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A CARREDINHA, A MINHA ALDEIA (VIII)

Posted by Remoaldo Cardoso on April 8, 2011 at 5:12 PM

  

Carredinha: Um amor a crista, sem a obsessão. Não importa, porque defendo-a em todas e em quaisquer circunstâncias. Mesmo, nas mais piores. Num amor sério e na coisa séria não se mexe ou aponta o dedo. E dar com uma mão, sem a outra saber o quê! Esse segredo veio desde o guardar de “padjigal”, ao “pop corn”, que faziamos, para a festa, depois de pormos a posto os “spantadjus”, para nos substituir em guardar os corvos. “Ilando” o milho de terra com a areia fina do mar, da praia do Vale-dos-Cavaleiros, que diariamente tiravamos no limite do rolar dos pés das calças, de quem disso sabia, vivia e passava, na Carredinha. É ali que eu conheci o “Djodjô” e geralmente. quase toda a juventude da minha adolescência. Foi, precisamente, num dia quente, quando ele regressava de João Pinto, em companhia da Irmã mais velha, a Nonoca. Trazia a meio um “zingue” de agua à cabeça, em cima duma “ordilha”. João Pinto e Praia Ladrão eram as unicas fontes, de que a água não faltava. Carregar a água e à cabeca não era unisexual, tão pouco, só para adulto, pobre e feio. Era para o mundo que da água necessitava e não tinha outro remédio. Assim como bonito e feio, não está na aparência. Está no coração da pessoa, como o seu, no dele.

 

Admiro e amo, quase todo (no plural) o meu próximo (incluindo ele). Na minha vida não há o eu e nem o singular. Nela, somos: tu, ele, eu e os ademais. Num único bloco. Natural! Não tem lei, artigos ou (...). É grupo, sem estatutos. Digamos, tem membros com a tolêrança. Com aqueles que optam e aceitam a diferença e se respeitam mutuamente. A comecar, falando dos próximos, conheço-os e admiro-os, do porco ao homem. Uns eu como, noutros eu ando, ao homem dedico, por favor, o convivio, e basta. Já é demasiado a cortesia... De outro lado, fora, deixo a pulga, o percevejo e todos aqueles que de mim usam e parasitam. Hoje vou falar somente, dum proximo: um homem. De um que é puro, mas não é santo. Para não lhe juntarmos, como os outros, ao aburnuncio! Precisamente, de um amigo meu, para ser exacto. Admiro-o - repito, não pela sua formosura biológica, mas sim, pela sua simplicidade de ver e resolver tudo, com perícia, como que tudo nunca existisse. Porém, por cúmulo de sorte, ele não é o único amigo que gosto de referenciar e que conheço, tão pouco que vem merecendo o meu apreço. Não dá para contar de todos numa só página e estória. O nome desse amigo e colega da “minineza” e puberdade é “Djondjô”. Um amigo bravo, manso e vice-verça: Desmedido fora de série! Desamendrontado, em sintese, é seu sinónimo. É feio, que ele próprio se reconhece e sem dilema veio a aceitar.

 

“Djodjô” veio duma familia cuja a mãe era a chefona da casa. Chamavam-lhe, Nha Mana. E o pai Sotério. Um homem modesto, traditional, direito, mas andava cansado com o desprezo e ordem da mulher. Um dia, para incurtar essa infelicidade, tentou se pendurar na figueira do Cerco de Cima, para por fim a sua vida e ao seu desespero. Se em tudo havia o demais, a sua paciência já estava no fim, do seu limite. Não fosse o Nho Casimiro, que nessa altura atravessava, horizontalmente, o Cerco, apos de ter cuidado dos seus animais, o Sotério teria morrido enforcado. Era, também, o fim de “moidor“, de pilão e de balaio de “tenter” e de carga, sendo os primeiros de pedra e os últimos, de pulgueira ou de “cariço”, de que ele era o melhor fabricante.

 

“Djondjô” tinha duas irmãs. A Nonoca e a Muneca, que apesar de não aparecessem santas, no belezamento natural e humanas, estavam mais próximos do circlo do homem do que ele.

 

Por falta da sorte, este colega e biologicamente, mal evoluido (não me levem a mal). Peço perdão a ele (que sabe, que eu sei e porque digo isso) e a todos. Não criei a história. Desta feita, assumo que a culpa nao era minha em comparar-lhe com o homem da idade da pedra. Eu voto no que me ensinaram. E limito-me a dizer a verdade, por mais feia que for. Alias, não o desenhei, porque se o tivesse feito, seria ainda pior. É feio, para quem, no fundo, nao o conhece. Por outro lado, é um companheiro leial que os seus amigos gostariam de ter e sentiam falta no convivio. Mistura a verdade com a mentira e vice-versa, conta à grande, a mais vulgar e interesante “partida”. Com tamanha piada, que os presentes pediam o biz. Falando dele, para “enchortar” a sentença, parece (ainda) um “pithecanthropus”. Com o caos do seu caracter, fazia secar os cães que lhe ameaçavam.

 

Seco - dizia ele - num tom determinante, que soslaio e satanicamente imaginava e imitava. Coisa que ele não consegueria fazer com o galo de Nha Maria, que ao inves de “esporiar” as pessoas, pior, “chaputiam”-nas, desenfreadamente. Ele (e todos) tinha(m) que chamar a Nha Maria, para pegar o galo quando lha ia(mos) visitar.

