| Forum Home > NOTICIAS > Ilha de marinheiros sem barco - Brava, a ilha isolada do arquipélago | ||
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Francisco Mendes Member Posts: 38 |
A Brava está afastada das rotas normais de navegação. É abastecida por um ferry boat que passa duas vezes por semana, e tem passageiros transportados por uma traineira outras quatro vezes, nos mesmos 8 dias. Este último navio, só pode levar 25 pessoas por viagem. Geralmente, são mais aqueles que enfrentam a travessia de uma hora, com mar calmo, que mesmo assim parece durar uma eternidade.
O Fajã d'Água é uma traineira de vinte e seis metros de comprimento por seis metros de largura. Tem doze anos, que já começam a fazer-se sentir na pintura a branco e azul, na âncora cor de ferrugem e nas barras de segurança que estão a ficar com os cromados embaciados. Na gíria popular, é uma chamada casca de noz, que enfrenta as ondas do canal que divide as ilhas do Fogo e da Brava.
A bordo cabem 25 passageiros, apertados, mas são sempre mais os que são transportados, porque a solidão da Brava só é suavizada às segundas, quartas, sextas e sábados. Por isso mesmo, facilita-se sempre a entrada de mais um para o navio.
Há ainda espaço para oito tripulantes, para as bagagens, para um bote salva-vidas e ainda para mais dois insufláveis e cerca de cinquenta e sete coletes, que são bem precisos se algo correr mal. É que nenhuma das ilhas tem embarcações, ou aeronaves, para fazer face a qualquer emergência. "Se algum dia houver um naufrágio", diz um dos responsáveis da capitania do Fogo, "só podemos contar com os barcos a remos dos pescadores, ou então com a mestria das pessoas conseguirem nadar até uma das ilhotas que existem no meio do mar".
É em Vale dos Cavaleiros, cais da ilha do Fogo, que o Fajã d'Água aguarda o embarque dos passageiros. Parece uma miniatura de barco ao lado do navio de transporte, bem maior, que também aguarda sinal para sair para o largo. A subida, ou melhor, a descida a bordo da traineira não é das mais fáceis. Faz-se a salto, da beirinha do cais para o convés, cerca de um metro e meio abaixo.
Para os menos habituados provoca uma certa ansiedade, confessaram alguns passageiros: estar ali, naquela fatia de cimento, a preparar o pulo para o estrado de madeira de um barco que não está, propriamente quieto, mas que se vai movimentando de forma contínua, ora avançando, ora recuando com a força da água. Assim que se aproxima, logo se afasta de quem quer entrar.
Com a ajuda de alguns membros da tripulação, que dando as mãos aos passageiros, os puxam para o navio, aproxima-se a hora da partida. Os gestos tornam-se mecânicos. Os tripulantes recolhem as amarras enquanto o piloto inicia as manobras que levarão a traineira para o alto mar. Até à Brava.
Do Fogo a Brava navegam-se nove milhas marítimas. Cerca de quinze quilómetros. A uma velocidade média de onze nós. A travessia dura cerca de uma hora. Pouco? Muito, porque é uma das zonas com o mar mais revoltado de Cabo Verde.
São sessenta minutos a enfrentar a ondulação. "Hoje o mar até está calmo" dizia um sorridente piloto, esta segunda-feira perante as caras pouco animadas dos passageiros. Vestido com uma t-shirt desportiva vermelha, rosto jovem e sem barba, este marinheiro não se parece com os lobos-do-mar que o cinema e a literatura consagraram. Falta-lhe a barba, o boné, o cachimbo, ou até uma garrafa de rum numa das mãos.
Não deixa, no entanto, de manobrar o leme como se fosse um brinquedo. É a experiência de meio ano a fazer esta travessia quatro vezes por semana. "Complicado é quando temos vagas de seis metros. Isso é que torna a travessia num desafio" continua o piloto, dando pouca importância às ondas de um metro, um metro e meio que sacodem o barco sem descanso.
