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Testamento

Posted by Eliezer on April 24, 2009 at 10:55 AM

 

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Quão bom seria poder ser enterrado na minha terra, embaixo de uma videira, deitado de costas, olhando para o céu, eternamente, nos dias mais ásperos e nos mais chuvosos, cinzas, frios, que apelam à solidão.

Quem sabe assim tanta água possa lavar minhas mágoas, meu peito apertado por tantos anos de ausência, minha alma espremida pelo peso da nostalgia, pela plenitude da solidão que me preenche.

Talvez o sol escaldante do mês de Maio consiga secar minhas lágrimas, aquelas nunca choradas, recalcadas, imerecidas lágrimas de um pecador, de um inveterado transgressor.

Queria ser coberto por toneladas de lavas incandescentes, pois seria essa a forma de incenerar meu espírito indigno, meus pés indignos de pisar nessa terra.

Mas antes disso tudo queria rever cada milímetro desse sagrado chão, sentir o cheiro das árvores de flores abertas, atraindo meu espírito, com mais veemência do que o mar atrai seus afogados.

Almejo vivenciar os mais perfeitos momentos já experimentados, na solidão da tarde, olhando pasmo, de longe, sozinho, para a fumaça suave, dançando em cima de um funco, hipnotizando minha alma, agarrando-a com força, terna e eternamente. Nem precisava, meu ser pertence a essa realidade, não importa onde esteja meu casco, minha essência é essa, inexoravelmente.

Suplico andar descalço nesse frio e seco chão, mas não tão seco quanto meu íntimo, não tão frio quanto isso a que fui obrigado a me transformar.

Quero sentir todas as emoçoes, desde o cheiro de bosta de vaca, que me lembra sempre de onde são minhas raízes, até ao arrepio que vivencio ao ver uma criança dançando, ingênua, feliz, na chuva que cai torrencialmente, lavando o desânimo de quem há muito vem esperando por ela, sempre, de olhos arregalados para o céu, suplicando, Deus não deixe faltar pão na minha mesa, não deixe faltar comida na boca de meus filhos, de todos eles, das dezenas deles, não deixe que a coragem se escape por entre meus dedos, não deixe que meu espírito fraqueje, em nome de Jesus, Amén!

Antes de morrer quero ouvir de novo as histórias do rapaz que está querendo namorar a menina da casa ao lado, Hoje é dia de festa, oji m-ta tral di kasa, sem dinheiro no bolso, sem futuro traçado, sem promessas a fazer, cujo charme reside na sua forma rude de ser, na sua coragem desmedida, de mangas enroladas, pronto para o que der e vier, pronto para encarar anos de seca quanto dias de chuva a fio, apto a dormir ao relento, com um pedaço de lava pretendendo ser seu travesseiro, quanto no conforto indescritível de seu funco. Que lugar no mundo é mais confortável que um funco?, eis o desafio lançado aos sábios.

Pela derradeira vez pretendo me deliciar comendo djagacida ku leti baka parida, no café, almoço ou jantar, eternamente, pois o que se compara a essa iguaria?! Estimula todas minhas papilas gustativas, todos os neurónios de meu hipocampo, todos os meus receptores de serotonina, me dá vida, leiga e sabiamente falando.

Queria apenas isso.

Depois posso ser enterrado, mas de costas, olhando eternamente a chuva caindo, numa noite perfeita, gelada, sem lua, tão crua quanto minh'alma.

 

Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro

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5 Comments

Reply Jose Lopes
10:54 AM on April 25, 2009 
Belo.muito belo.A meu gosto.Parabens, meu antigo aluno que hoje emana sinais de um grande Mestre.Orgulhosamente, Jose Lopes.
Reply Danillon
09:37 PM on April 24, 2009 
Queria expressar os meus sentimentods ao Eliezier, meu querido primo, que do seu punho e instrumentos confiei o meu testamento , neste texto , espelho da minha'lma.
Ao Khácka, digo que bonito disse eu quando lhe dediquei o Grande , quando soube que a sua grandeza , era justa e sem igual, a menssagem do Eliezer, meu testamenteiro.Não sei se algum " biku" esteja enterrado nas jorrras di kemadas ou noutros sítios mas que Grande oportunidade! Eis o destino que fosse o parir da alma em gestos simulantes do meu primo Eliezer. Estou muito feliz! "Comments"
Ao Di Nápolis digo simplesmente que o seu comentário teve uma apreciação particular que promove o aspecto artístico excepcional numa palavra. Os meus parabéns! Para quem vive na metade, entende todos os lados. O Eliezer soube cumprir todas'as bandas, presumo!
É simplismente espetacular!
Reply Khacka
03:43 PM on April 24, 2009 
Bonito Eliezer. Alma kre ba diskansa na pundi biku sta nterradu, so asin el ta diskansa en paz. Es bu apegu pa es lugar di korasan ta disperta na tudu leitor, un dizeju di prizensia, pelu menus un bes, majia i enkantu ki ta envolve Txan.
Reply NAPOLEAO
01:00 PM on April 24, 2009 
Lindo!
Continue amigo.
Moderadamente,
Napoleão Andrade
Reply Danillon
11:59 AM on April 24, 2009 
Grande Eliezer, as tuas incursões que parecem miasmas que em minh'alma raspam as suas últimas refeições, sinto uma fina dor no intimo e uma especie de alegria como saisse a voar no vasto céu divulgando as minhas lágrimas. Depois de na minha alma entrares ainda sinto o passar de algodão embebido em analgésico forte, frio... impossivel parar estes pingos de lágrimas nos meus cantos de olhos, tenho uma voluptuosa fragancia de artemisa gorgunhon nas narinas ... "Só quem dor igual tenha sofrido pode medir a minha mágoa atroz".
Agradeço a josé Lopes e a ti porque revelaram a minha alma.
Força Abraços do primo Danillon