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Eliezer Monteiro
A mais linda entre as cidades. Esta é São Filipe, minha terra, a mãe de todos os meus sonhos. Acanhada, ela olha sempre para longe, para o imenso oceano, tão azul quanto os sonhos dos que nela moram, sempre à espera que um navio traga uma esperança distante, um sonho há muito esquecido. Quisera eu que fosses mulher, linda, pois assim todos os teus filhos a ti dedicariam os seus mais perfeitos versos, escritos sempre sob a fúria pujante da saudade.
Difícil é não sentir saudades de tuas pracinhas lindas, arrumadas de forma a que suas imagens se entranhem no mais profundo giro de nossos cérebros. Teu cheiro, numa manhã de chuva, sempre há de estimular cada receptor olfativo existente no mais profundo do nosso inconsciente.
É tudo perfeito.
É manhã. Já os carros começam a chegar pelas poucas e estreitas ruas que desembocam quase todas no largo de Cruz de Paz. E todos sentem a paz da cidade, acolhendo cada um como filho amado, repassando coragem para enfrentar mais um dia cheio, de trabalho e alegria.

Meio-dia. As crianças acabam de sair das escolas, correm livres pelas ruas. Os adolescentes saem do licéu, mas nem todos seguem para suas casas, alguns esperam os carros que os levarão de volta para seus lares no interior, outros ainda vão para o prisídio encontrar seus amores, os seus únicos amores, até que descubram que vários outros únicos amores hão de aparecer em suas vidas. Nesse tempo que passou, acelerado por entre os muitos beijos apaixonados, passam outros alunos que entrarão agora à tarde, vamos rápido que o sino já tocou e o chefe de turma nos marcará falta de atraso, dizem uns aos outros, mesmo sem palavras.
Final do dia. Para alguns, a hora mais esperada. É a hora de dar vida à paixão escondida, é o momento de ganhar coragem para se declarar ao seu amor. Não perca tempo, olha para os lados e verás a cara de felicidade dos muitos que já se declararam e agora, na parte mais escura do 'polivalente', se entregam sem medo aos beijos e a outras coisas mais, das quais não podemos falar agora, olha a hora. Nós não. Eles sim, principalmente ele, que há muito vem fazendo propostas mais assanhadas a ela, que louca de vontade está, mas que resiste bravamente. Puro charme. Não demorará muito e todos nós ouviremos suas histórias picantes nos intervalos no licéu. Sempre há o que fica escondido vendo tudo, graças a Deus, pois sem esses o que seria de nós, 'patos' inveterados?! Esses são nossos verdadeiros hérois.
As mulheres de São Filipe sempre intimidaram a maioria de nós adolescentes, elas são tão desinibidas, sempre dois ou três passos na nossa frente. Por isso nós nutríamos um ódio latente, não apenas por elas, principalmente pelos garotos mais velhos, os sonhos de consumo delas, esses 'fumadores de padjinha', como os chamávamos, na tentativa infrutífera de nos vingar. Impossível, eles sempre namoravam as mais desejadas e, necessariamente, desejáveis. Talvez seja por isso que começamos a reparar mais na mulheres do interior. Não por serem menos belas, elas são lindíssimas. Mais até que as da cidade. Talvez por terem um charme natural, não camuflado pela máscara das mulheres da cidade. Hoje acho que esse charme advém da impressão intrínseca de ingenuidade que elas carregam. Privilégio delas. Quem as conhece mais intimamente diz que, em boa verdade, é só impressão, que os ingénuos somos nós os homens. Por isso desisti de tentar entender as mulheres, temos que aceitá-las como são. Deus, depois que fez a mulher, olhou para sua obra e viu que era tudo 'muito bom'. Quem somos nós para discordar?! Começa outro dia. É manhã. Já os carros começam a chegar pelas poucas e estreitas ruas...e assim desenrola a vida na mais charmosa das cidades, São Filipe, a mãe de todos os meus sonhos. Aquele abraço Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro
Categories: Artigos, Eliezer Monteiro
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