Assim que se sai do porto do Fogo, começa o bailado entre o Fajã d'Água e o mar. A partir daí, é uma hora ininterrupta com o navio a ser fustigado pelas ondas, que tanto tombam o barco a bombordo como a estibordo, que é o mesmo que dizer que ora o inclinam para a esquerda, ora para a direita. Da mesma forma, o oceano tanto faz levantar a proa como logo a seguir faz embicar a popa. Numa espécie de valsa a quatro tempos em vez dos três habituais: esquerda-direita-à frente-atrás, um ritmo sincopado que se repete várias vezes a cada minuto e que se multiplica por mais sessenta desses minutos.
"E hoje estamos com mar calmo" recorda o piloto. Na cabine ouve-se funaná, respira-se descontracção, pelo menos por parte da tripulação, porque os passageiros tentam agarrar-se ao que podem para manterem o equilíbrio. O radar mostra a rota que está a ser seguida, e o pontinho branco, que representa a traineira, ainda está tão longe da mancha castanha que representa a Brava.
"Esta é a zona mais funda do canal" diz de repente o piloto, apontando para o sonar, vai a viagem quase a meio. Da superfície do mar até ao seu fundo são dois mil e quinhentos metros. Há terra a dois quilómetros e meio, mas bem lá no abismo do oceano, porque a terra firme ainda está a mais meia hora de abanões.
O corpo começa a reagir às condições que está a enfrentar. O comprimido contra o enjoo mantém o estômago sossegado, mas as pernas já parecem de borracha, tantas vezes têm de fazer força para contrariar os balanços do navio. A cabeça começa a doer e o cérebro parece oco. Surgem as primeiras tonturas. Os olhos não conseguem focar.
"O navio não tem as melhores condições para os passageiros", admite o comandante, enquanto olha para as cerca de trinta pessoas que se sentam, onde podem, espalhadas pelo convés do navio. Uma das soluções que avança seria retirar a parte que servia para a pesca, uma espécie de grades de madeira que ocupam grande parte da zona traseira do barco, e trocá-la por cadeiras.
Aliás, as dez traineiras que foram compradas pelo governo de Cabo Verde, destinavam-se, inicialmente, apenas à pesca nas costas angolanas. Mais tarde foram desviadas para o transporte de passageiros e foi assim que a Fajã d'Água acabou por unir as ilhas do Fogo e da Brava.
Contudo, os habitantes da Brava desesperam mesmo é pelo prometido Fast Ferry que está a ser construído na Holanda. Até Julho deve chegar esta nova embarcação, se não houver mais atrasos, e os bravenses esperam que, então sim, se façam sentir os benefícios do turismo, uma vez que haverá mais passageiros transportados com mais conforto e mais rapidez.
Até porque a ligação entre a ilha e o mar já vem de longe, e é explicada com orgulho pelos que moram na Brava. Esta era a Ilha que, há dois séculos, quando tinha cerca de metade da população actual, ou seja, aproximadamente três mil habitantes na altura, contava então com 250 capitães de navio, quase dez por cento dos residentes.
No século XIX estes marinheiros cabo-verdianos começaram a emigrar para integrarem as frotas baleeiras. Primeiro nos Açores, arquipélago português, depois mais para norte, para os Estados Unidos da América. Talvez seja este mar revoltado, afinal, um óptimo professor da arte de navegar.
A navegação fica mais suave, sinal que o Fajã d'Água se aproxima do pequeno porto da Brava. A aproximação inicia o trabalho do desembarque. Passageiros e tripulantes começam a juntar as bagagens. Os rostos apresentam feições de alívio pelo fim da viagem. Desta vez o costado do navio está ao nível do cais. O fim da travessia traz também a recordação que o trajecto repete-se esta quarta-feira. O que não é a mais animadora das perspectivas.
Fonte: Expresso das Ilhas | |
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