Manduco

Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

Topic: RAMIRO MENDES- Entrevista

Post Reply
Forum Home > PARLAMENTO ONLINE > RAMIRO MENDES- Entrevista

Manduco
Site Owner
Posts: 77

 

 

Ramiro Mendes é um produtor discográfico, compositor, artista e humanista, natural da ilha do Fogo, graduado na conceituada Berklee College of Music de Boston, em 1993, com o grau de arrangista e compositor de bandas sonoras da cinematografia.

 

Residindo actualmente em Beverly Hills, Los Angeles, Califórnia, EUA, foi nomeado, embaixador cultural pela The Sole of Africa, uma organização de cariz humanitária ligada à Fundação Minesseker. Fundada pelo seu actual presidente, Michael Kendrick, e administrada por Charlie Gay, como director executivo, conta com o apoio de grandes líderes planetários, homens de negócios e celebridades mundiais, nomeadamente Nelson Mandela, Queen Noor of Jordan, Graça Machel, Sir Richard Branson, Brad Pitt, John Paul de Joria, etc

 

Foi condecorado com a Ordem do Vulcão, a mais alta condecoração civil no País, atribuída pelo Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires, pela sua distinta contribuição à música e à cultura cabo-verdiana. Foi também galardoado, pelo Primeiro Ministro Jose Maria Neves, com Medalha de Mérito pela sua contribuição à musica caboverdiana.

 

Ramiro Mendes é, ainda, um galardoado com a Boston Music Awards e pré-nomeado para o Grammy, na qualidade de produtor musical, compositor e artista.

 

Ramiro Mendes é, assim, uma autoridade que simpática e humildemente se disponibilizou a falar connosco, abordando temas relativos à musica e cultura foguense, não se esquivando de identificar alguns constrangimentos, apontar soluções e lançar desafios.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

ENTREVISTA

(Dirigida por Henrique A. Barbosa)

 

 

 

MANDUCO - Na "terra longi" você é considerado umas das estrelas da musica crioula. A que se deve esse tamanho reconhecimento?

 

 

RAMIRO MENDES - Todo esse reconhecimento tem como suporte o trabalho, investimento e, sobretudo, muito esforço... ter como espelho a cultura.

 

 

MANDUCO - O seu reconhecimento é tanto em Cabo Verde como na diáspora, mas existe um lugar onde esse prestígio tem um sabor especial- a ilha do Fogo, a sua terra natal. Como é a sua relação com a ilha que lhe viu nascer, principalmente naquilo que mais sabe fazer - a música.

 

 

RAMIRO MENDES - A relação com a minha ilha é a de mãe e filho. Muito boa! Embora gostasse de poder estar lá mais vezes, compartilhando momentos com os meus colegas, amigos e, sobretudo, com a minha família artística.

 

 

MANDUCO - A incursão pelos ritmos da ilha sempre esteve presente nos seus trabalhos discográficos, onde se destacam ritmos tais como Talaia Baxu, bandera, tchoru, cola, rafodju, entre outros. O porquê desses ritmos tradicionais e em que estagio se encontram?

 

 

RAMIRO MENDES - Para mim é muito importante a identidade cultural, neste caso especifico, a identidade musical. Daí, um esforço especial para ter sempre nos discos que gravo e produzo a representação da ilha do Fogo. Há que se fazer isso porque os ritmos tradicionais estão a perder no dia a dia com a globalização e a conseqüente introdução e assimilação de ritmos e músicas estranhas à ilha e, ainda mais, com o desaparecimento físico de alguns "monstros" da musica tradicional. Ainda, é indispensável mais atenção e engajamento dos poderes local e nacional nessa luta de preservação, com destaque, sobretudo, na recolha dos valores que ainda estão na memória coletiva do povo.

 

 

MANDUCO - Será que houve uma popularização destes ritmos, depois de trabalhos como Bandera, Torri di Controle e outros álbuns?

 

 

RAMIRO MENDES - Hoje, já se nota mais interesse de alguns artistas e compositores nesses ritmos, o que é muito bom. A tendência é de um crescimento na procura, no estudo e na descoberta da riqueza que constitui os ritmos e musicas da ilha do Fogo.

 

 

MANDUCO - Na tua opinião qual é chave para a popularização dos ritmos tradicionais da ilha do Vulcão?

 

 

RAMIRO MENDES - Muito trabalho será necessário para uma massificação dos ritmos do Fogo, que, diga-se de passagem, não são poucos. Deve ser um trabalho abraçado pelos músicos, artistas e compositores da ilha que se interessam pela originalidade e autenticidade, deixando assim, como legado, uma base sólida para o trabalho das futuras gerações.

 

 

MANDUCO - Quais as recomendações para os músicos, em particular os mais jovens, que querem envereda-se para os ritmos tradicionais?

