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Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

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DJARFOGO: PETO BRONZE ALMA CETIM

Posted by Kaka on September 6, 2011 at 1:55 PM

Nha fidjus m-cria’s assim, peto bronze alma cetim” – Pedro Cardoso


As especificidades [próprias] da ilha do Fogo, tanto no aspecto humano como no físico, moldaram na identidade individual e colectiva do foguense uma personalidade ímpar. É essa personalidade que o iluminista Cabo-verdiano, Pedro Cardoso, observou e foi descrever, tão sabiamente, o foguense como “Peto bronze, alma de cetim.”

É notável que o povoamento da ilha, as características dos seus povoadores, a integração destes num ambiente novo e particular, os diferentes níveis de contactos da comunidade com o exterior, as estruturas e dinâmicas sociais vigentes durante séculos, aliados a outros factores, mais ou menos importantes, vão paulatinamente formar e dotar a mulher e o homem foguenses de um verdadeiro “peto bronze e alma de cetim”

“Peto bronze” é o retrato da honra, do orgulho, da confiança, do respeito e da autodeterminação evidentes nos valores da moral e na personalidade do foguense. Essas são as matrizes que orientam o seu comportamento durante os confrontos e desafios com que se depara durante o percurso da vida. Assim se explica, porque o foguense encara a vida com autodeterminação, vencendo desafios e sem nunca por de lado os valores morais. A honra e o orgulho sadio têm um peso e uma força enorme na sua personalidade.

Para que isto funcione, há minúcias importantes que se encarregam da sua observação e preservação. Por exemplo, ao individuo e/ou foguense no geral, a necessidade de uma constante superação constituem uma tradição e a essência da sua educação. Neste aspecto, a tradição exerce uma importante força “coerciva” no processo da integração e na formação do carácter individual e colectivo.

Um exemplo destas minúcias é o nome que o individuo herda. O nome deixa de servir apenas como identificação para, também, servir como um tipo de guardião que atende na observação e na conservação dos valores morais. No Fogo é normal o nome das pessoas estarem associados ao nome dos pais e avós, dado às referências das gerações familiares. Por isso, são correntes os nomes do tipo: “Fulano-de-tal”, “fulano-de-fulano de-tal” ou fulano-tal. A forma “fulano-tal”, muitas vezes indica o que a pessoa faz ou o que fez, como exemplo: “fulano carpinteiro.” As outras duas formas trazem associado o nome dos pais e avos. Esta segunda é uma forma de despertar o cuidado em honrar o legado que foi herdado. É tão comum no Fogo perguntar-se: “É filho de quem?” antes de “Quem é”. Essa forma de identificação compromete, não só em honrar os progenitores, mas também, com o bom testemunho/ recomendação a ser deixado para os filhos.

A orientação por esses princípios justifica as conquistas conseguidas pelos foguenses ao nível individual e colectivo, durante séculos de existência. O tamanho do vulcão é um retrato perfeito da grandeza dessas Vitórias no aspecto profissional, cultural, técnico, político e intelectual, tanto no espaço local, como nacional ou na diáspora.

O foguense é um valente “peto bronze”- Honra e gloria à memória de Pedro Cardoso.

Mas também, Pedro Cardoso falou de “alma cetim". Cetim que é tecido de seda ou algodão, macio e lustroso aparece para figurar a alma do Foguense. Nada tão certo como isto. O foguense é uma pessoa branda, meiga, simples, solidária, afável e polida no seu relacionamento. Quem tem um foguense como amigo, sabe que tem um amigo de verdade. A sinceridade e a honestidade em que se baseiam as suas amizades são muito apreciadas pelos amigos. Por isso sentem-se agradados com comentários de pessoas a este respeito, de pessoas que valorizam bastante a sua solidariedade e a sua disponibilidade para uma amizade à base de confiança, respeito e honestidade.

Essas características estão presentes desde as entranhas do passado, desde quando com amor, alguns foguenses de peto bronze, com alma de cetim, resolveram não só povoar e formar novas comunidades nas outras ilhas, como também, ao fazer obras e ao difundir valores tão importantes na edificação e enriquecimento da identidade nacional cabo-verdiana.

Um foguense é isso - “uma alma cetim” tão honesto, tão solidário que ás vezes se esquece de si próprio. Esquece, mas consciente da sua paciência em prol de outros, até o momento, em que aquele ingrato a quem o foguense deu um espaço para se sentar no “banco”, quer empurrá-lo para fora dele. Ali então, conhecerá que essa alma de cetim tem um ”peto bronze e um manduco fincado na mon.”

