
Este é verdadeiramente um homem de sete ofícios: Rolando Lima Barber, ou simplesmente, Sr. Zuca como é conhecido, é uma das figuras mais carismáticas da ilha do Fogo, ilha onde ele se sente melhor, no mundo: “não existe lugar no mundo onde eu sinta melhor do que aqui”, afirma. Graças à sua profissão, enfermeiro, Sr. Zuca conquistou a simpatia de todos. Na enfermagem é um peixe na água mas, começou na carpintaria/mercenária, depois foi pintor até encontrar a verdadeira profissão que o destino encarregou de ajudar a descobrir. No desporto é um campeão nato: para além de jogador, já fundou clubes e hoje é um conselheiro, no Botafogo. A nível político, o nosso entrevistado já foi quase tudo, desde Delegado de Governo, a deputado, passando por secretário da Assembleia Nacional. Hoje, porém, assume ser um observador. Em fase de retirada, depois de aposentado há quinze anos, por limite de idade, Sr. Zuca prepara agora o seu livro de memórias em que vai contar, em primeira pessoa, os “pedaços de mim mesmo”
SR. ZUCA: O CARPINTEIRO QUE SE TORNOU ENFERMEIRO
Se eu lhe pedisse para nos fazer a sua apresentação, como a faria?
Rolando Lima Bárber (RLB) – Sou uma pessoa simples que mantém um relacionamento humano bastante satisfatório com todas as pessoas e que, devido a este relacionamento, ganhei uma simpatia geral, de todos: por causa disto, acabei por ser uma referência, talvez nacional ou regional. No Fogo, indiscutivelmente, sobre qualquer tema sou uma referência.
Referência por causa daquilo que o Sr, Zuca fez?
RLB – Evidentemente, uma referência ganha pelo meu trabalho. Desenvolvi um trabalho capaz, sério e um trabalho de grande relacionamento humano. A minha divisa é: quem não vive para servir, não serve para viver. A minha divisa foi sempre, servir, servir, servir. Sou enfermeiro, e enfermeiro é daquelas profissões que existem para servir ou outros. Foi por causa disso que ganhei esse estatuto. Não foi por acaso que fui condecorado pelo Presidente da República, em 1992, não foi por acaso que fui também condecorado, em 1995, pelo Governo de Cabo Verde e também não foi por acaso que fui agraciado, naquele mesmo ano, pela Assembleia Nacional, com Diploma de Mérito e não fui também por acaso que fui agraciado pelo ministério da Saúde, com Diploma de Mérito e não é por acaso que tive várias outras coisas na vida. É tudo fruto do meu trabalho.
Sr. Zuca, entretanto nasceu na cidade da Praia, em 1926. Na sua vida profissional tem momentos vividos, naturalmente, na Praia, mas também
RLB – Indiscutivelmente, tem uma ilha que ficou gravada no meu coração, Boa Vista. Os dez anos que passei naquela ilha costumo dizer, são os dez melhores anos da minha vida.
Porquê?
RLB – Por várias razões: desenvolvi na Boa Vista um trabalho onde acabei por ser um líder, ganhando, inclusive o respeito da população que me tratava com amizade, com carinho e foi na Boa Vista que nasceram os meus primeiros cinco filhos. Foram dez anos bem passados e que marcaram a minha vida.
Veio, e ficou quase que para sempre…
RLB – Sim, é quase que para sempre. Penso continuar nesta ilha pois, parece-me que no mundo inteiro não existe lugar que estou melhor do que aqui. Tenho o carinho e a admiração de todos. É aqui que me sinto realizado, portanto, melhor lugar no mundo, para eu estar, é a ilha do Fogo.
Fogo foi uma opção profissional ou terá sido uma indicação, por parte dos seus superiores?
RLB – Não foi uma opção profissional. Era no tempo colonial, e esta ilha atravessava um período de dificuldades, a nível da enfermagem e o Governo precisava de um enfermeiro para esta ilha, e fui indicado. Vim…, fiquei… (sorrisos)
Essa alegria mostra que está muito bem no Fogo…
RLB – Evidentemente. Assim, como já disse, Fogo é melhor lugar do mundo. Nota-se que nesta ilha já fui tudo: estive durante dez anos como Delegado de Governo, que era um cargo bastante interessante. Naquele período fiz um trabalho bastante meritório que contribuiu para o desenvolvimento da ilha, em várias vertentes, nomeadamente, na educação, na construção de estradas, no desporto, enfim… é muita coisa que torna difícil lembrar neste momento.
