Manduco

Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

BANDERONA

 

Banderona é uma das maiores festas da ilha do Fogo.

Há quem diga mesmo que é a maior festa de Cabo Verde.

É uma festa tradicional, típica da localidade de Campanas, uma povoação que fica a 21 km ao norte da cidade de S. Filipe da ilha do Fogo.

Manifestação cultural de raiz popular, a Banderona, ou a Festa de Bandeira de São João Baptista, é um misto de actividade popular e religiosa, que discorre entre o profano e o sagrado, entre a crendice do povo e a sua expressão material da vida, enquanto vontade divina rodeada de Santos e milagres.

A Banderona assenta-se numa organização bem estruturada, consoante uma tradição antiga.

Os seus membros sucedem-se, segundo uma transmissão familiar, com excepção, actualmente, dos festeiros que, anualmente, são nomeados para custearem e responsabilizarem-se pelas festas.

A figura principal da organização da Banderona é o cordidjeru, uma espécie de governador, poder supremo que tudo dirige e superintende, dando ordens e orquestrando todos. Ele é o responsável máximo pelo andamento das coisas e pela ordem.

A seguir encontram-se os cavaleiros, detentores de bandeiras, que são os guardiões das bandeiras e também da ordem, da paz e da harmonia.

Existe um juiz que preside, juntamente com o cordidjeru, a votação ou nomeação dos festeiros que deverão tomar as bandeiras para a festa do ano seguinte, na cerimónia designada de Bote, que tem lugar, após a fixação do Mastro.

Convém dizer, desde já, que há duas bandeiras entregues através dos botes – a Banderona, que é a festa maior, detentora de sete botes, e a Bandeira da Casa de Praia, detentora de cinco botes –, que servem de apoio à festa da Banderóna, dada a quantidade de pessoas que a ela afluem.

Para acompanhar todas as actividades da Banderona, existe um corpo de coladores que integra tanto homens como mulheres, responsáveis pelas coladeras, pelos cânticos e pelo coro, que são acompanhados por dois caxerus ou tamboreiros, que tocam o colá S.João de uma forma típica.

Os coladores ou coladeras vão colando, cantando, elogiando as pessoas ou enaltecendo alguma coisa, ao que são respondidos por coro, a que chamam kudi baxon, enquanto os tambores vão rufando de forma ritmada e certa, com raras variações.

A obrigação dos elogiados, e dos presentes, em geral, é presenteá-los com algum dinheiro ou alguma dádiva.

Enquanto os coladores podem beber à-vontade para humedecerem a garganta e se inspirarem, o cordidjeru e os cavaleiros são estritamente proibidos de o fazerem, sob pena de sofrerem duro castigo, imposto pelo próprio cordidjeru, que a tudo vela.

Eles têm de estar sóbrios para poderem proteger a banderona e manterem a ordem.

Durante essa festa, muitas pessoas de outras localidades se deslocam em peregrinação a Campanas, com a finalidade de pedirem ao São João Baptista alguma coisa, ou para pagarem alguma promessa decorrente de pedidos anteriores.

Levam velas que acendem à frente da banderona, onde se encontra inscrita a figura de S. João Baptista, e vão rezando, pedindo saúde, bem-aventurança, boas águas e progresso, prometendo alguma coisa em troca – uma garrafa ou um garrafão de aguardente, velas acesas, o sacrifício de um animal ou outra coisa qualquer.

Dizem que, enquanto as velas se vão queimando, as ceras derretidas vão se transformando em figuras de santos e do próprio S. João Baptista.

Dizem, ainda, que têm de pagar exactamente o que tiverem prometido e nunca com outra coisa, senão correm o risco de sofrer algum percalço, alguma desgraça, pois, S. João Baptista não brinca nestas coisas.

Contam até que houve, certa vez, um homem adoentado, que pediu ao S. João Baptista que o curasse, prometendo ofertar-lhe o bezerro que a sua vaca ia dar à luz, e que, entretanto, no momento de pagar a promessa, ofertou outra coisa.

Antes que se tivessem passado três dias, adoeceu de novo, acabando por morrer.

Como se pode ver, a crença popular em S. João Baptista é muito forte.

