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…Memoria dedicada a uma existencia simples, sofrida, mas presumo, feliz…
A fumarola densa escapava-se pela chamine e dancava suave a medida que subia aos ceus para se escapar da vida sofrida. Essa fumaça ao fim da tarde era um Morse code, simbolo de esperanca, compreendida por aqueles que viviam uma vida afogada. Parecia reflexo condicionado do Pavlov, em que o cão, mal ouvia o sino, começava a ensalivar-se, antecipando a comida que chegaria logo a seguir.
O fumo flutuava sereno e gentil, naquele ceu de azul tropical, sobrevando o mar, cerco, imenso que nos encurralava incitando evasao. A vontade de sair, deixar, partir e abandonar afectava a tudo e a todos ? Talvez a claustrofobia criada pela condicao de ilheu precipitava essa vontade de vencer e ultrapassar o mar misterioso que se extendia além horizonte. Será que o Djom tambem desejava partir? Nesse momento, certamente, ele estava a sonhar com a cachupinha que a Zulmira estava a preparar na cozinha.
A Zulmira colocava cuidadosamente a lenha de purgueira, que ardia sem preguica, entre as três pedras do fogão. Encima das pedras, havia o caldeirao escaldante no qual se cozia a cachupinha, sem pressa. Alem do quintal enorme, o prédio rústico, era constituido por uma casa pequena, que ficava do lado do sol poente, e uma a cozinha espacosa, bem no fundo do quintal. O predio nao se distinguia muito dos outros da vizinhanca; todos de pedras soltas, encobertas de palha e um quintal enorme.
Naquela hora da tarde, a terra quente estava a ser abencoada pela brisa maritima que preguicosamente subia as encostantas, arrastando nas entranhas, aquela frescura benfazeja. As portas e as a janelas escancaradas permitiam a livre circulacao daquela brisa vespertina que os filhos de parida tanto mereciam.
De tronco nu, sentado no meio do quintal, camisa jogada encima do ombro, Djom tentava acalmar os animos dos meninos inquietos, a espera daquele manjar que parecia levar uma eternidade para cozer. Nesse dia, creio que a Zulnira cozia “pedra laxido” porque o caldeirao de ferro fundido estava ao lume havia séculos.
Os corvos faziam voos circulares, ganhavam altura e se deslisavam ligeiros para outras paragens. Os morcegos faziam planagens acrobaticas em todas as direccoes e evitavam, de uma forma audaciosa, embates contra qualquer obstaculo que surgia a frente. A meniencia, maravilhada com a agilidade dos ratos voadores, tentava caçar um deles em pleno voo, mas sempre resultava em fracasso.
A Zulmira era uma senhora humilde; coitada, duvido se alguma vez teve tréguas na vida! A asma e a pobreza, as suas companheiras inseparaveis, coadjuvadas pela velhice, constituiam autenticos fardos insuportaveis, que ela acarretava, no calvario do dia-a-dia. Ela falava sempre de uma forma pausada, tentando controlar a falta de ar cronica que a afligia. Apesar de tudo, na sua voz havia firmeza, a certeza e obstinacao.
Djom de Zulmira, eu diria, era filho de Deméter, deusa Grega da fertilidade da terra, agricultura e colheita. Po sua vez, ele era um deus do trabalho. Apesar da idade, setenta e picos, a musculatura marcava o seu corpo com um pormenor adolescente. Em tempos de ás-águas, encontrava-se sempre de tronco nu, com o suor a correr-lhe, profuso, pelas costas abaixo, enquanto cuidava das plantas, da casa, dos animais, e dos muitos afazeres do seu dia-a-dia, num vai-vem que nunca parava.
Á tardezinha, hora sagrada, ele sentava-se no terreiro, repousava tranquilo e esperava o jantar, enquanto a crainçada escutava stórias de embalar. Entre gritos, risos e gargalhadas caía a noite tropical, trazendo o silencio habitual. Chegava a hora de recolher porque, no céu escuro, escrelas ofuscas iam bem alto, e cintilavam cansadas de percorrer o mesmo percurso, durante bilhoes de anos. Momentos depois, a luz da candeia expirava, Djom e Zulmira faziam planos para o dia seguinte. Cochichavam com ternura, num mundo de paz, usufruindo uma felicidade obstinada. Contrariavam assim a máxima popular que afirmava que “em casa onde nao há pão, todos brigam e ninguem tem razao”.
Categories: Artigos, Tambarinaduro
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