Entretanto, há dois ramos que, indiscutivelmente, o Sr. Zuca é uma referência: enfermagem e desporto, prova disso, são as sementes lançadas
RLB – Felizmente, o meu pai conseguiu introduzir na família que o desporto faz parte integrante da vida, por isso, quase toda a família praticou desporto. Tenho irmãos que são referências no futebol. Vim com o desporto no sangue. Fui a S. Nicolau, e com outros amigos fundamos o Clube Ribeira Brava. Na Boa Visa, joguei no Atlântico e mais tarde fundei o Sporting. Cheguei ao Fogo, a idade para jogar futebol já ia passando e abracei a carreira de dirigente. Acabei por fazer um curso de treinador. O interessante, é que de um grupo de meninos que jogavam na rua viemos a formar uma equipa que veio a sagrar-se campeão de Cabo Verde.
Está aqui a referir-se ao Botafogo?
RLB – Sim, Botafogo. Eram alguns meninos mais alguns rapazes e tivemos a proeza de, por duas vezes, ser vice-campeão nacional e uma vez campeão. Foi um percurso extraordinário e Botafogo acabou por tornar-se numa referência no futebol nacional e o clube esteve sempre bem posicionado. Durante nove anos consecutivos fomos campeão regional ao qual se juntam mais quatro ou cinco títulos interpolados. Marcámos uma posição no desporto nacional.
Hoje, qual é a sua actividade dentro do desporto?
RLB – Assim como vês a minha casa, cheia de fotografias, taças…
Mais parece um clube do que uma casa…
RLB – (risos) Sim, parece mais um clube.
Neste momento faço parte da direcção do Botafogo. Sou um tipo de assessor ou então conselheiro. Acompanho a equipa por todos os sítios e os rapazes do clube têm muita admiração por mim, ouvem comigo. Sou um símbolo no clube. Em todas as reuniões tenho de estar presente para poder falar alguma coisa. Psicologicamente, influencio muito. No desporto sinto-me um homem realizado.
A nível pessoal o quê que o sr. Zuca faz hoje?
RLB – Quando alguém tem uma profissão como a minha (enfermeiro) que é servir, nunca conseguimos parar. No meu caso, muitas pessoas depositam em mim muita confiança. Ainda eu trabalho, estou no hospital. É que as pessoas têm confiança em mim, não só porque dou confiança a todos, dialogo com elas, educadamente mas porque consigo transmitir confiança e as pessoas sentem-se bem, à vontade. Isto é para mim muito bom.
Pela idade que tem presumo que já atingiu a fase de reforma, mas está a ser um reformado no activo…
RLB – (risos) Aposentei há quinze anos por limite de idade mas ainda não parei.
Conheci Sr. Zuca há coisa de doze anos, e a sensação com que fico é que está cada dia mais novo. Já percebeu isso?
RLB – (risos) Toda a gente diz-me a mesma coisa e perguntam como é que estou novo. Talvez é porque não deixei de trabalhar. Se paramos de trabalhar enferrujamos e eu nunca parei de trabalhar. Continuo a dar a minha contribuição, estou ligado ao desporto, vou aos treinos. É uma actividade contínua e faço a minha ginástica. Faço o meu treino durante cerca de trinta minutos/dia. É isto que me deve estar a manter estável.
Vamos agora desvendar segredos. Sempre que alguém ganha algum estatuto na sociedade, como é o seu caso, há sempre a tendência de preservar aquilo que conquistamos por mérito próprio. A questão é: Sr. Zuca já pensou em escrever um livro de memórias sobre o seu percurso?
RLB – Bateste numa tecla interessante: de facto quero publicar um livro que já está escrito. Os meus filhos me pressionam para conseguir este objectivo. Desde 1998 comecei a escrita dessa obra e estou agora a pensar no título. Poderá ser bocados de mim mesmo ou pedaços de mim mesmo. O livro está quase pronto e vai contar a minha vida ao pormenor: trás várias estórias interessantes e pitorescas: umas podem fazer rir e outras chorar. Qualquer dia teremos mais novidades desta obra que conta tudo aquilo que foram tenacidades da minha vida. Poderá ser lançado lá pelo meio do ano. Neste momento estou a seleccionar a capa. Já encomendei três estilos de capa para depois eu ir escolher a que mais se adapta ao título.
Sempre fui um lutador, um trabalhador. Comecei a minha vida porque houve dificuldades, na família. Meu pai morreu, não podia estudar. Estava
Ser enfermeiro era um desejo seu?
RLB – Sim, sempre tive desejo de ser enfermeiro e o destino encarregou-se de completar esta vontade. Tentei algumas vezes entrar para o curso mas ainda não tinha idade. Passaram alguns anos, surgiu a hipótese e lá consegui e tive a sorte de ser um dos melhores. Nunca fiz exame de enfermagem porque as minhas notas eram excelentes: ia sim, ver os meus colegas a fazer exames. Fui um aluno brilhante.
