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Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

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CARREDINHA, A MINHA ALDEIA (VI)

Posted by Remoaldo Cardoso on March 15, 2011 at 5:21 PM

Os caminhos da Carredinha. Ilha do Fogo. Porque da Carredinha, se nao sao os unicos que andei? Glorificando-lhes, vai em seguida o valor que juntos conquistamos na minha tenra idade. Primeiro, apreendi a tomar o bensao, que entao segnificava, respeitar quem e mais velho e mutuar o respeito. Segundo, apreendi ali muitas coisas e ainda estou vivo para conta-las, separadamente.

 

O tempo passa, a gente esquece. Mesmo querendo, nao damos a tudo a suficiente atencao. Mas ha “cicatrizes” que nos vem a luz, todos os dias. E abrem os olhos de quem nao quer abrir. Ai, esta o eu, a parir a alma, que Carredinha me ditou. Para me perdoar, eu devia-me por na terceira pessoa.

 

Caminhos! Esses sao os mais importantes (lembrados, historicos, reconhecidos) caminhos que andei em toda a Ilha. Para nao dizer toda a minha vida! Por isso, nao ha dia que nao sonho (a luz e a breu) a caminhar neles a pe, descalsos - a topada. As unhas do meu dedao (o sangue-DNA), acerca mais a nossa familiaridade. Esses caminhos sao os meus “irmaos”,se falasse de segredos.

 

Contudo, so depois de cinquenta anos faco esta trajetoria a redescobri-los e quem dera pudesse torna-los um caminho deste meu hoje, envelhecido (mas sem remedios)! Recordar e revive-los. Traz-me o prazer de goza-los como faria outrora e de descrive-los com a letra de ouro. Sao grandiosos! E, para mim, mais do que isso. Muito mais do caminho imocional da minha puberdade! Ao qual queria voltar agora, apesar de nao me sentir tao distante.

 

Amei a Carredinha! E ainda a amo, profundamente. Primeiro, por ser a aldeia que me viu nascer e crescer. E segundo, porque os caminhos que lhe varavam, e por “aprender a andar” neles, consagraram em mim, recordacoes maravilhosas que nao vao ser, por razoes algumas ou por nenhumas esquecidas.

 

Nessa altura, com excepcao da minha madrinha Pequena e seu filho Nene, ninguem morava na Carredinha. Contudo, os seus caminhos eram frequente e quotidianamente usados, tanto por aqueles que iam buscar a agua no Joao Pinto, como os que iam pescar no Vale-dos-Cavaleiros. Da estrata principal, que ligava Almada a Malaia, a zona mais abaixo da Catenvergonha, saia o caminho que permitia os trausentes da Serra e limitrofes, ligarem ao Joao Pinto e ao mar. Eu passava ali sempre. Geralmente, vindo da Estrada de baixo para contrabalancar a minha nostalgia e satisfazer o previlegio que a minha puberdade comecara a reclamar. E, assumindo-o, como uma nessecidade biologica, tentava fazer isso sempre que vinha da escola em S. Filipe.

 

Da Estrada de baixo, tinha duas vias. Dum lado, a subida ingreme do Cutelo de Almerico, que iniciava antes da ponte da Bocanha, o mais longo, de andar em “S”, de subida dificil. O outro caminho, com a partida no Tamarineiro de Almada, desenhava-se em ziguizague ate ao cocuruto do Cutelo da Bocanha, onde se podia ver a divisao em dois ramais (um que vinha da Estrada principal e outros que iam para os Cutelos de Almirico e da Bocanha, respectivamente), em forma de uma tesoura. A via do Cutelo da Bocanha era a mais usada. Facilitava a caminhada dos mais velhos que assim evitavam um ataque cardiaco provocado pela canseira que a outra via oferecia.

