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Noturno passeio

Posted by Eliezer on May 3, 2010 at 7:17 PM

Cheguei cansado, querendo dormir, esquecer de mais um dia de luta. Não consegui dormir. Sufocado em minhas angústias, fechei meus olhos, na densa treva que ocupava o quarto, e pedi a Deus, Meu pai, enxugue minha lágrimas nunca choradas, console minha desesperada alma, acalente meu nostálgico espírito, conforte meu ser, por misericórdia Deus, tenha piedade. Que assim seja!


Sem perceber dormi, tranquilo, como a criança nos braços de sua mãe, de sua mãe que todo dia sai de balaio na cabeça à procura do pouco que a terra deu a ela, à procura de algo para enganar a fome de sua prole, à procura de algo para afagar o choro de seu filho faminto, cujos olhos estão já secos de tanto chorar, tão secos quanto minha terra em tempos remotos, segundo se conta, segundo me disseram.


Tão logo adormeci comecei a sonhar, um vívido sonho, capaz de me fazer crer estar acordado, vivenciando o que ali se passava. No sonho inteiro havia uma música intensa, sobre alguém que perdeu sua alma, numa estrada distante, numa noite estranha. No sonho fui levado, nas asas de um anjo, segundo julgo, para uma terra longe, longe ao menos na minha memória, cada dia mais ingrata, capaz de me fazer esquecer de pessoas presentes na minha infância; longe ao menos do meu coração, capaz de se fechar e não mais me deixar sentir a felicidade igual à que eu tinha na pobre terrinha. E fui chegando àquela terra, mas não se me permitiu tocá-la, não se me permitiu ver a cara dos que eu amo; nem se me permitiu sentir o cheiro de minha terra querida. Eu vi, lá do alto, o mar, coberto por suave lençol de prata, sobre ele derramado pela cheia lua, tão calmo estava o mar, como nunca se viu por essas bandas. E vi um grupo de mulheres voltando da igreja, juntas, conversando baixo, tão baixo que eu não conseguia ouvir o teor de sua conversa...ouvir eu ouvia, só não conseguia me contextualizar, há muito perdi o que me ligava às minhas gentes.


Um pouco na frente vi um grupo de crianças, correndo felizes, brincando de alguma coisa que eu não reconheci, não sou digno da felicidade deles.


Em angélica velocidade fui levado a outro lugar, conhecido, mas já em fases de se tornar indiferente, onde, lá de cima vi dois homens, em pontos diferentes do que parecia ser uma enorme caldeira. Um deles estava rodeado de 45 crianças, todas trajadas de alvas camisas, em fila, uma segurando a mão da outra, caminhando em lenta marcha, pedindo benção ao homem, que julguei ser deles o pai. O outro homem, segundo informa o mensageiro angélico, é pai de 10 filhos, Mas todos eles se aventuraram pelo mundo, por isso todos os dias ele madruga, almejando o dia em que os seus rebentos à casa retornem. os pródigos e os não, pedindo Pai dan benson. Nesse dia ele deve chorar suas lágrimas guardadas, reservadas a seus filhos, todos eles perdidos no mundo. Nesse instante eu também chorei, reconheci nesse personagem muitos outros, igualmente envoltos nas voltas da vida, conformados com seus desígnios, pedindo a Deus que não os deixe morrer antes de ver seus filhos, todos eles, juntos, uma última vez, Misericórdia meu pai, Amém!


Acordei então, com o peito molhado por lágrimas muitas, as minhas e as dos outros, igualmente envoltos pelas voltas da vida e, nesse instante, pedi a Deus que não me deixe morrer antes de ver de novo minha terra, uma última vez, Misericórdia meu pai, Amém!


Aquele abraço

Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro

Categories: Artigos, Eliezer Monteiro

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4 Comments

Reply nelitomonteiro
07:14 PM on August 04, 2010 
eliezer bo e demais,di bu armun ku agu na rostu e sodadi na petu,seperanca di ojdabu di pertu pa lembra kel pa lembra kes tempus di tempu!
Reply Danillon
12:40 PM on May 04, 2010 
Pacência rapaz, mi ka Kaká, embala na stória da fra bel inu de sodadi, é ka si nada é duença mi mé ntenel, pur issu percebel logu Kakuka sta kuradu, el nem ka médiku, pacência otu bés.
Dja bu screbé más um página di nha vida. Abraçus Força!
Reply Kaka
11:44 AM on May 04, 2010 
Mais um belo texto, mais uma grande imaginacao num hino dedicado as saudades da terra amada.
Reply Remoaldo Cardoso
10:50 PM on May 03, 2010 
Espero todos os dias, q facas dos teus tempos, q chamas livres, p produzir o q no fundo da tua alma guarda. Gostei imenso e ai vai o meu total apoio, no mais profundo coracao.