Manduco

Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

Não é mentira
29-07-07

Felício nasceu e cresceu no “ Brandon” - fronteira Norte/Sul, cerca de dez minutos de carro de S. Filipe. Daquele alto avistava com admiração - cotovelos encurvados e mãos à cintura, todo aquele serpentear de estrada entre colinas até a Bila.


Aquela imagem ondulante evocava-lhe uma lagartixa desconfiada e atenta libertando do seu esconderijo. Associava o desejo da sua linguagem muda a uma verdade possível.

Brincava com a sua bola, feita de meia, enchida de trapos, à sombra daquela árvore gigantesca.

As balizas, duas pedras afastadas uma da outra quando o adversário não era a parede. O campo a estrada de terra fofa levantando poeira acastanhada da cor dos nossos pardais. A torcida, pessoas que fugazmente ali passavam para outros destinos. Os ramos pendentes daquela árvores em cada bolada que recebiam, as suas folhas caíam aplaudindo a partida.

Aquela bola durava pouco, porque os colegas ou a roubavam ou se desfazia com tantos pontapés.Levava todas as tardes comida aos porcos e às cabras no curral da ribeira- o seu único trabalho. Como prémio bebia o leite e esperava a bexiga quando matassem o porco.

Dava-lhe prazer vê-la ganhando facilmente altura como uma pena ao vento, saltitando em cada pontapé, diferente da outra lerda na sua trajectória que descrevia. Como era bela a bola de bexiga de porco soprada com o fôlego esfomeado da inocência das crianças daquela redondeza!

Cresceu sem nunca ter uma de borracha e nem sabia da sua existência.Queria trabalhar e possuir tudo na vida como os passageiros e pedestres que ali passavam todos os dias. Quando olhasse para aquela estrada de Bila removia no labirinto da sua mente para o consciente a vontade de ali viver!

Ter uma mulher e muitos filhos.

Ter dinheiro e amigos.

Ter uma casa melhor que aquela dos seus pais onde moravam no “Brandon”

Foi Caixeiro num comércio em S. Filipe.

Tinha as chaves dos armazéns e do cofre. Estava contente porque tudo corria bem.

Os filhos já iam à escola ali perto e a sua alma estava descansada.

Todo o dinheiro que ganhava era para a família. O percurso que quisera fazer não era aquele, apenas uma etapa, e o destino mostrou-lhe que era mais além. Fez economias para seguir uma estrela que o piscava, porque a prole já era grande.

Embarcou para Angola à procura de uma vida melhor para os seus e para ele também!

Ali, quando chegou, morava com os amigos numa casa como aquela que ele deixara no Brandon, cuja recordação enchia-lhe os olhos de lágrimas para molhar as raízes da saudade. Queria economizar todo escudo, porque sentia falta dos que ficaram atrás e tinha pressa.

Veio a família e foram morar no Bairro Prenda-Luanda. A mulher trabalhava em casa fazendo doces e salgados que vendia por todo o Bairro.

Compraram uma casa, diferente, larga e espaçosa para o conforto dos filhos que cresciam exponencialmente e dizia ele que era por desaforo.

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Felício foi à minha consulta logo cedo, porque as formigas gostavam do seu “chichi”.Foi fácil para mim, porque o diagnóstico ele já o fizera...Ficou contente em parte porque, dizia ele, que era “doença de branco-do-bem estar”, mas mesmo assim ia tomar todos os cuidados... e medicamentos.

Fazia tratamento quando se lembrasse.

Foi para o controle numa tarde e ao entrar tinha a testa enrugada, contrastando com o seu bom humor Disse-me que estava muuuuuuito triste e segredou-me no ouvido “desconfiado da .................coisa

-  Entendeu doutor o que eu quero dizer, não é?

Eu sei que entendeu, porque doutor entende depressa. Estou aqui desabafando consigo, doutor, porque em Luanda não tenho muita amizade e conheço-o há vários anos no Fogo, assim como toda a sua gente quando morávamos na Bila Riba e até éramos vizinhos. È certo que é mais novo, mas doutor é como Padre a gente tem de ter confiança.