 

Geralmente, apesar da forca da minha juventude eu usava o segundo troco. Aquele que permitia uma caminhada mais suave. Foi este, que naquela tardinha, ao chegar de sao Filipe topei com Nhanha vindo de “Djan Pinto”, trazendo um “zingue” com agua a cabeca. Ela estava meia molhada. Os cabelos compridos e loiros quase cobriam o rosto da cor indiana. O peito apenas coberto pelo vestido quase transparente e iminentemente provocativo, onde se podia anotar os bicos dos seios, o umbigo, a anca e a coxa molhados, numa mistura da agua e o suor, mostravam o seu corpo de escultura perfeita. E, aliada a minha gulosidade, diria que ela estava perfeitissima. Eu mal controlava a respiracao. Ouvia nitidamente, o bater desconcertado e desafinado do meu coracao. E o calor da paixao comecou a apoderar-se de mim. Era a hora exacta que geralmente satisfazia os meus impulsos de inicio de puberdade. O comeco do meu futuro, que ainda hoje dou a minha alma, para mais um momento identico ter.

 

Nhanha, embora mais jovem, andava avancada. Alias, nao estava a gatinhar na vida amorosa! Todavia, nao mais do que eu. Mas o suficiente para entender os meus minimos impulsos e desejos. Nessa altura ja nao controlava. Nem o coracao, nem a respiracao. Nada! Virei seco, Cego!.. E perdi completamente a bitola das consequencias e repercusoes…

 

Nisso, conheciamo-nos bem. Mas, percebi que nao estava para jogos naquele dia. Entretanto, a cada passo ela rebolava em provocacao. Levantava os peitos para salientar os seios molhados de agua e de suor. Quando parava, furtava voltar em soslaio, para repor o folego. Eu ficava mais agudo de desejo e cada vez com mais calor. Se os seios avolumavam em desafio como o cume que estava a nossa frente, a curvatura da coxa e das ancas assemelhavam a ribeira que comecavamos a descer. Ribeira Bocanha.

 

Do topo onde estavamos conseguiamos ver tudo o que passava em redor. Tudo! A cor do mar, com algumas vagas a esbranquear e a do Ceu azul, sem bruma, que nao impedia ao sol a beijar a terra, com a sua habitual luz, constante e abrazador. Eu fervia, repito, nao pelo calor do sol, mas sim, pelo fulgor da paixao e da relacao sexual que se avisinhava. A subida era um desafio, mas a ribeira seria o destino imediato. Calculei, somando. Nhanha nao queria, mas eu ja estava bem cursado e nem me preocupei. Ela disse-me que “nao“. Mesmo, se esse “nao” fora a “fita” teria que ser NAO! Ate para quem nao quer entender. Estava e quase o resto parecia dificil. Nao preocupei porque conheco as manhas. Molhei tambem, o dialogo. Palavra puxa palavra e misturado com alguma accao, digamos erotica, vai o mundo atras, mesmo ao inferno.

 

Persistindo as coisas, lentamente, elas comecaram a melhorar. Concordou a ficar um pouco, so para descansar. Nada mais porque os pais e a Irma, a que tambem eu pregava a “cana”, estavam em casa a espera.Conclui, posteriormente, que o tal “nao“ era a “fita”.

 

Comecei a ficar radiante pelo caminho que as coisas estavam a tomar. Por cumulo da sina, la em cima do cutelo ao lado, a uns 15 minutos de distancia, apareceu Nho Djilormo vindo no caminho que dava na nossa direccao. Chica! - falei para os meus botoes. So por ser ele o unico intruso, que podiamos ver e podesse atrazar um possivel filho, que podiamos voluntariamente, dar ao mundo. “Esse velho filho da Nacha vai estragar o meu projecto” - pensei. Mas, numa reaccao de mestre sugeri a Nhanha que escondessemos no fundo da ribeira para que nao a vessem a falar e a fazer outra coisa com menino macho no caminho da fonte. Mal fechei a boca, ela ja estava escondida la no fundo, entre dois “laxidos“, a espera que lhe ajudasse a por a “lata“ no chao.