 

 

RAMIRO MENDES - É necessário que estudem os ritmos junto dos mais velhos, ouvir discos, gravações e tentar presenciar os eventos onde está a música tradicional. Há alguma musica tradicional gravada, o que facilita os jovens interessados nos seus estudos. As músicas do Fogo, principalmente as da Bandeira, poderão ser ouvidas e estudadas através das produções da MB Records.

 

 

MANDUCO - A musica tradicional sempre mereceu destaque impar em seus trabalhos e projetos musicais. Qual é a relação, proximidade ou semelhança entre o que se faz no Fogo e à volta do mundo, especificamente no continente americano.

 

 

RAMIRO MENDES - As músicas tradicionais do Fogo são bastante distintas. Contudo, há algumas semelhanças no formato "cola/baxon" ( Call and Response) que é muito popular nas músicas tradicionais africanas e também nas da "Diáspora Africana do Atlântico"(Costa atlântica de todo o continente americano, onde há forte presença de influencias culturais africanas). Em termos de ritmos (Kanizade, Ritmos de peças da Bandera) há muitas semelhanças, principalmente na costa ocidental africana onde estão as origens da maioria dos estilos musicais dessa diáspora.

 

 

MANDUCO - Como você explica que determinados artistas se interessam logo por ritmos mais conhecidos ou popularizados ao invés de serem mais originais e inéditos?

 

 

RAMIRO MENDES - O que é popular é sempre interessado pela juventude. Com a massificação da música antilhana, americana e de outras paragens, é normal que a juventude se interesse por este fenômeno. Depois de alguns anos, esta mesma juventude voltara á fonte, assim como aconteceu com muitos de nós. É de se realçar, no entanto, que em Cabo Verde, o interesse da juventude pela musica tradicional tem sido um fenômeno crescente.

 

 

MANDUCO - Mudando um pouco, as políticas culturais projetada pelos governos dos diferentes países nem sempre agradam a todos. Como você vê a atuação destas intuições culturais em Cabo Verde na promoção da musica e de outras manifestações culturais?

 

 

RAMIRO MENDES - Infelizmente, as políticas culturais nalgumas partes do mundo não estão á altura dos valores culturais dos respectivos países. Cabo Verde não foge a esta regra. A cultura continua e sempre será a maior e a mais importante moeda do mundo. Nada é mais importante do que a nossa identidade cultural. Quem somos e o que seremos sem uma identidade?

Mas devemos frisar que há um sinal de preocupação na melhoria das políticas culturais, mas se calhar, será a próxima geração que marcará a diferença. Tenho muita fé e confiança nos Caboverdianos e no povo Africano. Apesar de tudo que aconteceu connosco nesta historia recente dos últimos 500 anos, para não dizer 3.000 anos, continuamos de pé, firmes e com os olhos no futuro.

 

 

MANDUCO - E em relação do que é feito na Ilha do Fogo em prol da música e outras manifestações culturais?

 

 

RAMIRO MENDES - A música na ilha do Fogo, infelizmente, está com pouca presença. Para reverter a situação, são necessários alguns investimentos em infra-estruturas como estúdios de gravações áudio/vídeo; criação de pequenas escolas de musica, de salas e recintos apropriados para espetáculos musicais; a re-introdução da música nas escolas; disponibilização de mais instrumentos musicais para crianças, jovens e adultos; enfim...

Se calhar, menos investimentos nos festivais e mais nestas áreas que poderão formar grandes homens para o futuro, e, que um dia, trarão maiores frutos para a ilha e Cabo Verde de um modo geral.

As festas tradicionais continuam a respirar, mas com pouco fulgor nos seus aspectos mais típicos. Lembro da minha infância, havia mais euforia e mais participantes envolvidos nos aspectos tradicionais das festividades.

 

 

MANDUCO - Quais as recomendações que você deixa às instituições e intuições culturais da Ilha do Fogo?

 

 

RAMIRO MENDES - Deve-se dar alguma atenção às questões culturais. Devem cuidar da cultura local, preservar e promover o que de bom tem a nossa ilha. Tudo isto representa grande investimento para a ilha e Cabo Verde, com um retorno certo e de grande envergadura.

 

 

February 16, 2010 at 4:48 AM Flag Quote & Reply

TAMBARINADURO
Member
Posts: 56

Ramiro, a meu ver, e um dos maiores de Cabo Verde, e o melhor que o Fogo ja produziu...Ele projectou e continua a projectar a nossa musica e cultura.  A obra dele, em conjunto com o irmao Joao, do meu maior apreço e Palonkom - uma obra prima!!!!! Esta musica mexe com todas as cordas da minha alma, talves porque estou desterrado na emigracao....Muito obrigado Ramiro pela musica e Joao pela interpretacao e voz maravilhosa.... You guys rock !!!!!!!!!!!!

February 16, 2010 at 8:43 PM Flag Quote & Reply

You must login to post.

Members Area

Login with Facebook

INQUERITO

Fotos Recentes

 

Recent Videos

128 views - 1 comments
680 views - 11 comments
492 views - 1 comments
372 views - 1 comments

NOVOS MEMBROS

 

MOTOFOGO