É assim que o foguense tem-se manifestado durante séculos, deixando a impressão, nalguns momentos, de ter-se esquecido de si próprio, como individuo e como colectividade, porque alimentado do seu espírito solidário, paciente e afável, está distante do egoísmo e do bairrismo doentio. O foguense é capaz de suportar constrangimentos e depois agir oportuna e inteligentemente sempre por meios mais eficazes. Só assim se compreende e se explica um sucesso inigualável durante gerações.


Caca (Claudio Fonseca)

 

 

 

Categories: Claudio Fonseca (Khacka), Artigos

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10 Comments

Reply Nelson Cardoso
09:21 PM on September 08, 2011 
Gostei
Reply Pedro Rosa
03:37 PM on April 28, 2009 
Kaka, este artigo traduz a essencia da cultura Foguense. Ja que passaste por perto porque nao mergulhar e depois explicar, e bem, a questao da origem dos "de"; "do"; 'da". Essa voce me deve e vou cobrar. O "cetim" esta escrito no alfabeto MANDUCO e nao tem traducao no alfabeto ALUPE(C ou K).
Reply j-amaro
05:17 PM on April 01, 2009 
n'ta sinti ma noz di DJARFOGO noz é propi peto bronze e alma de cetim ... noz comportamento ka ta muda na nenhum lugar e nenhum circunstância ! du debe sabe sempre kenha ki noz é fidjo kenha noz é ... sempre ku ruspeto, humildade ma ku noz ORGULHO acima di tudo !!!
um abraço pa fogo e AGUADINHA em particular
Reply Johealba
02:08 PM on February 11, 2009 
Meu amigo Kaka "Peto de Bronze" colocaste e bem(mesmo!) essa relacao social e cultural do "fidjo de Djarfogo" perante o seu semelhante. No teu artigo nota-se o modo de ser, agir e pensar enfim de sentir do foguense, em outras palavras alguns tracos da sua identidade. Queria deixar aqui que esses sentimentos e valores devem ser preservados sem prejudicar outros grupos. Reforco que e preciso que cada filho do Fogo preserve as caracteristicas tais como a brandura, a meiguice, a simplicidade e etc exaltados por ti meu amigo Barroso (nao se assustem nome de Kaka em epocas de boemia e vagabundagem ). Compartilhando contigo e preciso ficar distante do egoismo e do bairrismo doentio que na maioria das vezes tem levado a manifestacoes extremadas de preconceito para nao dizer de nacionalismo, fundamentalismos e xenofobia tanto presentes nos dias de hoje. Abraco meu amigo. Sodade de Mhula, Mane, Nhonhas e toda galera da nossa banda.
Reply Adji
06:49 PM on February 10, 2009 
Esta corresponde a uma verdadeira e perfeita descrição, moral e psícologico, do povo que sustenta a morabeza que caracterizam as gentes das ilhas. ...Quem o fez ,é uma alma muito ligada a essa raiz , não só por nela nascer, mas sim, por vivenciar a preocupação de conhecer e desemvolver a forma original dessa cultura , evitando sempre, que esta bonita e verdadeira forma natural dos foguenses, seja manchada com os viros cultarais daqueles que pensam em ter em deterimento do ser...
Dou-vos a minha força e vontade de também contribuir para o sucesso da preservação da humildade cultural da nossa querida ilha , que tanto arrependimento provoca a todos que dela partir.....
Reply ayam
01:35 PM on February 09, 2009 
Homi, kel artigu li caim dentu coracã cadankran. Nho odja si nho ca teni mas nenhum de mesmo raça.
Reply L.Alves
10:08 PM on February 08, 2009 
Queli e um artigo que tudo alguem di Fogo debe ler, principalmente jovens, pena e pamode monte di nos inda ca sabe cuze que nos. Forca djarfogo.
Reply paulo pina
08:44 PM on February 08, 2009 
ritratu bem pintadu!!!
parabens!!!
nha contribuicao e imprimil y faze mas arguem ler es artigo,para alem di rikomendas a visita es site...
Reply Monteiro
07:16 PM on February 08, 2009 
Parabens da minha parte ao autor deste artigo! Sinceramente, este e um artigo muito importante que deve ser lido e relido por todos os foguenses. Este e um retrato do que nos somos e a razao do nosso sucesso, tudo muito bem explicado. Aho que e verdade que muitas pessoas nao conhecem as gentes do Fogo, e por isso, andam confundidos. Outros por ignorancia, outros por ingratidao por tudo o que temos feito por Cabo Verde.
Reply Napoleao Andrade
06:25 PM on February 08, 2009 
Caca bu sta bom fotografo. Es retrato de foguense e imagem de nos pais, avos e bisavos na mente fresco de nos lembranca. Obrigado pa es artigo.