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POR: Henrique Pires
Fazia dezassete horas e vinte minutos, o sol caminhava vagarosamente rumo ao ocaso, e o avião, um Boeing, vindo de Bóston, sobrevoava o porto de Vale dos Cavaleiros. Num relance de olhos, pela janela, vi, não sem uma enorme satisfação, o porto completamente modernizado: o cais ampliado, espaço para contentores, armazéns e terminal de passageiros. Atracados, um cargueiro e um paquete, destes que sulcam os mares levando turistas à procura de novos mundos, novas culturas, novos paradigmas, atraídos, sobretudo, pela beleza da ilha e do seu vulcão. Enquanto o avião planava lentamente em direcção ao seu destino, destacavam-se a central única, estradas asfaltadas, o aeroporto ampliado e modernizado e iluminada a pista e a estrada que liga à cidade.
O desembarque foi célere, as bagagens rolavam na esteira, a sala de desembarque ampla e moderna apinhada de gente.
São Filipe é uma cidade transformada, moderna, em franco progresso, plena de vitalidade: os antigos sobrados, recuperados, muitos transformados em pousadas e residenciais de médio e alto standing, novos hotéis, universidade, ruas bem iluminadas, as principais artérias asfaltadas. Novos bairros nascidos reproduzem com um toque de modernidade o modelo arquitectónico da cidade, com os seus velhos/novos sobrados, parapeitos, patamares, jardins, tudo conjugando numa harmonia arquitectónica irrepreensível. As ruas apinhadas de gente, numa grande azáfama: as crianças pulam, os adolescentes paqueram, os adultos saboreiam cuidados jardins e os turistas vagueiam, olhares curiosos, inquiridores e contemplativos, tudo conferindo, conforto, alegria e bem-estar.
O grupo hospedou-se no “Hotel Monte Barro”, hotel de cinco estrelas, propriedade estrangeira, recentemente construído sobre a colina sobranceira à cidade, detentora de uma vista panorâmica de uma rara beleza, que convidava à contemplação.
Ao jantar, um “self service”, saboreamos, com redobrado apetite, a excelência dos pratos locais, acompanhados da honrosa presença de uma variedades dos bons vinhos do Fogo, testemunho da revivência, notoriedade e maturidade da rica culinária local.
Na manhã seguinte, em viagem de carro até à Chã das Caldeiras, demos início à aventura que nos levaria a caminhadas nos principais itinerários turísticos da ilha. O trajecto, na moderna estrada asfaltada, foi tranquila quanto fascinante … um autêntico reencontro com o passado, uma asseveração do presente e um prenúncio do futuro. A grandeza das casas (sobrados) dos antigos morgados, contrasta, numa relação binária, com a modéstia das casas dos rendeiros, meeiros e guardas, algumas (em ambos casos) adaptadas para o turismo, clamando por um turismo com visão da história. O presente patenteia-se na modernidade de novas casas, na electricidade amiga do ambiente, na água canalizada, na transformação de produtos agro-pecuários, nos regadios familiares e pequenos empresários rurais, testemunho do êxito de um turismo rural, cultural e inclusivo.
À noitinha, chegamos à Chã das Caldeiras, após paradas nalgumas localidades, a última em Estancia Roque. Nesta pequena localidade, circunvizinha da Chã, o chamamento a uma paragem, ainda que breve, é irresistível. Uma pequena pousada, propriedade de emigrantes, estrategicamente situada, permite uma visão cosmológica impar, um conjunto dissonante de elementos contrastantes … o mar e o céu azul e o enorme corpo negro do vulcão. De arquitectura rústica em obediência à paisagem está circundada por um viçoso verde de uma floresta de cupressos e eucaliptos que se contrasta com o chão recoberto por línguas negras de larvas vulcânicas. Um Éden!
A pousada perpassa toda a actividade económica, social e cultural do povoado e vizinhança, criando e alimentando uma salutar interdependência e sentimento de pertença mútua. A agro-pecuaria, com destaque para pequenas hortas familiares, abastece-a à auto-suficiência em verduras, frutas, carnes, ovos, queijo … configurando o enlace perfeito entre o turismo e a agricultura … pequenos grupos asseguram a animação musical e de dança. É o exemplo acabado do turismo integrado à agropecuária, meio ambiente e cultura.
A Chã encontra-se profundamente transfigurada, moderna, mantendo, todavia, a sua essência, a sua peculiaridade, o seu modus vivendi. Pequenos, mas modernos hotéis, pousadas, residenciais, restaurantes e bares, moldados numa arquitectura respeitadora e integradora do meio paisagístico e ambiente, pontilham o espaço e contrastam com as típicas casas tradicionais, formando uma perfeita sintonia na diversidade. Muitas destas casas, foram transformadas e/ou adaptadas … água canalizada vinda de um furo … para a recepção a turistas.
Hospedamos num grupo de pequenas casas familiares, associadas em cooperativa. Os menus, desde os pratos principais, aos vinhos, doces e licores, são tipicamente locais, produtos da terra, confecção caseira.
Após o juntar, deitamo-nos sobre a “jorra” negra em perfeita comunhão com a mãe natureza, embevecidos pelo jogo de imagens. Acomodei-me melhor, olhei contemplativo, respiração contida … lá estava o vulcão, o belo e o medonho, imponente dos seus três mil metros, de pé, sobre o enorme tapete negro por ele confeccionado, gigantesca sentinela, vigiando o mar, a terra e o céu. O luar, acabado de se acordar, luarejava-o. A um tempo enlaçava-o suavemente e refractava sobre a escuridão que teimava em cobrir as rochas da Bordeira, originando caprichosas imagens só dignas da Chã … disse para comigo, imagens que, por si só, justificam uma visita turística à ilha do vulcão.
