25-04-09
As Festas de S. Filipe na ilha do Fogo, as mais tradicionais e típicas das festas de bandeira (festas em homenagem a Santos populares), constituem, indubitavelmente, um dos mais antigos e maiores acontecimentos festivos, no conjunto das manifestações culturais Cabo-Verdianas.
A secularidade das festas de bandeira é autenticada por vários documentos ainda existentes na Ilha e por reputados estudiosos da nossa história e cultura.
A título comprovativo, reportamos algumas palavras do grupo SETE ESTRELO - sete jovens que em 1917 resolveram desafiar uma lenda segundo a qual morreriam aqueles que se atrevessem a desenterrar a bandeira de S. Filipe: ?São tradicionais as festas de bandeiras na ilha do Fogo - instituídas há centenas de anos, após as primeiras décadas da ocupação da Ilha, ao que se diz, pelas milícias aqui aquarteladas para a defesa da mesma?
Com efeito, da simbiose cultural verificada na ilha temos ainda hoje bem presentes e de forma perceptível nítidos vestígios das festas, à época, realizadas na metrópole, (Portugal) principalmente nas províncias do norte e, de igual modo, dos rituais mágicos da África Ocidental. Sena Barcelos em ?Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné? cita: ?Ainda em 2 de Julho de 1761, remete... Dr. Carlos José de Sousa e Matos ao Conselho Ultramarino, uma queixa da Câmara Municipal da ilha do Fogo contra o capitão-mor Manuel Germano de Mota, por proibir as festas de S. João, S. Pedro e S. Sebastião?
Asume-se, obviamente, que S. Filipe, sendo o Santo Padroeiro que dá nome à Ilha, depois à Vila e posteriormente à Cidade e ao Município fosse também festejado nessa altura, para não dizer desde os primórdios do povoamento do Fogo.
Uma coisa porém é certa: de 1917 para cá a bandeira não mais foi enterrada. Há sempre alguém que se prontifica para erguer ao alto a bandeira, sempre que esta estiver na iminência de ser enterrada na Igreja Matriz. Aníbal Henriques, por exemplo, o carismático foguense que liderou o grupo ?SETE ESTRELO? - dava tudo o que tinha para manter a tradição. Não é por acaso que a Casa das Bandeiras, na Cidade de S. Filipe, leva o nome de Aníbal Henriques.
O filho, Álvaro Henriques, mais conhecido por "Vivico", dinamizador incansável destas festas, infelizmente já falecido, deixa-nos o relato de como os "SETE ESTRELO" - Aníbal Henriques, Alberto Gomes Barbosa, António Henriques, João de Sousa Macedo, José Emílio Leite, Manuel Ribeiro de Almeida e Pedro Gomes Barbosa resolveram enfrentar a lenda: "Havia uma lenda que dizia que a bandeira de S. Filipe encontrava-se enterrada na Igreja. Aníbal Henriques, meu pai, na qualidade de cavaleiro daqueles tempos, uniu-se a mais seis cavaleiros e decidamente resolveram tomar a bandeira, isto é, resolveram desenterrá-la. Corria o ano de 1917, quando ele veio de Lisboa, onde tinha acabado de tirar o seu curso comercial. Segundo a referida lenda, quem tomasse a bandeira, morreria. Meu pai disse: Se é verdade o que diz a lenda, seremos sete homens a morrer; e escolheu logo o nome para o grupo - "SETE ESTRELO".
Foi assim que o grupo resolveu enfrentar as prescrições da lenda. E tomou a bandeira no dia 1 de Maio, dia das Festas de S. Filipe e dia do achamento da ilha que inicialmente se chamava Ilha de S. Filipe (com as sucessivas erupções vulcânicas, a ilha passa a chamar-se, já pelos primeiros povoadores, ilha do Fogo).
Porém, como dizia, os sete rapazes tomaram a bandeira em 1917. Já em 1918 e nos anos seguintes, a bandeira era festejada por pessoas que tinham feito promessas ao Santo. O saudoso "Vivico" havia-nos fornecido, gentilmente, uma pequena lista manuscrita, já bastante ilegível, feita pelo pai, Nhô Aníbal, contendo o nome daqueles que tomaram a bandeira nos anos seguintes, pelo menos até ao ano de 1933.