Qual foi o momento mais difícil para o Sr. Zuca, como enfermeiro, nos anos que já trabalhou no Fogo?
RLB – Têm momentos bastante interessantes, não diria difícil: no hospital já trabalhei em várias áreas o que me deu bastante experiência. Há duas coisas que me deram bastante satisfação: um dia (entre 1974/75) precisávamos fazer uma cesariana e o médico militar que se encontrava na ilha, não sabia mas eu sabia porque durante largos anos trabalhei com um cirurgião e fui tomando conhecimento da operação. Fizemos a cesariana e tudo correu bem. O médico confiou
Também a nível da ortopedia fiz algumas incursões e com sucesso. Um certo dia um rapaz caiu de mota e fracturou a coluna. Foi eu quem o tratou. O médico deixou-me com o paciente, fiz-lhe radiografia tratei do paciente e, hoje, está bem.
Esses, digamos, são momentos que marcam uma vida e que contribuíram pela sua reputação junto das pessoas.
RLB – Indiscutivelmente.
Agora, a nível político: como é que o Sr. Zuca avalia o município de S. Filipe, actualmente?
RLB – Há uma particularidade nesta ilha. Nunca nenhum partido conseguiu destronar o PAICV. Por outro lado, S. Filipe sofreu inúmeras transformações, a cidade ficou melhor, ganhou novas estruturas mas também aconteceram coisas que nunca deveriam ter acontecido. Foram feitas obras que estragaram o património cultural de S. Filipe. Assim como alguém escreveu, aquelas obras assassinaram a cidade, ou seja, a cidade foi descaracterizada.
Já que falamos da política, digo-lhe também que já fui deputado e segundo secretário da Assembleia Nacional: hoje, sou apenas um observador.
E a nível social, como avalia o desenvolvimento de S. Filipe?
RLB – S. Filipe sofreu muitas mudanças. Quando cá cheguei havia muita diferença de classe. Depois da independência as coisas mudaram e a sociedade transformou muito.
Sr. Zuca é um homem da saúde, mais precisamente, da enfermagem. A questão é: como avalia a construção do Centro S. Francisco de Assis?
RLB – Espectacular. É uma mais valia para a saúde nesta região e estou muito orgulhoso porque tomei parte nesse projecto, aquando da apresentação do primeiro projecto do Centro à cooperação italiana. Quando entregamos o projecto ao então Ministro da Saúde, ele disse “eles não conseguirão edificar esse projecto”…
Quem era o Ministro da Saúde, na altura?
RLB – Era Irineu. Disse e repetiu: “não farão esse empreendimento”. Felizmente, o projecto veio a ser construído e o Centro está a ser uma mais valia para esta ilha. Hoje, Fogo, talvez é a única ilha do país com dois hospitais. E o Hospital S. Francisco está altamente apetrechado e está a dar muita ajuda. Só para exemplificar, digo-lhe que, com a abertura do Hospital S. Francisco, deixou de funcionar no hospital público, a parte cirúrgica que passou a ser tratado nesse Hospital novo. Indiscutivelmente, é uma mais valia.
O quê que o Sr. Zuca pretende fazer, a partir de agora, ou seja, como vai ser o seu futuro, depois de editar o seu livro?
RLB – Vou continuar a trabalhar até quando puder. Depois, penso poder gozar o tempo que me falta, pois, já estou no fim da vida, é o último quartel da vida, oitenta e tal anos. Penso aproveitar o resto do tempo em viagens, visitando os meus filhos (Praia, Sal América) a quem peço a Deus todos os dias.
No próximo 13 de Maio, Sr. Zuca vai completar 81 anos: vai ter festa rija?
RLB – Vai ter sim. Agora, cada ano é uma festa rija. No ano passado, a festa foi também rija e foi realizada no cinema porque em casa, não havia espaço.
Antes de concluir, o que gostaria de dizer à esta juventude de hoje?
RLB – Jovens, porque são jovens, gostam de experimentar coisas que às vezes não deveria ser.
É preciso continuar com o trabalho que está a ser realizado, a nível da juventude, principalmente em sectores ligados à saúde, sem se esquecer a questão da sida e a gravidez precoce. Embora tem sido feito muito trabalho nesses sectores, ainda é preciso fazer muito mais, porque jovens são sempre jovens. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, portanto, é necessário continuar a bater para ver se conseguimos colocar as coisas no caminho. Entretanto, um dos grandes males da juventude é a falta de emprego. Não há emprego, os jovens ficam soltos mas, entendo, porém, que deve-se dar muita atenção também ao desporto como forma de catalizar os jovens: certamente, o desporto ajudará para os desviar de caminhos errados. É necessário apostar nos jovens.