 

O seco desse saloio, não era como o simples zunir da pedra de “funda”. Era como o eco do “txiku”, à velocidade da luz. E os câes, num ápice, se secavam, instantâneamente. Seco, mesmo! Coisa que alguém tem que ver, com os seus próprios olhos, para acreditar. Mirava-os, sem “blincar”. E apontava-os directo o dedo indicador, com o polegar ao alto, misturando o olhar e a determinação, que faziam eriçar todos os cabelos do mundo, para amendrontar e á gente que tem esse sentimento. A determinação era preciso, para fazê-los seco absoluto. Faz mijar mesmo aqueles que nao tem a urina e à solta. E o cachorro, (des)norteado, não se mexia um tris e um segundo sequer. Ficava estátuo. Devera! Como a estátua, á frente da Aguadinha, ou a cruz da Cara-“Santxa”. Ficava sem “blincar” os olhos ou abanar o rabo. Teso, defacto! Com cabelos intrincados, como porco-espinho, de que já ouvi falar.

 

Fica quadripede, em tripede, ou seja, com o pé anterior, quase a milimetro e malmente a proximar-se do chão. Não lhe deu outro geito. Ou uma outra razão… O seco e foi, o que lhe tinha sido ordenado. Pronto! Restava-lhe o obsequio de obedecer. Sem dilema. Sem querer, ou ter tempo para “pensar” em aceitar ou recuzar, se pudesse! Deixava-lhe suspenso do espirito e da alma. Se tiver isso, claro. Deixou-lhe tripede, com as orelhas “saquedos” e o corpo tenso e a tremer de pavor, com gana a puder “pensar” - pelo menos uns segundos - para fugir e não pode, por nao deixar a porta. Nem poderia tornar, desviar o seu olhar. Mexer um passo, um milimetro sequer. Seco, “russo”, era em sintese o seu estado. Resumindo, auricularmente: de orelha ao rabo, deixou-o desmusculado, sem nenhum sentido… Sem, todavia, lhe empecer as modalidades de animal. Coitado, com essa afronta “cachorral”, para eu não dizer, animalescal.

 

(Curiosidade: ha coisa que um animal irracional faz , a forma como comunica com o outro, nós, por mais sábios e inteligentes que somos e formos, não conseguimos e nem iremos entender isso).

 

O seu poder de mandar secar era tão real, quanto dificil de interpretar. Enquanto nos, que não possuiamos esse dote, o poder de determinar secar, logo que um cão ladra, corremos e, se houver curva a fazer, corremo-la, roçando a orelha á terra. E, entretanto, há quem até mija as canças, quando isso acontecer. Alguêm que conheço, uma vez fez isso. Testimonies a cena e fiz muita troça dele. E se fosse eu, a coisa resultaria diferente: Em vez de troçar de mim, chorava. O medo, a corrida e o balanciar do “sexo” não ofereciam uma outra oportunidade diferente. Coisa séria, defacto, essa coisa de se amendrontar e se mijar ao publico nessa idade. Pior, para quem já gatinha no namoro! Dá para humiliar, mesmo se a namorada não testimunhar e nunca saiba disso. Credo, para desconjurar.

 

Deixemos o “Djodjô” (e o seco) em paz. Para acrescentarmos, que apesar de feio que o mundo e eu achamos-lhe, quem (já) convive com ele, a sua modestia muda a sua fisionomia. A sua sã convivência, muda a sua aparência e a nossa mentalidade, em relação a ele. E a sua simplicidade e o seu modo de estar e de comportar, fariam a gente sentir a nostalgia, quando faltar ao convivio. E, se isso acontecer, ao invés de ausferirmos a alegria da festa, sentir-nos-emos atroz e em nojo. Estranho, agora (!?). Mas, esse e o retrato dele, o que ele defacto é, esse meu maior preferido amigo.

 

Como já há anos que não comungarmos a mesma festa e nem botarmos um grogo juntos, quer por razões de trabalho ou quica, pela minha imigração, findo esta estória, com uma garrafa de amizade e um cálice, com um “pontxi” de abraço, carinho e amizade, bebida a roda, como desde outrora desejara ser meu sonho. Aproveito tambem, esta oportunidade para lhe desejar uma longa vida, esperando que ainda tenha presente o dote de secar o cão e de lembar um pouco a nossa amizade. Com aquele abraço de sempre, se tenha a forma de ler esta estória - que nem é, mas que contei so para lhe mostar, que ainda, nesse meio seculo, estou lembrando do grande e estimado “Djodjô”, e das estórias e “secar” que fez-lhe o único Celebridade da zona.

 

E a Carredinha que jaze em paz, mesmo que seja na minha memoria, é a minha “mantenha”, aos foguenses.

 

Por : R. Kardosu - 7 de Abril de 2011.

 

Categories: Artigos, Remoaldo Cardoso

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1 Comment

Reply Henrique Barbosa
03:22 PM on April 17, 2011 
Amigão, gostei demais da estória que quase ?mijei? as calsas. Você é demais?Continua.
Seu amigo Henrique Maninha