A festa de Banderona tem mais de duzentos anos. Teve início com as famílias Pina, Sequeira e Medina.

Segundo conta Nho Mulato, com um quê de lenda, tudo começou com três crianças dessas famílias.

Certa vez, em tempos idos, que se perdem na memória, durante o mês de Fevereiro, a população de Campanas foi surpreendida por um incessante rufar de tambores que subia dos vales e se repercutia pelas montanhas, ecoando por toda a parte.

A coladera subia no ar, à noite, e ninguém dormia.

Quando se ouvia essa força num lado, abria-se a porta, e era ouvida então retumbado num outro lugar mais longínquo.

Durante duas noites, ninguém dormiu, até que na terceira noite essa coladera, essa força de som tornou-se em trovoada, em relâmpago, em chuva. E o mundo vibrava, tremia.

Era uma força tanta que não deixava ninguém dormir.

Três crianças brincavam com as suas latas, que transformaram em tambor. Fixaram um Mastro de pano branco num pedregulho e ficaram tocando e brincando até que começou a chover, com relâmpagos e trovoadas.

O mundo estremeceu, então, e um relâmpago desceu para dentro da ribeira onde se encontrava o Mastro e ali permaneceu cerca de meia hora iluminando tudo com o seu clarão ofuscante.

Todas as pessoas daquela zona ficaram atónitas e gritavam e perguntavam o que era aquilo, havendo até quem dissesse que o mundo ia acabar.

Quando amanheceu, foram para a ribeira onde se dera o fenómeno e encontraram aquele Mastro branco de criança, entalado numa pedra da ribeira.

Resolveram então tirar o mastro da ribeira e, com coladera, levaram-no para a porta de uma casa onde fizeram uma matança para celebrar o feito.

A partir daí, passaram a festejar a Banderona nessa data. Em cada ano, uma dessas três famílias se incumbia de organizar a festa.

Por conseguinte, a bandeira constitui o símbolo de uma promessa que deve ser paga condignamente.

Entretanto, analisando alguns dos componentes desse fenómeno, como o relâmpago, que simboliza a centelha da vida e o poder fertilizante, ou o fogo celeste, vindo de Deus, com o seu imenso poder; ou o Mastro e a pedra, que simbolizam a cruz e a matéria, a fertilidade e o sagrado, podemos dizer que a Banderona representa, no fundo, a crença e a fé na natureza e em Deus, à semelhança de inúmeros rituais do género espalhados pelo mundo.

As festividades da Banderona têm início no dia 31 de Janeiro e terminam sempre na véspera do Carnaval.

Ao todo, são vinte e quatro dias de convívio, alegria e festa rija, com comidas, bebidas, brincadeiras, rituais diversos, foguetes e amizade.

Tudo começa no próprio dia 31 de Janeiro, com a construção de barracas e o ritual do pilão, que se prolonga até ao dia 21 de Fevereiro.

Durante esses vinte e dois dias são pilados, sempre acompanhados de coladera, cerca de quarenta e tal quartas de milho, ou seja, dois bidões, numa média de 6 a 8 pilões de milho por dia.

Nessa actividade, apenas participam dezasseis cavaleiros, detentores de bandeira, 12 coladores, dois caxerus, mais o cordidjeru, os festeiros e algumas pessoas das redondezas.

No vigésimo segundo dia, após o início do pilão, começa a grande festa, que se prolonga durante três dias e é para todo o mundo, ou para todos aqueles que para Campanas forem.

Nesse dia, faz-se a matança de animais na casa do festeiro da Banderona e na Casa de Praia, que serão confeccionados nos três dias seguintes, para o repasto de todos os convivas presentes na festa.

Essa cerimónia é pública e imolam-se as alimárias, como que num ritual de sacrifício para a purificação da alma, através do sangue vertido na terra. É acompanhada com o rufar dos tambores e os cânticos das coladeras, sempre presentes, reforçando esse ambiente de oferenda sagrada.

Cerca de vinte e tal cabeças de animais são cortadas, ostensivamente. Só na festa de Banderona são matados 15 bodes, dois porcos e um touro.

