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IRMAO II

Posted by Remoaldo Cardoso on July 3, 2010 at 7:16 PM

Irmão!

 

Se hoje, a busca de um futuro “unknown” - de ter, para melhor viver - te faz partir, outra vez e desta vez, para tão longe, a quão distante da Terra Mae, a qual somos a extenção de dor e de alegria… te ofereço os meus mais ardentes votos, do melhor.

 

Devemos a nossa terra, o nosso amor, a nossa vida!…Recorda!

 

Se o coração humano fosse de pedra, estável e a coragem existisse, o dilema de partir e ficar, deixando amigos, lendas…teria sido irriversível.

 

Todavia, convenhamos dizer que a vida e assim! Tem regra! Numa expressão: dura, nua e crua, dum lado e doutra, uma misteriosa maravilha, demasiado para acreditar: Hora sorrindo, intermeado de prantos - na alegria e na dor - uma espécie de mistura, que causa calafrio…

 

Se “se” não existisse, eu e tu, não teriamos que partir, levado pelas mesmas ilusões e destinos: as de partir na dor, sem rancor, até um dia! Dia de regresso, ao começo do fim do destino da terra longe…

 

Irmão!…

 

“Sonho que um dia”…Esses pedaços de terras, que formam as nações, os mares, que formam os ocêanos se unirão, as fronteiras serão banidos, o “alien“, a desigualdade e então, o “caminho, que nao devia ser longe”, varrera, com o lolo, das nossas ilusões e TUDO será nossa!…

 

E dai!...

 

Num Domingo eu vou sair para refrescar as memórias, como fazia outrora: Ir à Igreja e depois da missa, divertir comentando as trazeiras das garotas que passam que num “alow” apressante me cumprimentam, com medo de perderam o compasso dos passos e serem denuciados pelos seus "littles spys”... de que “dropis”, ja nao fazem sentido e pagam as contas…

 

E a sestar, vou escrever uma cancão, uma morna… para as garotas dedicar; vou falar da terra, que nos viu nascer e crescer…de tudo e arranjar amigos para comigo cantar. Farei a prece para que elas vão gostar (e chorar, internamente!). A mesma cancao, dedico-a aos Velhos e todos que me precederam e nem dei a conta, esperando que vão todos alegrar e que as crianças vão sorrir e comigo cantarem. Todos vão corar, quando oiçam que vou vo1tar, desta vez, para ficar!...

 

Voltar para ficar... para ser, todavia, beijado, amado, adorado ou quica, ignorado, indesejado, odiado, como que alguma vez, antes me foram cumulo.

 

Eu vou voltar, todavia para amar: os que me amam, as que me odeiam e por isso sofrem, os que me escrevem e/ou não, os que prostam e me confessam saudades, os que ainda recordam a nossa cruel e necessaria infância e souberam descernir a fantasma da sombra...

 

Em cada carta que respondo, prometo voltar mas, ainda eu tenho que esperar. Esperar ate, talves, nunca acontecer!

 

Mas, tenho a esperanca que cedo ou mesmo tarde eu vou voltar: para o lugar onde eu nasci, onde eu vivi, onde eu cresci, onde eu brinquei!...Vou voltar para recordar onde eu andei, o caminho de cobras a terra-solta-batida e andar nele outra vez… esseando por vezes e ziguizaguiando por outras, descendo e subindo cutelos, rochas… O caminho cheio de pedregulho e ambrolho a prova dos pés descalços...

 

Voltar para recordar: o romper da aurora, com o cantar do galo no terral, o cambar da lua, num Ceu a violeta, atrâs dos Ilheus de Rombo, os "shut-off” da luz das estrelas num mundo parido e nu, o espectáculo uriundo do raiar do Sol na Cova-Tina e a distribuição gradual dos seus raios a todos os recantos da Ilha de Djar-Fogo.

 

O chilrear dos pardais, no riscar do terral, ao som do cantar e bater continuo e relaxado das azas de galos, o “penpelete” algures dos cadornizes, o “ratxatxa” da galinha do mato desde Rodondo, passando pela Carreirinha, Cutelo d’Almerico, Bocanha, a Almada.

 

O sussurar de vozes baixas, na madrugada, dos que vão a estrada, com pressa para não passarem o ponto; o zurrar dos ”machos” de Tunda, ora de Nho Pilipe ou do Baia, que tinham fama de serem “bad” quando sentirem a distancia a urinar das “bestas”; a fogafoga na Achada Fundada, o “Kanpetxi”, na luta entre a corda e o pescoço, para descolar da estaca, que a atava na “beira” e alcancar o milheiral e cordeiras…para a sua festa diaria.

 

 

A subida de “Katen-brigonha” o ruido cambaliante do "muidor", o cheiro da camoca e do café na casa da Nobo e/ou da Nega; o tocar do búzio do caramujo, trombetado pelo Antoninho de Mamá. em aviso aos que iam a pesca; a Norata de Prentxentxi, manquejando e praguejando “diache” e em alarido, para a Quinha, que ainda não tinha voltado da lenha; os meninos a roubarem o zimbrão na propriedade do Senhor Rendall, da qual se procuravam afastar para "acudir"... quando forem chamados.

 

 

A "corta", quando a “as-agua” é boa, a “rebusca” a “eira”o "kerén" que tambem, sao frutos do nosso suor, para serem vendidos na loja do Zézé; a escaldada, o cuzcuz de milho-novo, temperado com a manteiga de terra ou com leite "dormido" provindo das vacas do "Lélé, de que ele sagradamente, nos fazia “offer" na altura.

 

O raqueijão quente, o arroz com a carne de cabrito, pela ocasião do Natal; os cães a legrarem os ossos e amaldiçoando os que, sem a razao partiram, para terra longe, a Angola, Sao Tome… deixando-lhes sem “paradeiro” e sem “praquenha”.

 

Sim, eu prometo voltar para ver os meus pais, de que muito devo, por me terem trazido ao mundo; os meus filhos, os meus irmãos e abraça-los, com aquele abraco do melhor… da alma. Vou voltar para lembrar os que ja nao existem e me anteciparam no empreendimento de ir e deixar-me e tudo. Sim, sei que eu vou voltar e que tu, tambem, à Almada, a Fuddada, a Covada, ao Tongom, onde a primeira namorada eu beijei e sobretudo, onde sepultaram o meu umbigo...

 

 

E, espero voltar para ser amado, “esquscido”. E tu, meu irmao, voltarás comigo. Voltarás para ficarmos, promitestes-me! Nao importa se vou ser a tua segunda bengala ou tirei que “pull ou push” a carrinha que te faz movmentar… Prometo ser ate teu “nurse”. De tudo, ainda parece que temos que esperar, para o repouso que a vida nos vai voluntariar: a pensao! Esperar até... nao vai haver a possibilidade de voltarmos existisse. A nao ser, na carta, riscada um pouco a preta, na ponta do rectangulo, de que nao vamos dar a conta. De tudo, voltar e ficar na memoria, apenas por uns dias e desejo que nos anseiam quotidianamente e morrera quando dela ja nao lembramos, porque havera esse indesejado dia, que ja nao fara sentido, nem a ti, nem a mim, nem aos que acreditam que a vida e coisa melhor, que a natureza deu ao Homem.

 

Aos que souberam tirar dela, os resultados que tu e eu vassaladamente, tiramos.

 

Por: R Kardozu - Fogo, 2 de Outubro de 1980

Categories: Artigos, Remoaldo Cardoso

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