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Por Fausto do Rosario
Guardou a memória popular ter sido Sérvulo Rodrigues Pires, mais conhecido por “Tchéto” ou “Chéto”, aquele que acolheu os pastores, surpresos e amedrontados, que na falésia, a pique sobre a nascente, tinham encontrado, vinda não se sabe donde, a imagem de Nossa Senhora. Levada ao pároco e guardada na igreja qual não foi o espanto quando, no dia seguinte, foi, de novo, encontrada no mesmo lugar, sobre a falésia, dando assim origem ao culto de Nossa Senhora do Socorro, protectora dos aflitos, nomeadamente dos pescadores e daqueles que para a terra longe partem sempre com a esperança de voltar um dia… Muitos são aqueles ou aquelas que mal colocados os pés na terra vulcânica da ilha, rumam directamente para a capela de Nossa Senhora, mesmo antes de irem abraçar os familiares, o pacote de velas pronto a ser aceso e o coração prenhe de devoção e felicidade… Conjuntamente com a de São Lourenço é a maior festa de romaria da ilha do Fogo, nela convergindo, anualmente, no dia 5 de Agosto, milhares de peregrinos vindos dos mais diversos recantos quer da ilha como do arquipélago, bem com da diáspora, todos dispostos a mais um tributo de devoção á santa… E ela retribui quase sempre com um céu plúmbeo e gotas de chuva prenunciadoras de uma boa “azágua”… Ah, Nossa Senhora do Socorro…
Hoje, o ciclo de festividades relativas ao dia estende-se por outros lugares limítrofes como Vicente Dias, Luzia Nunes e Miguel Gonçalves. Todavia há um lugar especial para o “Terço de Nossa Senhora do Socorro” na localidade de Morato, a cerca de 3km da cidade de São Filipe. Era ali que residia Sérvulo Rodrigues Pires que desta arte, mesmo antes da Igreja reconhecer e consagrar o local de culto, deu inicio a um “terço” comemorativo, celebrado na véspera do dia do achamento da imagem. Desaparecido o patriarca numa trágica viagem pelos caminhos então tortuosos de Chã das Caldeiras, cometeu-se, no entanto, toda a família a continuar a prática que perdura até hoje…
Cláudio Donaciano Dias da Fonseca, “Cácá di Teca” é, se não está errado o meu conhecimento da sua genealogias familiar, sobrinho/neto de Sérvulo Rodrigues Pires, consequentemente primo dos descendentes que todavia, pela profunda diferença de idades sempre foram tratados por tios e tias pelos primos das gerações mais novas…
Fui hoje, como faço há quase mais de duas décadas ao terço de Morato: Quer pelo envolvimento familiar, como também de gentes das localidades vizinhas como “Cutelo”, “Sartagato”, “Brandão”, “Laja” ou “Espinho” ou, ainda, por aqueles que pela frequência e amor á cultura popular, se foram associando, o terço original transformou-se numa “mini-bandeira” de dois dias (3 e 4 de Agosto) atraindo quase um milhar de pessoas, numero este que tende a aumentar de ano para ano… Como faço todos os anos, misturei-me com as coladeiras e tamboreiros, deixei-me impregnar pelo fumo de lenha e tive de aturar os sempre longos como hilariantes discursos de “Raul de Laja”… Mas apertou-se-me o coração por não encontrar a figura sempre querida de Francisca Cardoso Rodrigues Pires, “Bedjinha”, filha de Sérvulo Rodrigues Pires, falecida no inicio deste ano… Mas circunvagando o olhar pelas paredes seculares da casa, pelas pedras enegrecidas da cozinha ou pelo altar rústico de homenagem á santa, não pude deixar de sentir uma saudade profunda de quem com eu partilha o mesmo amor pelas coisas simples porem sinceras da minha ilha; que nelas se revê e com elas se identifica; que como eu se emociona ouvindo o rufar de um tambor ou a voz rouca de “Nhô Tchina Renado”, desfiando uma ladainha… Que lá nas terras distantes da América é capaz de “sentir” o travo de fumo num prato de “xerém” com toucinho, sentado numa pedra debaixo da sombra de uma acácia, como só um homem destas ilhas pode sentir…
Presto, por isso, esta singela homenagem a este antigo aluno, familiar e, sobretudo, colega e amigo. Faço-o porque, não obstante as profundas divergências ideológicas que nos separam e que de forma veemente, porem civilizada, por vezes aqui expressamos, nele coexistem uma rara inteligência, um genuíno saber e profundo conhecimento, um belíssimo sentido de humor e, sobretudo, um amor incondicional e sem limites pelas gentes e por esta terra que se chama Djarfogo… Por isso, este conjunto de fotografias, como sempre a todos oferecido, desta vez é particularmente dedicado a ti, CÁCÁ DI TECA
Categories: Manduco, Fausto do Rosario
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