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É comum, no acto do género, usar os primeiros minutos para saudar os presentes e, ao mesmo tempo, agradecer o autor, pela oportunidade concedida ao apresentador,neste caso, à minha humilde pessoa.
Por isso, quero usá-los para cumprimentar e, com a permissão do autor, agradecer a todos que, com a sua honrosa presença dignificam este acto e o tornam mais nobre. Quero, também, aproveitar destes minutos para agradecer o major Adriano Pires pelo convite que me foi formulado para fazer a apresentação do seu livro cujo título é: “ A Seca e os Outros Inimigos de Cabo Verde”.Aproveito, o ensejo, para evocar a minha memória e lembrar aos presentes que, neste mesmo espaço, no dia 18 de Setembro de 2009, eu tive a oportunidade e privilégio concedidos pelo major Adriano Pires para apresentar um outro livro seu cujo título é “ Ganância &Poder e Cidadania (de Costas Voltadas). (Livro que pelo seu valor histórico deve ser adquirido pelos amantes da leitura e do saber).
Entendo que ao acreditar em mim, duas vezes, em acto de responsabilidade e credibilidade, dá-me encorajamento e forças para cultivar a minha mente, para continuar a responder às demandas do major Adriano Pires e de qualquer outro cidadão cabo-verdiano ou do mundo que acredita que ainda é possível, neste Cabo Verde e mundo conturbados, contribuir com as suas ideias e dedicação para que sejam mais humanos e mais fraternos, onde haja menos seca, menos pobreza e violência; menos tráfico de influência e corrupção política; menos inveja e ódio; menos desleixo e autoritarismo; e menos partidarização da sociedade - expressões que constituem eixo deste magnífico e necessário livro.
Numa sociedade em que boa parte da sua população prescinde da sua responsabilidade de cidadania para se alienar ao facilitismo, ao clientelismo, ao lucro fácil, a cargos importantes ao querer ter e “parecer”o presente livro é, sem sombra de dúvida, um acto de coragem, determinação, altruísmo e, sobretudo de autêntica manifestação intelectual. Pois, hoje são poucos os que ainda cultivam a resistência, a critica, valores, ética, moral e princípios… Aliás, vivemos numa sociedade onde se comercializa tudo - princípios, valores, critica, almas etc.
O presente livro é essencialmente crítico. O autor analisa a sociedade cabo-verdiana nos seus mais diversos aspectos, dando ênfase aos aspectos políticos, sociais e económicos. Mostrou, através de dados e da capacidade de análise, que tem um conhecimento profundo da realidade cabo-verdiana sobretudo do seu funcionamento no campo da política. Debruçou-se sobre os conceitos da democracia, política e partido na nossa sociedade e demonstrou como esses conceitos são deturpados pelos detentores do poder e seus acólitos como forma de chegar ou perpetuar-se no poder.
Ao ler, atentamente este livro, o leitor terá oportunidade de entender, com clarividência, a divisão e a confusão instaladas na sociedade cabo-verdiana pela “partidocracia” cabo-verdiana, camuflada na democracia ou no Estado de direito democrático. Divisão e confusão que não são fáceis de ser resolvidos, devido à imprudência de muitos e silêncio dos homens considerados bons. O silêncio e a conivência de muitos cabo-verdianos hoje face à situações desastrosas fazem me lembra de uma das máximas de Martin Luther King que diz: “ O que mais me preocupa não é grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-carácter, nem dos sem moral. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”. Essa preocupação de Martin Luther King devia ser de todos os cabo-verdianos. Infelizmente, ao ler este livro e viver criticamente a sua vida de cidadão, percebe-se com clareza que não é essa a preocupação que norteia a nossa sociedade.
Numa sociedade em que, num período de dez anos, surgiram onze Universidades onde a maioria delas se demite da sua função essencial (critica, analise, interpretação, investigação, produção científica etc.) aparece o major Adriano Pires fora do muro universitário, a fazer aquilo que, por excelência, deveriam ser feitos pelas Universidades e pelos universitários.
Numa sociedade onde o silêncio é tido como conivência e, até certo ponto, premiado e a crítica é altamente repudiada e punida, onde o critico é perseguido, vilipendiado, sonegado direito, excluído e marginalizado… aparece o major Adriano Pires a chamar cada coisa pelo seu nome próprio e comum, desinibido das consequências que hão-de vir sobre ele. Parafraseando William Shakespeare: “ heróis são aqueles que fizeram o que é necessário fazer, independentemente das consequências…”. Mas não foi o que Eugénio de Paula Tavares, Pedro Monteiro Cardoso, Baltazar Lopes da Silva, Amílcar Cabral e muitos outros fizeram no passado para que hoje estejamos aqui na condição de cabo-verdianos livres politicamente da pátria portuguesa e de ultrajes de alguns homens deserdados de Portugal?
