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AS DESILUSÕES DE JOSE MARIA NEVES Sem nada de especial para dizer aos cabo-verdianos, porque de novidade pouco ou nada tem agora os seus discursos, de tão gastos que já estão, o presidente do PAICV surgiu no último congresso com um ar triunfal. A ovação, com Vangelis pelo meio, não chegou para esconder o nervosismo e o clima de mal-estar que rodearam a preparação deste conclave tambarina. De Neves, esperava-se muito mais. Em matéria discursiva, a conversa foi a de sempre, nada que não contávamos dado o tempo, nove anos, que já leva na governação de Cabo Verde. A boa razão aconselhava-o a gizar e, de seguida, a fazer um discurso voltado para o futuro e não para o passado, porque, salta aos olhos de todos, continua, de modo insistente, a culpabilizar os governos do MpD pelos nossos males, pondo uma esponja sobre os do seu partido. Invariavelmente, tem sido esta a postura dos líderes políticos cabo-verdianos. De 1975 a 1985, por exemplo, não havia um único dia em que Aristides Pereira e, sobretudo, Pedro Pires não atribuíam aos portugueses a responsabilidade pelas desgraças e pelo sofrimento do nosso país, designadamente, no que à falta da água e da luz dizia respeito. Hoje, quase 35 anos depois da independência nacional, continuamos, mormente, na Praia, a não dispor, suficientemente, dos dois preciosos bens. De quem será a culpa agora? Cremos que já é tempo de os partidos assumirem os êxitos e os falhanços da sua governação. Não adianta apontarmos o dedo aos outros quando as coisas nos correm mal, porquanto, em presença de uma situação contrária, é enorme a tentação de insuflarmos, sem a menor hesitação, o peito de ar para reivindicar tudo o que seja bom, com pompa e circunstância. Daí que se mostrasse importante que Neves nos brindasse com um discurso mais polido, mais perspicaz, mais coerente e, acima de tudo, virado para o futuro. Isso é que nos interessa. Os erros da governação do MpD não servem para justificar e explicar o estado de crise económica e de confiança em que o país se encontra. Nem os espíritos menos esclarecidos se deixarão levar, certamente, por esta cantiga, já de si estafada. O MpD já foi julgado, penalizado e colocado na Oposição por quem tem o poder soberano de o fazer. Pagou o que tinha a pagar. Agora, quem está no banco dos réus é o primeiro-ministro. É escusado fugir, porque, daqui a um ano, mais dias menos dias, o povo será convocado, de novo, às urnas para decidir, em consciência e em ambiente de transparência e de liberdade, quem irá governar o país. Esperemos que o Poder do vencedor, a sair entre o MpD e o PAICV, resulte da vontade e do consentimento do juiz e nunca de arranjos fraudulentos, que só servem para macular a imagem da nossa democracia, um bem a conservar, a qualquer preço. Num outro plano de análise, Neves evocou Amílcar Cabral, cuja memória, entre nós, é apenas lembrada, todos os anos, em 20 de Janeiro, em 5 de Julho e em 12 de Setembro. É muito pouco, convenhamos, para um homem a quem se atribui o acto da nossa libertação do jugo português. Uma vez mais, Neves foi infeliz ao trazer à colação o líder histórico do PAIGC, porque, por via de regra, o situa sempre mal. Desta feita, tentou remontar a origem da democracia e da liberdade a Amílcar Cabral. É de bradar aos céus! Cabral é, de entre muitos, um homem da independência. No dia em que o passarmos a ler bem, sem paixão, sem ódio e sem dogma, ser-lhe-á atribuído, a justo título, um locus na nossa história, que conquistou com a sua própria vida, porque não é um favor fazê-lo, tamanho é o seu valor. Impõe-se, entretanto, que o analisemos tal como ele é, com as suas virtudes e os seus defeitos, e não como gostaríamos que ele fosse. Se se continuar a endeusá-lo, separando-o do comum mortal, perder-se-ão, seguramente, a noção da realidade e a frieza para melhor o compreender e reinterpretar. O líder do PAICV mandou recados à Oposição, nada que nos espantasse. Era seu dever, elementar mesmo. A surpresa está na forma como o fez, ao advertir que, em Cabo Verde, já não há lugar para democratas de papel. O homem resolve sair com essa agora, depois dos tristemente «jovens drogados», «burros na ladera», «mintrozu», «sombra coco», entre outros que escaparam às mentes mais atentas. Ninguém o viu a pedir desculpas por estes clamorosos erros. Democratas de papel! Que é isso? Neves quer dar lição de democracia ao país? Imaginem só! Em 1990, em plena transição para a democracia, confessava