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Simplesmente Jorze

Posted by TAMBARINADURO on June 25, 2010 at 9:26 PM

Como uma sombra silenciosa, sob o sol ardente do meio dia, Jorze caminhava a passos largos, deixando atrás a cidade de Sao Filipe, rumo a casa. Vencer a recta/subida do “Cutel Cumprido” nao era tarefa dificil para esse senhor, de idade avançada, que percorria o mesmo caminho diariamente.

 

O percurso casa-Sao Filipe e Sao Filipe-casa era o pão nosso de cada dia; um ritual necessário que Jorze cumpria religiosamente. Sera que fazia esta viagem para ocupar o tempo livre que abundava durante a estaçao seca? Ou sera que fazia o percurso como um jornaleiro, a procura de ganha-pão para sustentar os filhos, que nao eram tao poucos como isso? De qualquer das formas, ele nao poupava o unico par de arbecas e o chapéu de palha, de abas largas, que sempre o acompanhavam.

 

Criar os filhos nas condicoes dele nao era obra para qualquer um. Ele voltara de Sao Tomé uns anos antes e trouxera consigo a desgraçada pobreza cronica; aquela que tira animo; faz cair os ombros; vidra os olhos; e tira o tino ao mais valente dos homens. Como se isso nao bastasse, a desgraça virou tragedia com a subita e repentina morte da sua mulher, Maria.

 

Enquanto viva, ela trabalhou arduamente. Cuidou dos filhos, dos animais, e dos afazeres em casa; no campo, lado a lado, com o marido, lidou com a agricultura durante o tempo de ás-aguas. A sua morte prematura deu um outro significado ao conceito aproximação do impossivel, uma vez que a vida daquela familia deixou de ser dura ou dificil, e virou practicamente impossivel. Ela deixou Jorze viuvo, pai de seis filhos orfãos, todos menores, e sem eira nem beira.

 

Os filhos, todos nascidos em Sao Tomé mal sabiam ler ou escrever. O filho mais velho, Joao, meu condiscipulo, nunca ultrapassou a segunda classe. A Maria e os outros filhos nao tiveram a chance de terminar o ensino basico elementar. Ainda muito jovens, foram todos obrigados a entrar na lavoura, cultivando a terra que teimosamente nao produzia porque a chuva, em estado de greve, nao pingava.

Jorze fazia de tudo um pouco para ganhar a vida. Era pedreiro, calceteiro e abatedor de animais. No seu quintal nao faltavam galinhas, porcos, e outros animais que eram criados com fins lucrativos “cash cows”. Da venda desses, conseguia sempre arranjar um troquinho para ajuadar a garantir a subsistencia. Apeasr do esforço e trabalho constante, nunca conseguiu amealhar um tostao furado para sair daquela miseria maldita.

 

Os anos de seca e estiagens atingiram tudo, mas nao secaram a amizade e respeito que ele tinha pelo meu pai. Sempre que possivel, ele passava para cumprimentar, falar sobre as-aguas, e fumar o cachimbo com o meu pai. A visita sempre culminava com uma xicara de café fumegante e um pedaço de cuscus que a minha mae, hospedeira, preparava com cortesia e mestria.

 

Numa dessas visitas, enquanto o Jorze lamentava a sua sorte e o rumo do seu destino, o meu pai confessou-lhe que ele encarava a vida com optimismo. Ele explicou ao Jorze que a vida era igual a uma espiral. Ela girava. Quando dava uma volta completa, voltava ao mesmo lugar, mas a um ponto mais elevado. Assim a gente subia e melhorava na vida de geração a geração.

 

Desse dialogo com o meu pai, nasceu a luz. Jorze concordou que valia a pena lutar, considerando que os filhos e descendentes beneficiariam dessa luta. Ele fez uma analise em retrospectiva e concordou ainda mais. Afinal, os seus avos eram escravos, mas ele era homem livre, apear de ser pobre. Pensativo nessa conversa empolgante, ele despediu-se e saiu apressado. Seguiu a passos largos e silenciosos, vencendo de uma forma triunfante a distancia que o separava dos filhos. Esse "Cutel Cumprido" que se estendia, teimosamente a sua frente, nao era mais de que um teste para provar a determinacao e vontade de vencer que caracterizava Jorze, esse prototipo do homem crioulo. 

 

Debaixo do braço levava um embrulho, no rosto a esperança, e na alma a certeza de que o ontem mil vezes adidado, um dia, haveria de chegar.

Categories: Artigos, Tambarinaduro

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1 Comment

Reply Remoaldo Cardoso
09:39 AM on June 26, 2010 
Gostei, meu caro. Deve ser depois de um dia de Djangago. So ele pode ouxar e bem a forma de desenrolar das palavras q estao na nossa mente. Continui.