O sangue desses animais é aproveitado para a confecção do chouriço de sangue com xerém, muito apreciado por todos.

No decorrer da matança, aparecem alguns ladrões mascarados, que durante o ano se encontravam a monte. Eles são velhacos – roubam e desaparecem. Mas, nesse dia, são agarrados e amarrados. Não obstante, não se deve chamá-los de ladrões porque são terríveis e podem matar todas as pessoas. No vigésimo terceiro dia, a bandeira é levada à igreja para a celebração da missa e receber a bênção do padre. Depois regressa novamente à casa do festeiro, onde é colocada num altar para ouvir as promessas e para lhe acenderem velas, que se vão transformando em figuras de santas e do próprio santo, à medida que se vão consumindo. Neste dia, faz-se a concentração dos cavaleiros para a cerimónia de Tomada de Porta e Reeducação.

Esse acto simboliza o valor e a estima que a bandeira tem no seio da população, como algo sagrado que deve ser protegido. E os cavaleiros, com os seus cavalos, feitos de cana sacarina verde (que chamam de kanadjinha), cortada e talhada na ponta com a silhueta da cabeça de um cavalo, representam a força, o poder e a ordem.

Mas é preciso reeducar esse corpo de elite da bandeira, porque, após um ano guardados, os cavalos, ao saírem, sentem-se eufóricos e querem tomar conta do freio; daí a necessidade de admoestá-los com açoites a varapaus.

E o desafio despoleta-se entre o cordidjeru, com a sua vara, e os briosos cavaleiros. À noite, faz-se o baile de canizade, ou seja, de mascarados que vão dançando ao ritmo da coladera.

No vigésimo quarto dia, o último da festa, não se pila. É o dia da fixação do Mastro e da entrega dos botes.

Essa cerimónia, em que participam os cavaleiros, os caxerus, os coladores e os pagadores de promessas, é muito interessante.

Em primeiro lugar, ornamentam, com flores e enfeites vários, uma flor de sisal seca, encimada por uma bandeira, que levam, de seguida, ao compasso da coladera, para um espaço amplo, perto da casa do festeiro.

Depois vão cavar um buraco para a sua fixação, onde tem lugar uma actividade lúdica, de brincadeira e alegria, na qual se simulam lutas e desavenças, não obstante as varadas do cordidjeru, que são mesmo a sério.

Todos podem participar na escavação do buraco, onde se vai fixar o Mastro, e têm de ser corajosos para enfrentar e receber o varapau do cordidjeru.

No momento de enterrar o Mastro na terra, depois de várias tentativas, os pagadores de promessas vão despejando no Mastro garrafas e garrafões de aguardentes ou outra coisa qualquer, consoante a promessa feita.

E o Mastro mantém-se então erecto como um falo, como um símbolo de fecundação da terra.

A seguir, faz-se a cerimónia para o trespasse ou entrega dos botes aos novos festeiros.

Os botes são uma espécie de votos.

Há dois tipos de botes, que determinam a nomeação dos novos festeiros – o quinto bote, que designa o festeiro da Casa de Praia, e o sétimo bote que determina a quem Banderona será entregue, consequentemente, à pessoa que terá a responsabilidade de organizar a festona do ano seguinte.

Os botes são feitos em segredo, de ouvido a ouvido dos cavaleiros, e só depois são anunciados a todos.

Em primeiro lugar, é nomeado aquele que tem um bote, depois o segundo, o terceiro e o quarto, sucessivamente, com excepção do quinto e do sétimo botes que são decididos pelo cordidjeru Nhô Mulato e pelo juiz dos botes, Tchotchó, que assinam esses botes, antes de os anunciar.

Conseguir as bandeiras, constitui uma grande alegria, porque representa a possibilidade de pagar, mais condignamente, alguma promessa.

Há quem peça mesmo a banderona para poder pagar pedidos feitos em anos anteriores.

Mas, realmente, uma festa do género é um encargo pesado, porque exige muita posse para poder custeá-la.

Após a entrega dos botes, as bandeiras são levadas, sob o ritmo das coladeras, para as casas dos novos festeiros, onde ficarão guardadas até ao ano seguinte.

 

Dany Spinola

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