à revista portuguesa «Sábado», em entrevista que depois foi dada à estampa no jornal «Tribuna», nº 48, de 1 a 15 de Setembro, que a sua primeira desilusão política ocorreu quando deu conta que, afinal, «(...) as outras ex-colónias portuguesas eram repúblicas populares e, nós, república apenas (...)». Trocado por miúdos, a adopção no texto constitucional de uma República Popular, em Cabo Verde, significaria mais ditadura, mais prisão, mais partido único, mais opressão, mais polícia política, mais repressão e, numa só palavra, mais autoritarismo. Trata-se de um discurso radical, que espelha o verdadeiro carácter político de Neves. Hoje, visto à distância, fica a sensação, isto é, a suspeita, reforçada até pela forma como dirigiu o recente congresso tambarina, que ainda não se converteu aos ideais da democracia e da liberdade, por mais recauchutado que se apresente aos olhos do povo. A segunda frustração de Neves está em linha com a precedente. Confessou que ficou, de igual modo, desiludido quando, em 1977, no III Congresso, o PAIGC não se proclamou, ao contrário dos outros, como um partido marxista-leninista. «(...) E eu senti um grande vazio» - diz, à guisa de lamento. Agora, estamos bem seguros de que Neves era, de facto, embora fosse, ao tempo, um militante de pouca expressão no sistema de Poder, da linha dura do então PAIGC. Têm razão os que ainda dizem que era enorme a tentação de algum sector do PAIGC de nos impor um regime totalitário. Pelos vistos, pedidos não faltaram dos que se achavam insatisfeitos com o autoritarismo. Desejavam ver implantado, entre nós, um regime semelhante ao da União Soviética de Stalin, ao da China maoista, ao do Cambodja de Pol Pot, ao da Etiópia de Mengistu e ao de Angola de Neto. Nem do ponto de vista geográfico, Cabo Verde suportaria um regime desta natureza, porque os campos de concentração seriam tantos que teríamos que os mandar fazer no Paraguai, no terreno da EMPA. Outra nota deste conclave tambarina é a que marcou a luta entre Neves e Felisberto Vieira. A troca de palavras entre os dois camaradas permite concluir que o reino dos tambarinas está doente e, por mais que se tente tapar o sol com a peneira, os resultados do congresso não deixam esconder a realidade. Uma coisa é certa. Neves ganhou o conclave, mas perdeu o partido, mesmo que continue a ter a faca e o queijo na mão. Vieira perdeu por culpa própria. Era seu dever, para não dizer, obrigação política, em nosso modesto entendimento, apresentar a sua candidatura à liderança do PAICV. Ainda que fosse derrotado, outra coisa não seria de se esperar, dadas as circunstâncias do momento, marcaria o terreno para os próximos embates políticos. Não o fez e agora vê-se numa situação de autêntica humilhação. Mostrou-se disponível para ocupar um lugar de vice-presidente. Não o conseguiu, por vontade de Neves, que alegou princípios de não acumulação de poderes. A ser verdade, tratar-se-ia de uma coisa nobre, mas, não o é, sabido que, em casos idênticos, Neves tem sempre usado dois pesos e duas medidas. Não é por esta razão que Neves preferiu Orlando Sanches a Vieira. O problema é político e, caso o aceitasse, colocaria em perigo a unidade e a coesão do órgão que detém o poder no PAICV: Neves e o triunvirato dos vice-presidentes. Nem a dormir Neves convidaria Vieira a ocupar um lugar de vice-presidente. A eventual inclusão do antigo autarca da Praia no triunvirato é um elemento de perturbação. Até porque, também, é uma questão de confiança. Neves não confia em Vieira e preferiu mantê-lo à distância das estruturas cimeiras do Poder, ainda que, por boleia, tenha garantido um lugar na Comissão Política. Vieira diz-se perseguido e reclama maior espaço para debates internos. Encurralado, sem muita margem de manobra, tem agora, mais do que nunca, de procurar um canto para encostar a cabeça. Caso contrário, será uma voz solitária, sem expressão, e com um futuro político muito incerto no PAICV. Evidentemente, apostará num eventual desaire de Neves nas legislativas de 2011 para depois fazer face a Orlando Sanches, que se apresentará na corrida. Parecer ser o novo delfim de Neves, já que Rui Semedo caiu. Daniel dos Santos danielpedrosantos@msn.com neydipedro.spaces.live.com | |
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Member Posts: 89 |
bla bla bla bla bla bla...Que tal uma analise sobre a situacao do MPD..sem esquecer a disputa entre Veiga...Santos...Aguardo | |
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