Nos últimos anos, mais concretamente depois da independência nacional, para comemorar o dia do Município, que passou a coincidir com as tradicionais festas de S. Filipe, a Câmara Municipal e os festeiros vêm enriquecendo e inovando o programa das actividades culturais, desportivas e recreativas, na pretensão de reforçar a dimensão nacional destas festas e (porque não?) fazer com que este distinto evento festivo se transforme num produto turístico de maior qualidade e ganhe, de ano para ano, uma projecção internacional.
Para comprovar, nada melhor do que assistir, entre a última semana de Abril e o 1º de Maio, aos dois programas paralelos destas festas que misturam o ritmo do tambor, os cânticos e os coros das coladeiras, as cavalhadas em provas de velocidade e perícias, futebol e outras modalidades de salão, brigas de galo, corridas de bote, desfiles de moto, atletismo, missa e procissão, um almoço tradicional que é uma espécie de mega-exposição gastronómica, onde há de tudo, do bom e do melhor, fogos de artifício, cinco dias consecutivos de baile popular, na praça do Presídio, com a participação de grandes artistas nacionais e estrangeiros e muitas outras inovações que, de ano para ano, atraem a atenção de centenas de emigrantes, muitos turistas e cabo-verdianos de outras ilhas, fazendo da bela, limpa e sui generis cidade de São Filipe um dos maiores palcos de animação cultural e desportiva do país.
Bem hajam as festas do Município e da tradicional Bandeira de S.Filipe.
Luis Pires
A BANDEIRA DE NHÔ SAN FILIPE
Antes de falarmos da Bandeira de Nhô San Filipe, cuja data exacta em que começou a ser festejada (embora haja referências ao ano de 1917) não há memória, convém dizer que há várias festas de bandeira na ilha do Fogo. Algumas dessas festas têm lugar em Junho e outras em outros meses, consoante os Santos Padroeiros, mas todas, sem excepção, possuem determinadas características comuns, com ligeiras diferenciações apenas.
Assim, de Janeiro a Agosto, são comemorados, consoante as localidades, São João Baptista, São Filipe, São Filipinho, São Sebastião, São Pedro, São Paulo, e etc.
Entretanto, não obstante todas estas festas se realizarem em diferentes datas, elas começam sempre do mesmo jeito, isto é, com o ritual do pilão.
De facto, a tradicional festa de Bandeira de Nhô San Filipe não escapa à regra, e tem início uns dias antes do dia 1 de Maio, dia do Santo Orago, consoante o poder financeiro do festeiro, com o ribombar de foguetes e a orquestração do pilar do milho que se destina à preparação do xerém para o almoço da festona do dia primeiro de Maio.
Esse ritual é público e constitui um verdadeiro espectáculo de cântico, dança e ritmo.
À volta de um pilão, onde se encontram, em geral, três mulheres a pilar milho, num ritmo cadenciado, postam-se vários outros intervenientes que compõem o corpo de uma verdadeira orquestra de percussão.
As coladeras, os coladores, que vão compondo as suas canções; os tamboreiros, que vão percutindo os seus tambores ao compasso do pilão, no que chamam de brial de pilão, e os tocadores de coletcha, que vão também acompanhando o ritmo do pilão, através das batidas de dois paus no rebordo do pilão, são os elementos que intervêm activamente nessa cerimónia, que atrai uma considerável assistência.
Um ambiente de alegria, emoção e euforia se forma então, sob o contágio desse cerimonial melopeante.
Risos, alaridos, canções e danças se misturam, enquanto as cantadeiras vão molhando as gargantas com aguardente, ou outra bebida qualquer.
Nesses dias dedicados aos preparativos da festa, faz-se ainda a matança de animais, também sob o ritmo dos tambores, dos cânticos e de um certo ritual, enquanto os foguetes vão atroando nos ares festivamente.
Na véspera do dia da grande festa, a bandeira sai da casa do festeiro para ser transportada à Igreja Matriz por um cavaleiro, que se faz acompanhar de outros cavaleiros vestidos a rigor, com jaqueta preta e lacinhos pretos sobre as camisas brancas, mais uma faixa vermelha sobre o cinto.
Tamboreiros, coladeras e coladores acompanham o cortejo pelas ruas da cidade, com o brial de rua, após algumas corridas, segundo a tradição, no Alto de S. Pedro.
