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Curiosamente, por uns dias, deixou de visitar o local. Passados trinta e cinco dias, regressou, não à mesma hora, mas por volta das 10:00 da noite, enlaçado de uma melancolia e saudades que lhe são estranhas. Sentou-se no seu banco habitual, naquele que fica proeminente à cidade de São Filipe. As sensações que este lugar endereça a estas horas são mais intensas do que no período da manha. A noite alia-se para ofuscar as agressões que a cidade sofre por parte dos betões e cimentos deixados a nus, dos terraços feitos para armazenar lixos e desleixos, dos tubos toscos e grosseiros usados nas construções de algumas varandas, e umas outras tantas tiranias que, à luz do dia, desgostam o observador.
A estas horas, o barulho do tráfico é quase inexistente, mas a musicalidade das aguas caindo no tanque do edifício interior é mais romântico e eloquente. O perfume inebriante das plantas é trazido pela aragem constantemente e, de vez em quando, se ouve, ao longe, um barulho distante, algures na parte histórica e moderna da cidade como peça integrante da musica de embalar. Num instante, acalentado, viajou-se por cima dos sobrados. Pairou sobre uma em particular para indagar o tempo. Procurou a resposta no mar negro coberto pela capa da escuridão. Quis saber dos segredos, das saudades e da separação para terra longe. Lá no fundo, cintilavam em chamamento as luzes na ilha Brava. Essas luzes pareciam comunicar-lhe a resposta num código que ele não entendia. Contou as luzes, e eram trinta e cinco. “Isso mesmo”- ele pensou - “Trinta e cinco dias!” Ficou, então, pensativo por algum tempo.
Depois, virou-se para o lado que dava às suas costas, num movimento suave de 180 graus. Deparou-se com um enorme ecrã que, desta vez, lhe era proeminente. Neste viu a ilha estender-se, coberta por uma manta prateada, ate a serra. A lua, perfeitamente cheia, tinha acabado de se despontar por cima da Cova Tina. Aproveitou-se, também, para com o seu pensamento, viajar através desta paisagem. Assim, deteve-se demoradamente lá pelos lados de Maria Gomes. O seu pensamento ficou preso ali, procurando algo da sua infância que ele, ainda, persiste em compreender.
Instantes depois, a sua imaginação voltou-se para o mar. Pensou na distancia, na separação, nos segredos que o mar tem guardado. Não se achou. Estava lisonjeado pelos silêncios que a brisa amena confidenciava aos seus ouvidos e embalado pela musica da queda das aguas no tanque do interior do edifício. Não se achou. Mas como gostou dessa expressão de liberdade, deixou-se ficar no acalento para muito além da meia noite. Depois, com passos serenos, tão leves como o seu sonho, caminhou-se para casa.
Deste então, Aguadinha ficou-lhe mais profundo nas entranhas do seu pensamento. Compreendeu, ainda mais, o porque do apego de tantas gentes àquele jardim- miradouro”. Compreendeu que podemos esquecer de tudo, mas o verdadeiro amor nunca será esquecido, nunca será evitado e não poderá ser fingido. Que poderão passar todos os trinta e cinco tempos, mas ele permanecera para sempre. Passou a frequenta-la sempre, mesmo em os seus pensamentos durante as ausências prolongadas, para deleitar-se em embalos diferentes, mas quase sempre na mesma viagem. Aguadinha são as mantenhas que os aviões, lá no alto, fazem filas para lhe entregar; é a falta que sente na vida dos centros das grandes cidades; são os amores num banco de uma praça à beira mar sob o testemunho solidário da lua.
Aguadinha...
Categories: Artigos, Claudio Fonseca (Khacka)
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