No dia que segue, a caminho de Campana Cima, um outro mundo, um mundo de sonho- Monte Velha- envolta numa densa floresta, tranquilidade absoluta, clima ameno, pureza do ar, insta-nos a um justo repouso.
Na estrada que liga Chã a Ribeira Filipe, caminhávamos apressados em amena cavaqueira, quando enxergamos uma nova face da ilha. Um esplendor! Do seu cocuruto, a mais de dois mil metros de altitude, a “Serra” desce pela encosta abaixo, íngreme, passando, por Campana Cima/Campana Baixo, Ribeira Filipe/São Jorge e aflui numa enorme língua negra, lambendo o mar, a falésia de lavra que abriga a pequena, mas bela e acolhedora baia e estância turística de Salinas.
Já se avizinhava a noite e viam-se as luzes da pousada, em Campana Cima, onde iríamos pernoitar. Prosseguíamos. E eis que do interior de uma densa plantação de feijão congo, salpicada por moita de sisal, envoltos pela neblina enegrecida pelo anoitecer, uma voz com tonalidade angustiada e revoltada sentencia: “Só quando os nossos deuses chegarem ao olimpo!”. E acordei sobressaltado. Afinal, tudo não passava de um mero e agradável sonho, um sonho que sonha todo o foguense!
Acordado, pus-me a matutar na real possibilidade de transformar este sonho em realidade.
E pensei. O Fogo possui argumentos, populacional, cultural, paisagístico e ambiental, capazes de potenciar o desenvolvimento de um turismo rural e de montanha, de qualidade, sustentado, integrado e respeitador do ambiente. Uma população hospitaleira e afável, depositária duma das mais ricas manifestações populares, culturais e religiosas do país: festas de São Filipe, São João, São Pedro, Nossa Senhora do Socorro, Banderona, festas municipais … rica diversidade musical ainda inexplorada; culinária própria e rica … Uma idiossincrasia paisagística susceptível de propiciar um variado menu para o turismo: escalada ao pico do vulcão; caminhada, durante horas, pelo cume da “Bordeira”, a mais de dois mil metros de altitude, e desfrutar da visão única de ver detrás da Brava; jornada nos quilómetros de areia negra e movediça no percurso Praia de Nossa Senhora/Boca Lapa; Chã/Ribeira Filipe; Ribeira Filipe/Salina; Bombardeiro/Alcatraz e suas arribas; Monte Velha/Mosteiros.
Assim, o desenvolvimento do turismo clama por uma inflexão do paradigma de desenvolvimento baseado acentuadamente na agro-pecuária, a favor de uma diversificação de perspectivas sectoriais, pois não obstante sua relativa potencialidade agrícola, esta não é assaz elástica, por escassez de recursos, para nela se fundar uma estratégia de desenvolvimento sustentado. Requer a definição de politicas e implementação de estratégias, medidas e acções, consertadas entre as Câmaras e o Governo, conformadoras de actos discriminatórias positivas correctoras dos efeitos negativos provindos de acções discriminativas negativas de décadas, e que se vertam, sobretudo, na criação de infra-estruturas, apoio financeiro, elaboração de projectos e formação. A infra-estruturação, designadamente porto de grande porte; aeroporto internacional; saneamento básico e rede esgotos; criação de ZDTIs e sua infra-estruturação, à semelhança do que ocorre nas “Zonas industriais” para se atrair investimento; disponibilização de água nas zonas elevadas, com elevado potencial para o turismo de montanha. Também, a intervenção pública directa, através de construção de alojamentos entregues a nacionais, mediante contracto de gestão, na perspectiva da ulterior privatização, não é descartável.
O apoio financeiro deve direccionar-se à construção de pequenos hotéis, pousadas e residenciais pertencentes a nacionais, e materializar-se, sobretudo, quer mediante a procura ou ajuda na obtenção de financiamentos disponibilizados à iniciativa privada por Organismos Internacionais, quer através de verbas próprias inscritas no Orçamento do Estado, bem como por meio da bonificação de juros e medidas fiscais. Deve ainda a intervenção pública incidir na elaboração e avaliação de projectos, que serão doados ou vendidos a interessados. O critério de selecção de projectos deve incluir o percentual do valor acrescentado a ser retido no local, de modo a reforçar a endogeneização do rendimento gerado. Igualmente, é de se ter em linha de conta que o turismo impõe o enxerto, em áreas delimitados, de qualidades infra-estruturais e modos de vida próprios dos países ricos emissores do turista, sendo propenso à criação e ao agravamento de desigualdade e exclusão social, especialmente em países pobres, o que requer a implementação de acções e medidas correctivas adequadas. Será o apoio e a aposta efectiva na criação da pequena e média empresa e do empresariado local, contrapeso e complementaridade às investidas e ao domínio do sector por estrangeiros.
Especialistas defendem que o desenvolvimento económico e o aumento da produtividade das nações exige do Estado criar deliberadamente vantagens competitivas de empresas nacionais. No Fogo trata-se, antes, de criar empresas e formar o empresariado locais.
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