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Djom e Zulmira: Em casa onde nao ha pao

Posted by TAMBARINADURO on July 15, 2010 at 11:22 PM

 

…Memoria dedicada a uma existencia simples, sofrida, mas presumo, feliz…

 

 

 

A fumarola densa escapava-se pela chamine e dancava suave a medida que subia aos ceus para se escapar da vida sofrida. Essa fumaça ao fim da tarde era um Morse code, simbolo de esperanca, compreendida por aqueles que viviam uma vida afogada. Parecia reflexo condicionado do Pavlov, em que o cão, mal ouvia o sino, começava a ensalivar-se, antecipando a comida que chegaria logo a seguir.

 

O fumo flutuava sereno e gentil, naquele ceu de azul tropical, sobrevando o mar, cerco, imenso que nos encurralava incitando evasao. A vontade de sair, deixar, partir e abandonar afectava a tudo e a todos ? Talvez a claustrofobia criada pela condicao de ilheu precipitava essa vontade de vencer e ultrapassar o mar misterioso que se extendia além horizonte. Será que o Djom tambem desejava partir? Nesse momento, certamente, ele estava a sonhar com a cachupinha que a Zulmira estava a preparar na cozinha.

 

A Zulmira colocava cuidadosamente a lenha de purgueira, que ardia sem preguica, entre as três pedras do fogão. Encima das pedras, havia o caldeirao escaldante no qual se cozia a cachupinha, sem pressa. Alem do quintal enorme, o prédio rústico, era constituido por uma casa pequena, que ficava do lado do sol poente, e uma a cozinha espacosa, bem no fundo do quintal. O predio nao se distinguia muito dos outros da vizinhanca; todos de pedras soltas, encobertas de palha e um quintal enorme.

 

Naquela hora da tarde, a terra quente estava a ser abencoada pela brisa maritima que preguicosamente subia as encostantas, arrastando nas entranhas, aquela frescura benfazeja. As portas e as a janelas escancaradas permitiam a livre circulacao daquela brisa vespertina que os filhos de parida tanto mereciam.

 

De tronco nu, sentado no meio do quintal, camisa jogada encima do ombro, Djom tentava acalmar os animos dos meninos inquietos, a espera daquele manjar que parecia levar uma eternidade para cozer. Nesse dia, creio que a Zulnira cozia “pedra laxido” porque o caldeirao de ferro fundido estava ao lume havia séculos.

 

Os corvos faziam voos circulares, ganhavam altura e se deslisavam ligeiros para outras paragens. Os morcegos faziam planagens acrobaticas em todas as direccoes e evitavam, de uma forma audaciosa, embates contra qualquer obstaculo que surgia a frente. A meniencia, maravilhada com a agilidade dos ratos voadores, tentava caçar um deles em pleno voo, mas sempre resultava em fracasso.

 

A Zulmira era uma senhora humilde; coitada, duvido se alguma vez teve tréguas na vida! A asma e a pobreza, as suas companheiras inseparaveis, coadjuvadas pela velhice, constituiam autenticos fardos insuportaveis, que ela acarretava, no calvario do dia-a-dia. Ela falava sempre de uma forma pausada, tentando controlar a falta de ar cronica que a afligia. Apesar de tudo, na sua voz havia firmeza, a certeza e obstinacao.

 

Djom de Zulmira, eu diria, era filho de Deméter, deusa Grega da fertilidade da terra, agricultura e colheita. Po sua vez, ele era um deus do trabalho. Apesar da idade, setenta e picos, a musculatura marcava o seu corpo com um pormenor adolescente. Em tempos de ás-águas, encontrava-se sempre de tronco nu, com o suor a correr-lhe, profuso, pelas costas abaixo, enquanto cuidava das plantas, da casa, dos animais, e dos muitos afazeres do seu dia-a-dia, num vai-vem que nunca parava.

 

Á tardezinha, hora sagrada, ele sentava-se no terreiro, repousava tranquilo e esperava o jantar, enquanto a crainçada escutava stórias de embalar. Entre gritos, risos e gargalhadas caía a noite tropical, trazendo o silencio habitual. Chegava a hora de recolher porque, no céu escuro, escrelas ofuscas iam bem alto, e cintilavam cansadas de percorrer o mesmo percurso, durante bilhoes de anos. Momentos depois, a luz da candeia expirava, Djom e Zulmira faziam planos para o dia seguinte. Cochichavam com ternura, num mundo de paz, usufruindo uma felicidade obstinada. Contrariavam assim a máxima popular que afirmava que “em casa onde nao há pão, todos brigam e ninguem tem razao”.

 

Categories: Artigos, Tambarinaduro

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3 Comments

Reply XUJIM PE DE FERRO
04:22 PM on July 17, 2010 
Di Berbum cado fatuzes!!!!Djom goh eh bedjo balenti..ritrato de homi di djarfogo...ragassa manga infrenta difikuldadi....Tambarina skrebe ez mimoria ku vizao
Reply Remoaldo Cardoso
04:15 PM on July 17, 2010 
E assim que se escreve uma estoria... Tem tudo que eu desejaria ouvir. Ate a forma como foi escrito, que dependeu sobremaneira, de um geito, que so quem sabe, quer escrever e quer transmitir aos outros o que sente pode deliniar ... Escreve sempre , meu caro amigo.Cada dia que passa e leio o que escreves, estou gostando em dimasia ao que traz a laia. Vens com jubilo, mostra-nos sempre o teu talento. A vontade tem que ser puxada e depende, digamos, do Tambarinaduro (cuja lenha pode cozinhar a melhor cachupa escrita, por esta banda) que e homem que gosta e quer escrever.
Reply Kaka
02:31 PM on July 17, 2010 
E senpri louvavel un trabadju du kel li. Es e realmenti un idea ki manduco ten kuel- homenajia nos gentis, di tudu idadi, di tudu orijen y ki konsigi enkarna, sen ekiviku, nos realidadi.
Ki Tambarinaduro manda senpri mas, ki otu argen produzi otu di es tipo, ki leitoris insentiva mas gentis pa nos konviviu, pa dixa-s sabe ma ten es xpasu na pundi du pode omenajia nos gentis.