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O Oráculo do Sobrinho
by José Henrique Barbosa
Era janeiro, anos depois da última seca, que o sobrinho tinha chegado com o oráculo. O oráculo não parecia nada demais, como o nome sugeria, era, na verdade, um livro amarelado, bastante carcomido pelas traças, dois dados e um copinho de plástico. A primeira pessoa a saber da sua existência foi o primo, que espantado com sua finalidade, tratou de espalhar a notícia pelas redondezas, que carecia de acontecimentos capazes de reunir um bom número de pessoas. O povo dessa localidade se reunia, de quando em vez, nos raros bailes de violinos, por ocasião de algum casório ou das festas de bandeiras, principalmente São Paulo e São Paulinho. A época da chuva também era um acontecimento que provocava certa algazarra. Desta vez, no entanto, a curiosidade tomou conta de todos, que bem antes do pôr do sol, começavam a aparecer, em número cada vez maior, para conferir a que o oráculo lhes reservava.
No início, a movimentação era aceitável. Com o passar dos dias, descontrolou-se, e a residência de Nho Bicente tornou-se numa casa das festas de bandeiras. Vivia abarrotada de gente e cheia de barulho. Eram pessoas que vinham para saber do sobrinho e do seu oráculo, o que futuro lhes reservava. Eles, na maioria das vezes, queriam saber das possibilidades de ficarem ricos ou fazer um bom casamento, como era o caso das jovens, pois fazer um bom casamento era motivo de orgulho familiar. Com o passar do tempo, naquelas bandas, não se falava em mais nada a não ser do oráculo. Uns comentavam, outros lamentavam, e alguns chegavam a chorar com o resultado da consulta. Maria Cândida, a viúva, chorou, pois o oráculo tinha anunciado que em breve teria uma surpresa, ela pensou no único filho que fugira da fome para as terras longes, contrariando sina de empunhar para sempre uma enxada. Valdivino vendeu as suas cabras porque ali já não era o seu lugar, o destino era outro, América do Norte.
A leitura do futuro no oráculo transformou o sobrinho numa espécie de profeta, além de proporcionar uma felicidade grande por causa da constante diversão, que tomava conta das tardes, da casa de Nho Bicente. Esta felicidade era tamanha, que os dois primos mal dormiam. À noite ouviam-se os murmúrios, vindos do quarto, que ficava entre a cozinha e casa principal. A ansiedade deles era tanta, que o amanhecer e o entardecer pareciam uma eternidade.
O sobrinho e o primo não deram conta da chegada do mês de abril, e cada vez mais, dia após dia, um por um, vinha mais gente. Não era só gente das redondezas, também as pessoas do sul souberam da novidade e da fama do oráculo. Eles também queriam consultar e ouvir os desígnios do oráculo. Embora no meio dessa gente tivessem alguns desconfiados, a peregrinação à casa do Senhor Vicente não cessava.
Certa tarde, pouco antes do inicio do mês de maio Nho Bicente, que nunca tinha aprovado ou desaprovado aquela movimentação que tinha tomado conta da sua casa e do seu quintal, sentado na velha cadeira de balanço, na qual descansava e observava a serra, todas às tardinhas, na campainha da sua fiel bengala, que o ajudava com reumatismo de quase meio século, resultado do trabalho duro nos curtumes da América do Norte, falou:
- Acham que as palavras de um inocente rapaz, um livro amarelado, dois dados e um copo de plástico podem mudar o destino de alguém? Seus néscios! Francamente, voltem para seus afazeres! Azagua já bate à porta...
Ao proferir essas poucas palavras, àquela gente iniciou uma debandada silenciosa, da casa de Nho Bicente. O que passou na cabeça delas no momento, até hoje não se sabe, mas uma coisa era certa: Nho Bicente, velho emigrante da região de New England, na América do Norte, era muito respeitado, e seus bons conselhos sempre eram ouvidos.
Depois daquele dia ninguém mais apareceu na casa de Nho Bicente, o que tinha deixado o sobrinho e o primo triste e sem muito que fazer. Eles sabiam que o tio não era um homem mau, pelo contrário, era muito compreensível. Um homem bom, mas de palavras firmes, que não gostava de ser contrariado nas suas decisões. Assim, o sobrinho achou por bem esquecer o oráculo. Tratou de guardá-lo numa das gavetas, de uma antiga mala, que continha as roupas dele e do primo. Por um bom tempo ninguém tocou no assunto.
Até que em uma tardinha de domingo, Nho Bicente conversava com a mulher, ao pôr do sol, sem tirar os olhos da serra, como era hábito desde seu regresso das Américas, chamou o sobrinho e ordenou que fosse pegar o oráculo. Sem cerimônias, o sobrinho logo buscou o livro amarelado, os dados e o copinho de plástico e voltou ao quintal.
No quintal tentou entregar o oráculo ao tio, que não o quis. Ele queria que o sobrinho lesse o futuro.
- Será que vou ficar rico? Perguntou o velho tio.
Num gesto rápido, o sobrinho sentou no banco, que ficava atrás, da velha maquina de costura Singer, e deu inicio ao ritual de jogar os dados, conferir os números e fazer a correspondência com os desígnios do velho livro. Nho Bicente observava com atenção o sobrinho. Alguns minutos depois, perguntou o resultado da consulta. O sobrinho um pouco atormentado, respondeu com voz mansa e pausada.
- O oráculo disse que: NÃO VALE A PENA.
Nho Bicente sorriu e sentenciou:
- Na minha idade, de nada vale ficar rico mesmo.
Sem mais palavras, o velho homem levantou da cadeira de balanço e entrou na casa principal a procura do candeeiro de vidro. Já era noite e a janta esfriava na panela. Ele e a mulher iam para cama cedo. O sobrinho que ficara no quintal pegou o oráculo e dirigiu-se ao quarto. Estava feliz, pois sabia que o dia seguinte seria diferente. O velho tio não era contra as consultas ao oráculo. Sorridente, comunicou a novidade ao primo, que não via a hora do amanhecer para espalhar a noticia pela região. A volta das consultas, para os dois primos era o retomar das diversões e das alegrias que preenchiam o vazio, das longas esperas pelas festas de bandeiras e a chegada das chuvas.
Categories: Artigos
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