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Eu vou logo avisando, que isso não tem a ver com partidarismo, para que não seja reiterada a minha condição de “protótipo de irracionalidade política”, declarada e ordenada, a ser registrado nas páginas do semanário Já pela senhora Ondina Ferreira. A minha intenção, não ser o defensor, da dignidade e da moral da gente de Fogo, que já estão acostumados a se protegerem, e muito bem, por sinal. A intenção, sim, é para refutar o tamanho absurdo proferido e mandado a ser registrado.
A (im) preciosidade reducionista “Fogo é o protótipo de irracionalidade política” presume o seguinte: o eleitorado da ilha do Fogo é estúpido no momento das suas escolhas e não sabe nada da convivência política, contrariando assim toda a lógica da vivência democrática, supostamente assentada no eleitor racional. Agarrando-se, sempre, em sentimentos desprezíveis e baixos, tais como ódio, raiva e medo para estabelecer as relações com os seus semelhantes. E, vai além, praticando e perpetuando sentimentos em atos rancorosos para com os seus pares.
Essa afirmação imputada ao eleitorado do Fogo, não faz o mínimo de sentido, por basear-se em observações infundadas, surgidas de uma propagandeada idéia de certas facções políticas de que os eleitores de Cabo Verde devem ter, em conta, sempre, a racionalidade, na hora da escolha, dos seus representantes. Esta racionalidade tão desejada configura-se como: contraditória, relativa e que contradiz o seu verdadeiro sentido filosófico.
Igualmente é sabido, que vários estudos, em áreas como psicologia e ciências políticas problematizam se é o racional ou emocional que move os eleitores num processo eleitoral. Estudos recentes nos EUA, feitos pelo psicólogo Drew Westen, dão conta que os eleitores, até os mais analíticos, pensam a política com as regiões do cérebro sensíveis às emoções, em lugar do raciocínio, puramente, lógico.
Detenho no nosso contexto e em algumas premissas que acredito. Vejamos o porquê disso. Os políticos de Cabo Verde, com o aproximar das eleições, recomendam: é a hora do uso do lado racional; o eleitorado deve evitar a emoção na hora de decidir os candidatos que devem representá-lo. É normal, pois, aparentemente fortalece os ideais do sistema democrático. O problema disso tudo esta nas características dessa racionalidade exigida e os rótulos que vem com ele.
Voltamos ao episódio do baixo QI político do eleitorado do Fogo, na hora da escolha dos seus representantes. Para a antiga governante, os eleitores do Fogo não usam a razão, na hora do voto, isso porque, sempre preferem o grupo político X, contrário ao dela, em vez da facção política Y. Subentende-se que a preferência por X é emocional, e a preferência por Y é racional. Ela quer votos racionais.
Repare-se que ela, Ondina Ferreira apresenta como portadora e dono da verdade política. Ou melhor, a representação, por excelência, da racionalidade política. Será que ela não anda a demonstrar certo elitismo político (eu como letrada doutora etc) do voto racional? Ainda, é visível que a ex-governante defende as suas preferências ou convicções políticas, que são diferentes da maioria do eleitorado do Fogo. Isso transparece quando escolhe precisamente o Fogo para rotular, ignorando outras regiões do país, que desde 1990 (ano das primeiras eleições livres e democráticas), sempre, votaram a favor, do mesmo grupo político. Será que isso, também não é ser protótipo de irracionalidade política? Ou as coisas adquirem outros nomes só quando nos é cômodo?
Caberia perguntar o que seria agir racionalmente em uma sociedade onde tanto a razão como a emoção são questionadas quanto as suas conceituações. Exigir o caráter estritamente racional para o ato de votação pode parecer ignorante e hipócrita, pois o real caráter da política é ambíguo. Sabemos que na política, tal como em muitas outras ações humanas, o pragmatismo mistura-se e confunde-se muitas vezes com paixões, facções e interesses.
Culturalmente há uma predileção pela racionalidade sobre a emoção, que parte da concepção iluminista do homem, como ser racional, apenas. Num desejo de dizer que nós, os humanos, distinguimos dos demais animais. Todavia, sabemos que isso é um mito. A verdade é que, em nós, também existe o fundamento emocional. O que seria das nossas ações racionais sem este fundamento? Seríamos meros robôs! Portanto, as emoções não são restrições da razão, conforme Humberto Maturana, renomado biólogo chileno diz “o humano se constitui no entrelaçamento do emocional com o racional”.
De tal modo, os eleitores do Fogo, como seres humanos que são não diferem dos demais. O eleitorado do Fogo esta no direito de usar este “entrelaçamento ”, tal como qualquer outro.
A meu ver, antes de rotular qualquer eleitorado, a nossa elite política e (in) pensante devia contribuir mais na criação de um projeto social comum, baseado na aceitação e no respeito e, preocupar-se menos com: a aquisição do poder e com a hegemonia ideológica.
Por conseguinte, deixem os cabos verdianos decidirem as suas escolhas na hora do voto! E, por favor, parem com a mania obsessiva de querer tutelar o voto, em nome de preferências e conveniências pessoais.
BY: JOHEALBA
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