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?A maior necessidade do mundo é a de homens ? homens que não se comprem nem se vendam; (?) homens que não temam chamar pecado pelo seu nome exato; (?) homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo?. Ellen G. White
Após a independência, Cabo Verde passa a comemorar de, entre outras datas, Cinco de Julho, Treze e Vinte de Janeiro. Cinco de Julho é o dia da independência nacional, Treze de janeiro o da liberdade e da democracia e vinte o da morte de Cabral e dos heróis nacionais. Essas datas passaram a ser históricas e, infelizmente, partidarizadas. Cinco de julho e Vinte de janeiro são datas, eminentemente, ligadas à figura de Cabral e, sendo assim, em Cabo Verde são, infelizmente, vistas como do PAICV quando, na verdade, deviam ser encaradas como de todos os cabo-verdianos. Treze de janeiro, Dia da Liberdade e da Democracia, marca, também, a realização das primeiras eleições pluripartidárias que deram vitória ao MPD. É, também, visto, infelizmente, como data do MPD. Acompanhando as suas comemorações nestes últimos anos, pensamos que ainda iremos conviver com intriga e confusão por alguns anos por culpa dos dois partidos (situação e oposição) e também da sociedade civil que ainda não assume e tampouco desempenha o papel que lhe cabe.
Cinco de Julho e Vinte de Janeiro têm como maior referência Cabral. Um intelectual de renome no mundo e na África em particular; promotor incansável da luta de libertação da Guiné-Bissau e Cabo Verde; político, intelectual e idealizador de toda a luta da independência nacional; combatente, não de gabinete, pois, esteve na linha de frente junto dos compatriotas; com arma na mão, pondo a sua vida em risco por uma causa não pessoal/partidária, mas sim, justa e colectiva; co-fundador do PAIGC/CV; elaborou um programa dentro do partido para salvaguardar os soberanos interesses da Guiné e Cabo Verde. E, por causa das independências desses países perdeu a sua primeira conquista como homem ? a vida. Obrigado Cabral por não ter poupado o que lhe era de mais importante a favor de uma causa nobre. Considerado, por muitos, como maior intelectual africano, foi um homem altruísta, batalhador, determinante, com idéias claras e objectivas sobre o futuro da Guiné e de Cabo Verde.
Assumiu uma postura clara e determinante contra o regime colonial e, sobretudo, contra o sistema instaurado por António de Oliveira Salazar a partir da década de 30 do século XX. Nessa época, Portugal fazia passar em Cabo Verde, assim como, em outras latitudes que o sistema colonial era o melhor. Salazar, através dos seus discursos, tentava convencer as pessoas que era um homem de bem. Dizia que o negro não apresentava condições para autogovernar e que, não cedendo independência estaria a nos fazer um grande favor. Neste contexto conturbado, confuso e, sobretudo, perigoso, Salazar legitimava o colonialismo e o seu sistema através de discurso retórico e demagógico. É também, neste contexto que surgiu Cabral contrapondo todo o sistema colonial e o regime salazarista aliando-se aos compatriotas da Guiné e Cabo Verde numa luta contra qualquer tipo de dominação, da injustiça? Cabral era um homem altruísta e com visão do futuro. Pensava sempre nas crianças e no futuro delas. Por isso, arriscou e perdeu a vida por causa justa ? a da libertação da Guiné e Cabo Verde. Aliás, lutou não só para tornar esses territórios livres da metrópole, como também, visava, sobretudo, a libertação desses povos de Portugal. Cinco de Julho marca, apenas, o fim do colonialismo português e o início da liberdade da pátria cabo-verdiana. O fim do colonialismo português e o início da liberdade da pátria custaram a vida de Cabral e de muitos heróis nacionais. Esse homem que perdeu a vida, deixando sua esposa viúva ainda cedo, deixando, também, filhos por criar, foi considerado por muitos nessa época, de terrorista. As idéias de Cabral punham, evidentemente, em causa o conforto e a mordomia de muitos homens e por esses e outros motivos era altamente odiado, criticado, vilipendiado, perseguido? pelos defensores do sistema. Hoje, hipocritamente, muitos que se militam no partido fundado por Cabral falam desse génio intelectual, altruísta e defensor dos direitos humanos. Falam de um homem que combateu a injustiça, que lutou contra qualquer tipo de discriminação, que lutou para pôr fim à exploração do homem pelo homem etc. Mas esses falsos seguidores de Cabral combatem, sistematicamente, todos aqueles que hoje se identificam realmente com Cabral.
Treze de Janeiro é, sem sombra para dúvidas, uma data complementar a Cinco de Julho. Com esses dois momentos, Cabo Verde é hoje o que é. Se, por um lado, com os governos da Primeira e Segunda República, o país deu passos significativos rumo ao progresso e acreditamos que o cabo-verdiano de bom-senso, imbuído de dados históricos se congratula com a independência em detrimento do colonialismo como, também, deve ver no dia Treze de Janeiro um momento crucial que marca o início do novo rumo para o país. Com Treze de Janeiro, Cabo Verde é, indubitavelmente, um país diferente. Apesar de muitas conquistas materiais e humanas alcançadas nestas três décadas a sociedade cabo-verdiana produziu uma conduta e, ao mesmo tempo, implementou um sistema que, ao nosso ver, não estavam na génese de libertação nacional como, também, na de instauração do regime pluripartidário. Hoje, não temos presos políticos, não temos tortura física, não temos campo de concentração, não temos milícias, não temos tribunal de zonas, não temos perseguição contra a Igreja Católica e nem contra os padres etc. Essas medidas e instituições coercivas da época colonial e do período do partido único foram substituídas pela perseguição disfarçada, pela promoção da mediocridade em detrimento do mérito e competência, pelo ódio, pela inveja, pela maldade, pela mentira, pela calúnia, pela difamação...
Muitos falam, hoje, de Jesus Cristo, de Sócrates, de Cabral, de Che Guevara, de Mandela, de Ghandi, de Obama... Outros até, hipocritamente, usam objectos, marcas dessas figuras, esquecendo-se que esses homens nunca distribuíram cimento, nunca deram verga, casa de banho, pensão social, envelope com dinheiro para comprarem consciência dos pobres; nunca intimidaram os pobres, nunca perseguiram cidadãos pelo facto de pensarem diferente. Como citar ou usar essas figuras se, hoje, os que realmente se identificam com elas são maltratados, odiados, invejados, vilipendiados, perseguidos, sonegados direitos, condenados e julgados injustamente, como Jesus o foi pelo povo e Pôncio Pilatos e Cabral pelos, ainda, confusos, assassinos!? Cabo Verde alberga hoje, na sua sociedade, povo e vários Pôncio Pilatos.
Acreditamos que enquanto as instituições de ensino, mormente as Universidades, continuarem a privilegiar conteúdos em detrimento de pesquisa, análise, interpretação? Continuaremos com intrigas e confusões sobre a nossa realidade. Não somos mais que um simples e humilde cidadão a exercer seu direito da cidadania.
Cidade São Filipe, Janeiro de 2009
Alberto Nunes
Categories: Artigos, Alberto Nunes
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