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Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

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IRMAO (I)

Posted by Remoaldo Cardoso on June 27, 2010 at 5:30 PM

Irmão, por des-sorte, não somos filhos de mesmos pais. Contudo, a palavra irmão é insuficiente para traduzir o que, realmente, somos. O destino e as exigências de vida, ao separar-nos, roubaram-nos tudo .

 

Temos sidos aldeões e, nas mesmas pouperrimas choupanas de pedras secas a fumegar verde por entre buracos, compartilhamos a mesma alegria e a mesma dor, que a nossa infância nos reservara.

 

Tivemos os memos esperançosos sonhos do futuro ao compartilharmos irmãmente, a nossa tenra idade, a meninada, correndo rodas, carros de cana, de arame que, com as nossas próprias mãos e habilidades, nas horas ditas livres, construiamos...

 

Quem diria o mundo voltasse outra vez - um pouquichinho, irmão!

 

A aldeia, a que fora o nosso ninho recordámo-la (eu - ainda - pelo menos) com nostalgia. O torrão natal (em fragmento), cujo vestígio se deixou perder no tempo e no espaço - em "flash" e em forma de sonho, de pesadelo por vezes, quão monstruoso... no amanhecer de quantos foram nossos e que já vivem nos confins ou em outro lado do planeta?

 

E foi com a nossa migração para aldeia diferente que... que terminaram e iniciaram coisas, coisas estranhas, fantasmagóricas, indeferentes? Os dias começaram a comparar com o século, o sol parecera estar imóvel, o céu pálido, abortando estrelas, o mar sem ondas e sem briza - embora ventasse - tudo manifestava pura contradição e indeferênça.

 

Todavia, irmão - tu e eu, que todavia, nunca vivemos quao distante - não deixemos que as coisas corressem, somente, à laia do destino. Que elas, parafrasiando, torcessem as nossas mãos. Que em outras palavras, não nos demos, ao fundo, por vencidos. Desta feita, deixamos o nosso passado continuar e continuará vivo nessa memória, refletindo, mesmo que paradoxamente, na nossa permanente acção quotidiana. Isto é, morre e ressucita todos os dias no comportamento, dos que ja la vao e em de cada um de nós, que estamos a marcar a presenca, nesse futuro de segundos...

 

Nós - os nossos conterrâneos, tu e eu - que todos os dias brincavamos o esconder a djâ hora, o esquivar à policia e ladrão, à corrida de paus, ao pião - em vez de estudar, à chulipa, em campo que esquivavamos com o adversario, a bola e o lachido, em defesa da canelada e da habitual quotidiana topada, ainda choramos e gargalhamos, com as mesmas vozes coramos, e com os mesmos, ainda estamos a viver a nossa puberdade avancada; por termos frequentado a mesma escola, acolhemos a mesma classe, tivemsos os mesmos professores (...),sofremos os mesmos maltratos e indescriminação e a sorte de não ter sorte, foi todo o nosso destino!

 

Recordo fragmentalmente, a ponte da Trindade, as estradas (velhas) da subida do Cutelo Comprido, as de Três-Pedras e a tamarindeira abaixo do cutelo e da estrada, onde à sombra assentavamos para matar a sede - que era mais a fome, de que ela...

 

A Ramargosa, de Kokin, a Cova Guilhana, de nha Sandjon, a Malaia, de Lélé, a Subida-de-Katen-vergonha, de Néné Balanku, onde o seu filho nho Mingo costumava, com a sua artemanha e habilidade, sem serie, secar cachorros...

 

A Favateira - que ainda existe - perto da casa A.G.T., onde a Celindra e ela levaram o Kei a coma, a arena onde jogavamos o pião, o Nelinho, com o seu jeito de queimar a palha sem usar o fósforo, a fomentar brigas (apelidando o cuspe de mãe de cada um e quem pizar a mae doutro, amanhece com um dos olhos pretos), o Frank de Luzia, a berrar em (des)acordo, o Miro sentado de pantche fingindo ignorar o que se passava, especialmente, quando o Arve, seu pai, se lhe abeirava e a Dona de Norato, em berros desmedidos, gritando em colera, para o seu bizerro sina, cuja fama de ouvir e estragar, ultrapassou os limites de entendimento e compreensão humana, da época, para ajustar, com ele, as suas contas...

 

Recordo a Almada, a casa Sotério...

 

 Lembo-me, também, dos que estão no cemetério e o milho torrado, o Lindin e a Ema, na guarda de corvos.

 

Os diabos aos quatro, feitos e por fazer; o sol abrazador e intenso; o trabalho duro, quase que forcado, sem medida, sem dono, continuo e continuamente, infrutifero de as-aguas; o pós-escola afazer caseiro; a barriga meia enganada pela escaldada com meio leite - meia agua, tragada, sem tempo para bendizer a Deus; a miseria provocada pela estiagem e continua seca; a fragilidade dos nossos músculos e tendões e apesar de tudo, o sorriso irónico e inocente, a desabrotar no outono da nossa esperanca (?!)...

 

Recordo o mugir longe e algures de vacas, o zurrar, a semana de burros, o chilrear frescos de pássaros, emirgindo das florestas de pulgueiras e fleras no raiar de cada dia, o cheiro de melão, arrastado pelo vento, em plena contradição...

 

Recordo finalmente - a minha, em primeiro lugar - as nossas namoradas, as quais namoravamos costa - com a - costa, em encosta e esquinas, na ausência de amparadouros? Recordo tudo e mais... que deixo em segredo.

 

E hoje, a busca de um futuro, nos fazem partir outra vez e desta vez, para tão longe, quão distante da Terra Mãe - a qual devemos tudo: a nossa gratitude, a vida...

 

É preciso ter audâcia irmão, ter coragem de partir deixando atrás estórias... A vida não é mais nem menos, reclamo.

 

É jogo de chorar e sorrir numa disenfreada mistura, em mesmo tempo! Amanhã estaremos, assim como eu, tão longe e quem sabe, se deste Planeta?

 

Mas, todavia, nunca das nossas recordações precinto isso, no fundo da minha alma.

 

E para isso dedico esta pequena lembrança a todos os meus mais chegados amigos, em especial, ao Tolica, ao Nelo, cuja infância e sorte nos ditaram os mesmos destinos: partir para viver fisicamente longe, mas perto no coracao e, nas recordações e amizade.

 

Pur: R.Kardozu -

 

Fogo, 2 de Outubro de 1980.

Categories: Artigos, Remoaldo Cardoso

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1 Comment

Reply TAMBARINADURO
10:43 PM on June 27, 2010 
recordar e uma forma de viver