 

Quando lhe ajudei, encostamos a uma rocha que estava ao pe da figueira, sobre a qual se misturavam ramos com folha de purgueira, de fleira e registiba, para nos fascultar o agachar do publico. Ela encostou-se, tambem em mim, para nao ser vista. Agarrou-me e se apertou a mim com toda a forca. Tremia! Estavamos sem a minima preocupacao. Quando estavamos na cocuruta do cutelo, nao vimos alguem no limitrofe - recordei. E estavamos no fundo da ribeira, bem prodigidos e cuidadosamente amparados. Deixamos de nos preocupar com o nho Djilormo e qualquer surpresa ou fatalidade estava fora da nossa ideia e preocupacao. Alias, foram substituidas por outras particularidades: Ao amor, a pe da letra! A “montanha” dela, molhada, encostava no meu peito num movimento horizontal, e as vezes vertical que passava pelo meu rosto. Senti-a, porque o desespero, a ansia de chegar ao fim, de querer e ainda a “fita“, enchiam em dimasia o nosso duplo (cinco) sentidos. Eu era mais alto, mas ela estava em cima de um penedo, tentando conexar (in)voluntariamente com a exactidao, os nossos concavos e convessos.

 

Quando os passos de Nho Djilormo - um tal adicto pescador, que por azar vivia longe do mar - passaram la em cima, ela escorregou-se propositadamente pelo meu corpo e quase ficou presa pelo caminho. Sorriu-me gemendo mimadamente, com os olhos fixados nos meus. Beijou-me frineticamente... Como se fosse a sua primeira vez, misturando o aparato dos beijos ao “tra-tra” do assobiu de Nho Djilormo. Perdi-me, por completo, no espaco, no tempo... Nem um terramoto ou um tsunami, por mais macabros e ruidosos que forem, me faziam sentir diferente. Disse-me que sentia calor e que eu deveria ter febre em alguma parte do meu corpo. Sem despregar de mim. Os seus contornos encaixaram-se perfeitamente no meu corpo a cada momento que movimentava. As folhas da figueira caiam silenciosamente. Chegou um casal de “txintxirote” que deixou cair (chamando a nossa atencao) dois figos aos nossos pes. Pareciam doces. Nhanha fez um jeito para os apanhar. Estavam no chao meio coberto de folhas de figueiras. Nao as encontrou. A "onda" ja estava mais agitada, com o balanco do corpo incontrolavel pelo vento que vinha de todos os lados, vacilou lateralmente e cedo nao levantou. Ficou, a "meio agua".Gemeu como os ramos da figuera que naquela hora pararam para ver. Imitou o cantico do casal de “txintxirote”, apertou cada vez mais no meu pescoco, sussurando-me palavras de amor. Suplicou-me que lha apertasse mais... mais um pouquinho. Eu, em cada segundo, escondia em mim e na profundeza da ribeira, deliciando os seus segredos e acariciando sem medo as ladeiras, que minutos antes eu pensava em subir.

 

Sao coisas da natureza que nao deviam ter fim. Ou entao, que deviam acontecer todos os dias, com a mesma intensidade e clamor, com pares (de homem e mulher), mas que essa relacao acontecesse em cada jornada.

 

Na ida para a casa, optamos o caminho da ribeira, o mais longo, mas o mais facil e descreto de se caminhar. Nhanha continuava enxota. Nao de agua, mas de amor que lhe ficou para sempre como uma necessidade a ser saciada pela minha fonte que assimilava a um vulcao, jovem em folha com a furia de se craterizar e aventurar ribeira abaixo, a primeira oportunidade. E foi assim que aconteceu essa tarde. Desde entao, ela passou a escolher esse caminho que comecei a descobrir antes da minha puberdade, e, por onde, muitas outras vieram a passar, cumprindo rigorasamente as mesmas trajetorias e destinos.


Por: R. Kardozu - 7 de Marco de 2011



Categories: Artigos, Remoaldo Cardoso

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1 Comment

Reply Francisco Mendes
10:13 PM on March 19, 2011 
Amigo, eu e que estava a espera de mais Carredinha, ku freira e simbrom, acabei por saber que afinal as ribeiras tinham figos e figas...isso de andar entre penedos afinal compensa, ainda que o caminho seja distante. Continue...depois de Nhanha, quem será a próxima Djilorma ou Maria ? Mesmas trajetórias mas canções diferentes, certamente!