaiado e tenho fome”.

Alguém ao lado chorou e exclamou: por ele os tambores não rufaram.

Samuel Gonçalves

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