| Nhô Mané Fú |
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| 22-07-07 |
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POR: Samuel Gonçalves Ele era alto e magro, quando um dia apareceu na bela cidade de S. Filipe.Foi logo amor à primeira vista para a rapaziada.Tinha no olhar a sabedoria dos anos que lhe fez cair os seus cabelos. A sombra leitosa dos seus olhos levavam-no muitas vezes para o chão num autêntico nock-out. Por vezes caía sobre a relva sem se magoar, amparado pelos que o presenciavam. E em cada queda levantava-se sem mão de ajuda. |
Ele era alto e magro, quando um dia apareceu na bela cidade de S. Filipe.Foi logo amor à primeira vista para a rapaziada.Tinha no olhar a sabedoria dos anos que lhe fez cair os seus cabelos. A sombra leitosa dos seus olhos levavam-no muitas vezes para o chão num autêntico nock-out. Por vezes caía sobre a relva sem se magoar, amparado pelos que o presenciavam. E em cada queda levantava-se sem mão de ajuda. Andava como quem tentasse saltar uma brasa, cambaleando. O tempo foi inclemente com ele.Mal sabia donde viera e achávamos divertida a sua amnésia.Mais divertido, quando pouco distinguia um simples objecto à sua frente.Dizia chamar-se JOÃO DE DEUS TAVARES HOMEM. Era de DEUS, porque todos os dias falava com Ele e ele O ouvia.Contou a história dos foguetões e que um dia foi para a lua na cauda de um cometa. Ali jogava a bola e em cada cabeçada metia golos em dez sucessivas balizas. Dizia que era bom demais. Exibia os movimentos acrobáticos mostrando-nos como cabeceava a bola naquele astro de que tantas saudades tinha. Os seus braços e as suas pernas eram de um aracnídeo. Como eram longos magros e frágeis querendo tocar o chão! Dizia também que era sábio e que nunca fora à escola porque aprendera com Deus.Pedia esmola pelas ruas e em recompensa contava a nós todos a sua história.A história da sua vida. A história da fome que passara por terras e sete luas que nunca soubera os seus nomes.Apontava com o seu dedo magro e esquelético para a lua balbuciando algo que ninguém entendia Contava de novo a sua história.Dos golos que metia cabeceando em sucessivas balizas de dez naquele astro que brilhava à noite.Sorríamos.Pensávamos. Tinha orgulho e persuasão em contar-nos a sua existência Ríamos.Uns acreditavam.Outros não.Alguns lembravam-se de Júlio Verne. E eu também! A sua cama era quatro pedras alinhadas em quadrado.O seu colchão sobre seis travessões de pau de “carapate”, eram sacos de lona esburacados pelo tempo. E o lençol ? O tecto da sua casa coberta de chapas de tambor.No fogão- bostas secas de vaca ou de burro.Perfume do seu funco? O fumo daqueles excrementos queimados.Comia quando comia. O jantar nunca acontecia nem sabia o que era.O almoço era o jantar e o café o almoço da tarde.O seu relógio era a dor da fome naquela barriga confundindo-se com as costas.O seu cinto uma corda amarrada à cintura desfazendo como a cauda daquele cometa no qual viajara. Segurava o cós das suas calças que eram largas com pés enrolados a meia canela. Dedos de unhas curvas e longas parecendo garras de um urubu desventrando a sua presa.Um pedaço de guita enrolada na enrolada cabeça de um prego era a fechadura da sua porta. Tinha como defesa do seu funco uma porta de latas de banha de porco que zunia com a simples aragem da noite. Era a sua música que o embalava nas noites dos dias de barriga vazia.Gostava do seu café que lhe pegava o espírito e despegava-lhe a cabeça.Esta dançava sem parar num movimento sincrónico de uma canção que só ele ouvia.E vinha do seu interior. Era a melodia que ninguém gostaria de ouvir.Nem ele certamente!Mas escutava-a com paciência dia e noite naquele ritmo que lhe era imposto.A dança da doença! De dia o seu descanso eram as sombras daquelas árvores perto do mar.Ali pedia às pombas que lhe dessem para comer o resto que não cabia nos seus papos. Ali olhava para o mar e achava-o muito nebuloso, sempre coberto de nuvens. Mas sabia que ali havia peixe que há muito não comera e que só de saber sentia mais a fome.No alto da “Aguadinha” olhava para o cemitério e rezava pedindo a Deus que lhe desse mais dias de vida.Como tropeçava, muito levaram-no ao médico porque via mal. Foi receitado e jamais cumpriu os conselhos de ninguém. Não queria remédio, porque só ele sabia da sua doença. Dizia que era feliz, muito feliz porque só acreditava no que via através dos seus dois amigos.Os amigos que o acompanhavam dia e noite e só mostravam-lhe a felicidade de um mundo verdadeiro. Um mundo que ele achava que era igual para todos, acreditava e queria continuar assim, sem distinção. Sofria de “bilida”- catarata. 21/02/2007
in: Asemana |