Neste magnifico livro, o major Adriano Pires fez um trabalho meritório de levantamentos de dados em várias fontes, mormente oficiais fazendo cruzamento dos mesmos, deixando também transparecer, com objectividade, que se trata de um cidadão comprometido e que acompanha os acontecimentos do dia-a-dia da sociedadecabo-verdiana, pois evidenciou os dados e, em seguida teceu uma análise crítica sobre sociedade Cabo-verdiana desde a época colonial até os dias de hoje.
Relativamente ao período colonial, o autor analisou a realidade cabo-verdiana falando de: descoberta e povoamento das ilhas, do clima, dos recursos económicos, da cultura, língua, religião e, por último, abordou a questão da seca como presumível inimiga de Cabo Verde, ou seja, durante muito tempo a pobreza e as dificuldades do nosso país foram atribuídas à seca. Ao analisar a seca como uma das inimigas de Cabo Verde Adriano Pires traz aquilo que a sociedade de hoje exige a qualquer indivíduo que ousa escrever para publicar isto é, trazer algo novo. Foi o que Adriano Pires fez ao analisar a situação da seca na sociedade cabo-verdiana na época colonial. Admite que chove pouco em Cabo Verde, mas nas poucas vezes que chove milhares de toneladas de água correm para o mar sem que sejam aproveitadas para a época de penúria. Reconhece também tentativas isoladas de indivíduos a criarem condições para aproveitar as águas das chuvas, entretanto em termos de política do Governo colonial pouca coisa foi feita no sentido de aproveitar a água da chuva para aproveitamento da agricultara e criar riqueza nacional. Adriano Pires entendeu que o problema da miséria e de outras dificuldades que o arquipélago enfrentava na época colonial prendiam-se mais com questão do abandono que o governo colonial sujeitou o país do que com a seca propriamente dita. A seca, segundo o autor tem o seu peso nos problemas económicos que Cabo Verde enfrenta, mas o abandono a que o país esteve durante todo o período colonial pesou muito no progresso de Cabo Verde. Para ilustrar a sua tese mostra que a construção da Barragem de Poilão é hoje um exemplo de aproveitamento de grande quantidade de água para a agricultura na região sul de Santiago e trará benefícios para toda ilha de Santiago e não só.
Relacionou também a questão da seca na época colonial com a emigração cabo-verdiana. Isto é, demonstrou como a política do abandono praticada pelo governo colonial conduziu o povo de Cabo Verde ao dilema de sempre: “ O querer ficar e ter de partir”,à procura do pouco que a mamã terra não consegue proporcionar, deixando para trás, a mamã terra, os sentimentos de revolta e de insatisfação com o seu amargurado destino, lágrimas de saudades, pais, esposas, filhos irmãos, sobrinhos e amigos”. Ainda no entendimento de Adriano Pires a situação colonial em Cabo Verde conduziu muitos cabo-verdianos ao estrangeiro e esses com vontade de regressar e sem poder regressar.
Analisou a situação da pobreza a nível mundial e em Cabo Verde e fez uma relação com a violência que hoje assola o nosso país. Partindo de dados oficiais, o autor mostra que a situação da pobreza a nível mundial e em Cabo Verde é preocupante, embora esta realidade, estampada à vista de todos, contraste com o discurso oficial. Sem querer ligar a pobreza à violência, aliás, estudos aprofundados demonstram que nem sempre pobreza conduz homem ou sociedade à violência, Adriano Pires põe a tónica na taxa de desemprego que atinge uma boa parte dos jovens e critica a ocupação de muitos postos de trabalho, em Cabo Verde, por indivíduos reformados sob a mascara da experiência. O desemprego é, segundo o autor, um factor que conduz a sociedade à pobreza e a falta de ocupação de tempo poderá gerar violência. Entende o autor que os governos devem evitar os discursos, que na maioria das vezes, estão desarticulados com a realidade estampada à vista de todos para poder enfrentar a realidade, sem demagogia e pôr combro à situação de desemprego, da pobreza e da violência. No entender do major Adriano Pires as entidades antes de tomarem qualquer decisão relacionada ao combate destes problemas devem, primeiro trabalhar para identificar suas causas. Pois, no entendimento de Adriano Pires há gastos excessivos no combate aos problemas que afectam a nossa sociedade. O major Adriano Pires fez o trabalho meritório ao identificar as possíveis causas desses males e propôs que as medidas devem ser tomadas com as causas e não com os males, pois, combatendo as causas está-se a combater os problemas. Segundo o major Adriano Pires a maioria dessas causas está relacionada com indivíduos que ocupam determinados cargos sem nenhum tipo de preparação prévia, indivíduos sem escrúpulos, sem ética que ao invés de fazer o que deve ser feito trabalha para prejudicar aqueles que são identificados como contra na nossa sociedade.