“Pois è isso”...

Como o filho de um pardal batendo incessantemente as suas asas para aquecer o corpo, assim ele tremia. A receita caiu-lhe duas vezes no chão num imparável treme-treme.

Subiu as suas calças para a cintura incessantemente não podendo abotoá-las nem apertar o cinto.

Ao sair do consultório, olhando para mim no momento de fechar a porta repetiu: “o segredo fica entre nós os dois” Entrou em coma diabético e recebi-o no Banco de Urgência do Hospital N`Gola Quibanda-Luanda.

Pouco tempo depois novo coma o contrário do primeiro. Também estava eu de Banco, no mesmo hospital. Dizia que a mulher não se preocupava com ele desde a roupa à alimentação razão que o levara pela segunda vez aquele estado...

Falamos muito sobre a nossa terra natal e até queria deixar tudo, mesmo os filhos para uma viagem sem retorno. Pediu-me uma outra confidência com os olhos húmidos e mãos em prece.

Que não comentasse com ninguém porque eu era a sua confiança, o seu Médico e o seu Padre. Respondi-lhe que ficasse descansado: sou “uma carta fechada” no dizer do nosso amigo comum no Fogo.

Riu-se de contente, sempre com os dedos das mãos tremendo na cadência de um par de asas batendo, esvoaçando. Repetia-me em cada visita que o fazia na Enfermaria a mesma confidência. Desejaria que os movimentos dos seus dedos fossem asas no seu peito magoado caminhando para a longa estrada. Que a felicidade que não tivera neste mundo sabia ele que a encontraria no fim daquela viagem que tanto ansiara. Que não me sentisse triste e nem pensasse que fosse ele um doente perdido nas minhas mãos, mas sim um confidente.

Hospitalizei-o de novo. O seu estado era grave e merecia cuidados especiais.

Acordou-se no terceiro dia, olhando para mim com semblante cansado.

Fiquei contente porque foi uma grande batalha contra a morte e saiu vitorioso.

Mas ele disse-me que sofreu uma derrota da sua vitória que tanto desejava-a morte. A sua voz era de uma criança se acordando, gesticulando em cada tentativa no seu balbuciar.

No dia seguinte estava melhor, e conversamos. Não se riu comigo logo que entrei na Enfermaria. Tinha expressões faciais rígidas e pétreas, olhar distante num solilóquio descoordenado e gestual.

Falamos e fiquei com a ideia que estava com a sua mente mais saudável que nos dias anteriores.

Perguntou-me pelo dia e pela data. Estranhou tudo, fez as suas contas, contou nos seus dedos e disse que não queria acordar-se jamais, mas......paciência.

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A esposa nunca o visitara em todas as hospitalizações. O filho era amigo e levava-lhe peças de frutas fora das horas das visitas.

Eu colaborava. Felício morreu duas semanas depois.Foi encaminhado à Anatomia Patológica para a autópsia.

O filho mais velho falou comigo e informei-lhe de tudo. Lá fora do Banco de Urgência, a mulher falava com um grupo de patrícios, e talvez chorasse...

À tardinha os filhos, a mulher e todos os amigos do Bairro Prenda acompanharam o caixão que saiu directamente da Anatomia patológica-hospital para o Cemitério do Alto das Cruzes. Choravam discretamente durante aquele percurso. Fez-se o enterro!

No momento em que os acompanhantes do Felício saíam daquele Cemitério para o Bairro Prenda, um outro caixão entrava.
-  Era de um doente de Catete que morrera no mesmo dia que o Felício e que fora também autopsiado. Estavam internados na mesma Enfermaria.

Os seus familiares choravam, dançavam, rebolavam e entravam em êxtase até o desmaio.

No momento em que abriram o caixão para o último adeus ao defunto de Catete, em vez de gritos, houve um grande e inusitado silêncio e depois o bulício. Uma voz enfurecida irrompeu-se entre a multidão: MEU DEUS!!!

Cumpriu-se o desejo do Filício na confidência que fizera ao Médico.

Samuel Gonçalves, Março 07

in: Asemana

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