Manduco

Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

Uma grande placa de madeira assim dizia. Descemos e contemplamos todo aquele mundo mais negro que acastanhado à nossa frente. Ao fundo um dos maiores Gigantes do mundo acariciando os seus três filhos deitados aos seus pés quais pseudópodes emergidos do seu próprio corpo nascidos em cada berro de uma gravidez magmática. Uma grande cortina rochosa em abraços semi-circunda a Chã das Caldeiras. Por: Samuel Gonçalves


Bem-vindos à Chã das Caldeiras.

Uma grande placa de madeira assim dizia. Descemos e contemplamos todo aquele mundo mais negro que acastanhado à nossa frente. Ao fundo um dos maiores Gigantes do mundo acariciando os seus três filhos deitados aos seus pés quais pseudópodes emergidos do seu próprio corpo nascidos em cada berro de uma gravidez magmática. Uma grande cortina rochosa em abraços semi-circunda a Chã das Caldeiras.

Quantas vezes desabada em cada grito no momento expulsivo do seu parto! Essas rochas são o quilombo de um bode branco, viril, forte, de grandes estatura e chifres, visto poucas vezes até pelos que lá habitam. Olha para o Gigante com displicência, cheirando no ar o fortificante enxofre que o torna acrobático e o livra do laço do seu incansável e derrotado predador.

Os seus visitantes sentem um ar misterioso, mágico e fascinante durante toda a sua estadia, principalmente ao cair da tarde. Há uma timidez própria do homem que renova e nos encapsula na nossa pequenez quando olhamos para aquele Gigante parecendo que quer alcançar o céu num eterno diálogo com Deus.

Por entre aquelas “ondas” negras de um mar revolto feito de lavas incandescentes há pedras de todos os tamanhos quais soldados tombados numa dura batalha campal. Também entre elas há Vânia e os seus três irmãos em proporções iguais - meninas e rapazes, de nove a treze anos cujo desenvolvimento estato-ponderal, é inferior ao esperado.

Tinham no olhar interrogações próprias de crianças confinadas num mundo em que as três obrigações da subsistência humana se resumiam apenas numa. E nesse frágil equilíbrio de direito à sobrevivência negada pelo homem, a natureza agreste oferendou-lhes o enxofre e a “contra". Esses quatro irmãos têm nomes: Dú, Quibala, Santa, além da Vânia. Traziam nos seus balainhos aqueles dois produtos escavados nas cristas de um amarelo vibrante dos filhos do Gigante. É a sua dádiva para os que vivem no seu sopé!

Todos os dias antes de se levantarem, olham para ele na esperança de um novo dia. E também para os céus fazendo o persignar-se. Depois percorrem os seus olhares como o girassol virando a sua corola para o sol. Acompanham a sinuosidade da fumaça esbranquiçada nos trilhos dos carros desde a placa da sinalização de entrada da Chã à Bangaeira. A esperança renasce-lhes em cada turista que chegue, porque sabem que aquela presença é importante para toda a família.

Mas não vendem apenas o enxofre e a “contra”, esta embrulhada cuidadosamente em pedaços de papel do saco de cimento. Daquelas negras pedras saem esculpidos, objectos diversos e úteis feitos por eles os quatro irmãos, numa simplicidade rudimentar e atractiva.

Há mensagens em cada pedra que aquelas mãozinhas ágeis de criança manejam, traduzidas em valores artesanais e um recado para as criaturas que querem ouvi-las. Só no Criador acreditam!!

Vânia embora mais nova era a leader dos irmãos, fazendo propaganda dos seus produtos. Quando falava, os outros eram a sua ressonância, o seu eco, numa admirável concordância. Brilhava naquele cenário negro, em perfeito contraste com a fragilidade do seu corpo e a sua estatura. Ela olhava nos olhos dos seus fregueses, com persuasão e firmeza sem deixar transparecer as suas lágrimas sêcas. Ninguém resistia à sua vontade de levar para casa o saldo da sua conversa, para os tantos irmãos mais novos que deixara dormindo.

Em cada manhã bem cedo ela saía da sua casa feita com as mesmas pedras da sua habilidade, saltando as tantas não trabalhadas e toscas, torcendo o pé, para no seu ponto esperar o dia. À noitinha saltitando e cantando uma melodia bucólica, chega à casa na companhia dos outros três fazendo o quarteto da receita familiar. Em cada sol que escurece, haverá sempre um novo e brilhante, que lhes trará certamente um sorriso que nunca tiveram.

Dorme tranquila, porque sabe que ganhou o dia com a sua receita de polivalência farmacológica: “uma colher de “contra” num copo com água, beba e descansa um pouco na cama. Fica sem dor de barriga. Também cura lombriga e sarna”.

Mesmo aos que não falam a sua língua, Vânia passa a sua receita!

Em S. Filipe, Maio de 2007

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