Na Igreja, a bandeira é abençoada pelo padre, que procede à celebração de uma cerimónia religiosa.
Nesse mesmo dia, a Igreja é enfeitada com novos adornos e o Santo é depositado no andor, enfeitado com flores e fitas vermelhas e brancas.
No regresso à casa do festeiro, os cavaleiros procedem a mais uma corrida no Alto de S. Pedro, segundo uma norma antiga, em que o porta- estandarte corre em primeiro lugar e só depois os outros cavaleiros lhe sucedem, guardando sempre uma certa distância entre cada corrida.
À noite, em geral, há bailes de violas e violinos em casa do festeiro e, à meia-noite, os foguetes estralejam o ar, riscando de amarelo o negrume da noite como um cometa, em memória daqueles que tomaram a bandeira.
Antigamente, acendiam-se fogueiras que eram saltadas com um pouco de sal ou um ovo nas mãos para se conhecer o futuro, ou o que aconteceria no ano seguinte – se seria de boas águas, de viagem ou de morte, segundo superstição popular.
O dia 1 de Maio, dia do Santo Padroeiro, Nhô San Filipe, a festa começa com o rufar de tambores e foguetes de três respostas, ou salva de morteiros.
É a alvorada que alerta e exorta a toda a gente para a festa.
A meio da manhã, os cavaleiros reúnem-se novamente e saem pelas ruas da cidade, fazem algumas corridas no Alto de S. Pedro e seguem, em marcha solene, com a bandeira desfraldada, em direcção ao local onde em tempos existia um castelo, que seria do primeiro festeiro de Nhô San Filipe.
Chegados ali, os cavaleiros, tamboreiros, coladeras e coladores, que fazem parte do cortejo, comem bolos, bebem, e recebem grinaldas de buganvília.
Depois, dirigem-se para a casa da bandeira de Praia, e daí seguem para a Praia de Boqueirão, onde fazem algumas corridas e molham os pés dos cavalos nas águas do mar, para augurarem boas águas para o ano seguinte.
Da casa do festeiro, à qual regressam, após o almoço na Praia de Boqueirão, vão para a Igreja Matriz onde é celebrada uma missa.
Da Igreja Matriz, o Santo Padroeiro é transportado em procissão pelas ruas da cidade, com cânticos religiosos e rufar de tambor.
Após algumas voltas, acompanhado pelos devotos e pelos festeiros, regressa novamente à Igreja, com a bandeira oscilando no meio dos cavaleiros e dos tocadores de tambor.
A meio do dia é servido, em casa do festeiro, o tradicional almoço aos cavaleiros e aos convidados.
Xerém, carne de bode, couve, mandioca e outros pratos diversos, são os acepipes oferecidos aos convivas.
À tarde, as cavalgadas no Alto de S. Pedro constituem o último ponto dessa festa, sendo um espectáculo emocionante e popular, que reúne milhares de espectadores.
Depois de uma corrida pelos cavaleiros, a bandeira é enrolada e entregue à mesa do Júri, onde se encontram altas individualidades da ilha.
Sob o toque dos tambores, ou o brial das cavalhadas, os cavaleiros vão correndo na pista, tanto para a apanha das argolinhas e grinaldas, como para demonstrarem a sua habilidade, através do que chamam corrida das rosas, em que os cavaleiros correm dois a dois, de mãos dadas.
As argolas e as grinaldas apanhadas com uma vara ou com a cabeça são entregues depois à mesa do Júri, sob o toque especial dos tambores e a ovação dos espectadores.
No final dessas provas, são distribuídos prémios e louvores aos vencedores, para, de seguida, se proceder à entrega da bandeira ao novo festeiro.
Caso não apareçam pretendentes à bandeira, esta é enterrada, ficando então na Igreja, donde só sairá se aparecer quem ofereça o seu resgate no prazo de quarenta e oito horas.
Há mesmo uma lenda que conta que uma vez a bandeira foi enterrada com o agouro de que quem a tomasse e fizesse a festa morreria. Pelo que não foi festejada durante muito tempo, até que um grupo denominado Sete Estrelo desafiou esse agouro e tomou a bandeira, que passou, desde então, a ser festejada até agora.
E assim foi o nosso apontamento sobre a tradicional festa da bandeira de Nhô San Filipe da ilha do Fogo.
Dany Spinola