Adriano Pires revelou-se um conhecedor profundo dos reais problemas que afectam a sociedade cabo-verdiana ao falar do tráfico de influência e de corrupção na nossa sociedade. Entendeu que em Cabo Verde o mérito e a competência foram postos de lado, ou melhor, deixaram, há muito, de serem critérios de selecção como mandam as regras em muitos países de civilização avançada. Aliás, a esse respeito, Abraão Vicente, um jovem quadro cabo-verdiano, no jornal “ A Nação” há, aproximadamente um ano afirmou que “é triste a forma como assistimos a morte do mérito e da competitividade na sociedade cabo-verdiana”. Em Cabo Verde, segundo o major Adriano Pires os responsáveis substituíram mérito e competência como critérios de selecção dos candidatos aos cargos públicos por cartão de militância partidária, tráfico de influência e corrupção. Dezele: “ vivemos hoje numa sociedade redutora, politizada, partidarizada e excessivamente fanatizada, onde o cidadão vale pelo seu grau de submissão política e as verdades dos homens raramente coincidem com a realidade dos factos que essas verdades retratam”. Ou seja contínua o major “basta ser-se fiel aos poderes instalados e ter jeito para vender almas alheias, para se ser baptizado com a bênção de cidadão de primeiríssima qualidade”. Assim se funciona tristemente a sociedade cabo-verdiana. Entretanto muitos missionários políticos trabalham incansavelmente dia e noite produzindo textos que a priori deixam transparecer que são encomendados, vendendo seus diplomas académicos, seus princípios, valores … para deturpar e desvirtuar os factos para manipular a consciência dos menos preparados ou sobretudo dos incautos. Pode afirmar-se, com propriedade, que no actual contexto percebe-se que poucos têm a coragem de denunciar esta realidade, á pouco mencionada, por conveniência própria ou partidária ou por medo de não sofrer alguma represália ou por querer, com o seu silêncio, beneficiar de algumas regalias.
Neste seu magnífico livro Adriano Pires de forma corajosa chama atenção da sociedade cabo-verdiana para os novos problemas que vêm afectando o país tais como: a inveja e ódio; desleixo e autoritarismo, corrupção política e partidarização da sociedade. Estes e outros problemas urdidos de uma política de baixo nível e de políticos doentios que no entendimento do autor deviam estar “internados numa casa de aperfeiçoamento, recebendo ensinamentos sobre como libertar-se da prisão das emoções doentias deambulam livremente na sociedade dando lições de psicologia, ética, moral… envenenando o convívio entre as pessoas e a pôr em causa as relações cordiais entre o Estado e os cidadãos”. Compreende-se que este tipo de política e políticos têm estado a provocar uma forte divisão e confusão na sociedade ao partidarizar a crítica, inconformismo, frontalidade e ousadia. Na sociedade cabo-verdiana cidadãos com estes atributos são apelidados como contra ou inimigos da nação. Divide-se e confunde-se para tirar dividendo político-partidário e, sobretudo pessoal. Para ilustrar a situação descrita Adriano Pires afirma que “é comovente senão repugnante ver como tudo passou a ser partidarizado hoje em Cabo Verde: democracia, Estado, Governo, diplomacia, ciência, família, educação, cultura, amizade, amor, política, jornalismo, defesa, segurança, comunicação social, noticia, fé, doença, morte, até crime”. Triste mas realidade, aliás, realidade reconhecida pelos próprios líderes dos partidos políticos cabo-verdianos
Pelo exposto no livro percebe-se que o autor é um cidadão conhecedor da realidade histórica e muito preocupado com o rumo que o seu país vem tomando, principalmente nesses poucos anos da sua independência política. Reconhece, entretanto, de forma inequívoca os avanços conquistados pela sociedade cabo-verdiana nestes poucos anos da sua história recente, como também, chama a atenção dos dirigentes e da sociedade civil aos muitos problemas que são históricos e muitos novos que vêm surgindo e, no seu entender, devem ser conhecidos e sobretudo combatidos urgentemente, mas de forma estratégica isto é, conhecer as causas provocadoras destes reais problemas e começar o combate pelas causas sem demagogia.
Não podia terminar esta apresentação sem, no entanto, registar aqui o mérito, a coragem, a preocupação e, sobretudo a hombridade do major Adriano Pires. A sua pessoa e a sua atitude encaixam-se perfeitamente nas máximas supracitadas de Martin Luther King e de William Shakespeare. Entretanto, devo alerta-lo, meu caro amigo, que se nós, os historiadores, continuarmos a prescindir da nossa principal função que é a de investigar e escrever a história do nosso país e deixarmos os partidos políticos escreverem-na, certamente, o senhor ficará fora da história, apesar dos valiosos contributos dados à nação, pois na história escrita pelos partidos será, certamente, ignorado ou conotado como inimigo da nação e do Estado de Cabo Verde.
Espero, meu caro amigo, não tê-lo decepcionado com esta minha humilde intervenção
Um Muito obrigado pela paciência revelada
E uma boa leitura
O Livro apresentado e de autoria do Major Adriano Pires
Alberto Nunes
Categories: Alberto Nunes, Artigos
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