Coladêras populares
A natureza resistente da mulher rural caboverdiana encarregou-se de manter lúcidas algumas das cantaderas Populares. Dizem que foram consumidas pela espontaneidade com que a população se envolvia nas festas tradicionais e pela variedade de ritmos delas derivadas.
As mais conhecidas sao:
Ana Procópio
Tintina Manê di Bedja
Genoveva Rodrigues ou Beba de Elvira (Patim)
Laura Fernandes ou Laura Joaninha (Lomba)
José di Mêdja (Mira-Mira)
Vejamos como Ema Filipa de Pina (Ema Filipa), nascida em Abril de 1925 e residente em Patim, nelas se envolveu e virou coladêra:
Dimingo Noquinha tinha um tamboron de Nhônhô de Nhô Tchina que permanecia pendurado na casa de Noquinha, lâ de riba, durante todo o ano. Brincávamos de coladêras. Íamos à casa de Dádá que nos dava milho; casa de Djiga que nos dava cuscuz; outros nos oferecia fijon grós e cusa in gran. Roubávamos cana de milho ou cariços para fazermos Pé de Mastro nas épocas de boa aságua. Titia, contente com aquelas nossas carantonhas de rapariguinhas, fazia comida para nós que atassalhávamos à volta de uma tagarra, quando não houvesse colher, porque naquela altura colher era de corno de vaca ou de lata, e eram poucas! Em algumas casas estas colheres eram só para os chefes da família!
Do grupo faziam parte Eu, Mémé, Tchontchon, Bébé e Djidji di Bina. Numa página tal, havia muita crise e pouca comida. A pouca comida existente na época era para se comprar na Bila. Uma família comprava três canecas de milho e desenrascava-se uma semana.
Naquele dia era noite de Canizade de S. Djon. Sirvina veio a passar junto à casa da minha mãe (Deus dal céu). Ela ía para a casa de Ana Loma onde era a festa de Bandêra Grande e convidou-me. Chegados tiraram coladura trabessado e eu repliquei baxôn. De repente chegou defunta Noquinha de nós (que Deus dal céu. Elas todas estão hoje mortas mas eu digo apenas a verdade para não vender a minha alma a Satanás) e pediu-me para colar. Recusei. Curcutiram-me.
Eu estava sentada à frente da cisterna da casa de Ana Loma de pernas estendidas. Mané d’Ana veio com um tagarron de xerêm que não comi por estar chateada com a guenga. Mas confesso que tinha muita fome. Levantei-me e fui me sentar ao lado de uma portuguesa que veio da Praia acompanhada de Xani Badiu para passar a festa.
Havia milho, xerêm, carne e couve e também muita bebida. As mulheres beberam até se fartarem.
Gente de Zambuda subia com canizade de nôte pela estrada em direcção a Monte Grande. Nhô Tchiquete era o dono da Bandêra de Praia.
(Estão a ouvir a minha história; é um conto que tira outro e acrescenta-lhe um ponto.)
Quando Canizade tomou rumo para baixo eu os acompanhei. A meio do percurso constatamos que todas as coladêras mais velhas encontravam-se bêbadas. Os kachêros obrigaram-me a colar. Colei. Kodrei. Gostaram e assim virei coladêra das festas de bandêra de Djarfogo.
Ainda me lembro que era o ritmo Nha Maria Tana.
Kôdrâ era assim:
Antam mámá nhâ distino - Oh, lé, ló, lá...
Ah Pápá nhâ castigo - Oh, lé, ló, lá
Nhâguêm djãm tuma um grogo- Oh, lé..
Oh ê de Jaime de Jónia -
Antam djâ faltam untrum -
Ê de Dimingo Noquinha -
Aél ê stâ na Betfet -
Ê câ tâ lembra di mim -
Nem pel mandam um dolla -
Pam cumpra pano menagi -
Pam roça criola Tchalino -
Quê lâ de Côba Cidrêra.
Por: Livio Lopes