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“Nha fidjus m-cria’s assim, peto bronze alma cetim” – Pedro Cardoso
As especificidades [próprias] da ilha do Fogo, tanto no aspecto humano como no físico, moldaram na identidade individual e colectiva do foguense uma personalidade ímpar. É essa personalidade que o iluminista Cabo-verdiano, Pedro Cardoso, observou e foi descrever, tão sabiamente, o foguense como “Peto bronze, alma de cetim.”
É notável que o povoamento da ilha, as características dos seus povoadores, a integração destes num ambiente novo e particular, os diferentes níveis de contactos da comunidade com o exterior, as estruturas e dinâmicas sociais vigentes durante séculos, aliados a outros factores, mais ou menos importantes, vão paulatinamente formar e dotar a mulher e o homem foguenses de um verdadeiro “peto bronze e alma de cetim”
“Peto bronze” é o retrato da honra, do orgulho, da confiança, do respeito e da autodeterminação evidentes nos valores da moral e na personalidade do foguense. Essas são as matrizes que orientam o seu comportamento durante os confrontos e desafios com que se depara durante o percurso da vida. Assim se explica, porque o foguense encara a vida com autodeterminação, vencendo desafios e sem nunca por de lado os valores morais. A honra e o orgulho sadio têm um peso e uma força enorme na sua personalidade.
Para que isto funcione, há minúcias importantes que se encarregam da sua observação e preservação. Por exemplo, ao individuo e/ou foguense no geral, a necessidade de uma constante superação constituem uma tradição e a essência da sua educação. Neste aspecto, a tradição exerce uma importante força “coerciva” no processo da integração e na formação do carácter individual e colectivo.
Um exemplo destas minúcias é o nome que o individuo herda. O nome deixa de servir apenas como identificação para, também, servir como um tipo de guardião que atende na observação e na conservação dos valores morais. No Fogo é normal o nome das pessoas estarem associados ao nome dos pais e avós, dado às referências das gerações familiares. Por isso, são correntes os nomes do tipo: “Fulano-de-tal”, “fulano-de-fulano de-tal” ou fulano-tal. A forma “fulano-tal”, muitas vezes indica o que a pessoa faz ou o que fez, como exemplo: “fulano carpinteiro.” As outras duas formas trazem associado o nome dos pais e avos. Esta segunda é uma forma de despertar o cuidado em honrar o legado que foi herdado. É tão comum no Fogo perguntar-se: “É filho de quem?” antes de “Quem é”. Essa forma de identificação compromete, não só em honrar os progenitores, mas também, com o bom testemunho/ recomendação a ser deixado para os filhos.
A orientação por esses princípios justifica as conquistas conseguidas pelos foguenses ao nível individual e colectivo, durante séculos de existência. O tamanho do vulcão é um retrato perfeito da grandeza dessas Vitórias no aspecto profissional, cultural, técnico, político e intelectual, tanto no espaço local, como nacional ou na diáspora.
O foguense é um valente “peto bronze”- Honra e gloria à memória de Pedro Cardoso.
Mas também, Pedro Cardoso falou de “alma cetim". Cetim que é tecido de seda ou algodão, macio e lustroso aparece para figurar a alma do Foguense. Nada tão certo como isto. O foguense é uma pessoa branda, meiga, simples, solidária, afável e polida no seu relacionamento. Quem tem um foguense como amigo, sabe que tem um amigo de verdade. A sinceridade e a honestidade em que se baseiam as suas amizades são muito apreciadas pelos amigos. Por isso sentem-se agradados com comentários de pessoas a este respeito, de pessoas que valorizam bastante a sua solidariedade e a sua disponibilidade para uma amizade à base de confiança, respeito e honestidade.
Essas características estão presentes desde as entranhas do passado, desde quando com amor, alguns foguenses de peto bronze, com alma de cetim, resolveram não só povoar e formar novas comunidades nas outras ilhas, como também, ao fazer obras e ao difundir valores tão importantes na edificação e enriquecimento da identidade nacional cabo-verdiana.
Um foguense é isso - “uma alma cetim” tão honesto, tão solidário que ás vezes se esquece de si próprio. Esquece, mas consciente da sua paciência em prol de outros, até o momento, em que aquele ingrato a quem o foguense deu um espaço para se sentar no “banco”, quer empurrá-lo para fora dele. Ali então, conhecerá que essa alma de cetim tem um ”peto bronze e um manduco fincado na mon.”
É assim que o foguense tem-se manifestado durante séculos, deixando a impressão, nalguns momentos, de ter-se esquecido de si próprio, como individuo e como colectividade, porque alimentado do seu espírito solidário, paciente e afável, está distante do egoísmo e do bairrismo doentio. O foguense é capaz de suportar constrangimentos e depois agir oportuna e inteligentemente sempre por meios mais eficazes. Só assim se compreende e se explica um sucesso inigualável durante gerações.
Caca (Claudio Fonseca)
Categories: Claudio Fonseca (Khacka), Artigos
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