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Ilha do Fogo: Cultura, Gentes e Vivencias

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Bonan?a

Posted by Manduco on May 1, 2010 at 4:34 PM

Eliezer Monteiro

 



Poucas coisas me fascinam tanto como a chuva. Acredito hoje ser isso culpa das muitas manhãs que eu passei deitado, olhando o mágico cenário produzido pelo aguaceiro caindo do céu, devagar, com calma, sempre em ritmo de marcha lenta.


Na minha terra existem os 'profetas do tempo', que, baseando-se em sua experiência, juram que, Amanhã vai chover gente, Com certeza. Não com essa certeza toda, mas as previsões deixavam todos animados, rezando para que se cumprissem. Alguns garantiam a chuva 'falando mantenha' logo cedo no dia seguinte, Claro está, Vê essa nuvem branca no cume do vulcão, o Capel?, Vejo, Pois, É sinal de chuva na certa, Queira Deus, Amém!


No dia seguinte a neblina chegou galopando os muitos montes, restos de regurgitações do nosso querido vulcão, abarrotado de lavas e enxofre. É uma brancura total que cobre tudo, feito denso véu prateado, só sabemos da presença de outrém pelo barulho do ar saindo de suas ventas quentes ou pelo cheiro nauseabundo eliminado por orifício na outra extremidade do organismo que, os mais ingênuos, jurariam de pés juntos, tratar-se de odor proveniente de um cadáver em putrefação, Ingénuos eles, coitados. É culpa da batata doce.


A névoa serve apenas de aviso, Corram logo, Façam o que têm que fazer, Vai chover, Vai chover, dizem na linguagem de névoas, com tanta certeza quanto o profeta do tempo.


Dito e feito. Minutos depois abrem-se as comportas dos céus, com tanta veemência que parece que tudo vai ficar inundado, Mas não vai, diz minha avó, O arco-íris logo aparecerá para nos lembrar que dilúvio nunca mais teremos, Queira Deus, amém!


No início ela começa tímida, acanhada, para logo em seguida mostrar sua fúria, sua potência, a força de algo que ficou algum tempo esperando para lavar a alma daqueles que dias antes estavam de bocas abertas para os céus, rogando a presença de sua senhoria a chuva.


No finalzinho da tarde ela dá uma trégua, mas continua firme, constante, como lágrimas choradas por alguém solitário, nostálgico, longe demais de sua terra para se lembrar quão bom é o cheiro da chuva.

Shhhhhhhhhhh, Não estou pedindo silêncio, é apenas o chiado da chuva lá fora misturado ao barulho que sai do pequeno rádio que alguém tenta sintonizar aqui dentro para saber as notícias, Chove muito nas ilhas, diz o locutor, Disso já sabemos, replica alguém dentro de casa. Desculpemos seu mau-humor, deve ser culpa do frio, saiu para brincar na chuva e agora está sem casaco, não há para todos, quem conseguir um é seu, ao menos por hoje.


Jantamos todos, quietos. Para quê falar, se lá fora a chuva canta, afinada, sua canção de embalar, acalentando nossas turbulentas almas, Calma menino, Dorme, diz a chuva, tranquila, assim nesse ritmo. Dormirei, mas não agora. Dormirei apenas quando acabar de ouvir as histórias que minha avó conta, daquele tempo antigo, quando reinavam a seca e a fome nas ilhas, daquele tempo em que Nhô lobo foi para o sul e Chibinho foi para o norte, à procura de comida, daquele tempo em que minha avó encontrou um cordão de ouro e o trocou por dois litros de feijão, daquele tempo em que se colocava dois litros de água em um punhado de feijão, Todos hão-de comer, daquele tempo em que comer era privilégio de poucos, mas necessidade de todos, Pelo amor de Deus senhor, só um pedaço de pão, daquele tempo...daquele tempo...Shhhhhhhhhhhhh, peço silêncio, as crianças dormiram.


 

Aquele abraço.

Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro


Categories: Artigos, Eliezer Monteiro

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5 Comments

Reply Kaka
06:46 PM on May 01, 2010 
Belo trabalho Eliezer.problema e que andas com uma preguica caracteristica dos que tem medo das chuvas.
Mas uma coisa e certa,os teus artigos sempre trazem saudades, aindamais quando consegues tocar na intimidade da alma.
Reply Danillon
06:31 PM on May 01, 2010 
Tu és para mim como esta chuva que contas, trás a bonança e saudades, e es sempre desejado com estas passagens. Para aqueles meninos que sempre tinham algo para fazer, "palha" para as alimárias, "djangulim" para o fogão "agu" para o pote, aconchegar o caule dos feijões, a poda, etc, etc, estas horas são francamente um alívio. Já se pode ouvir as estórias da vóvó e mesmo depois de apagada a escassa luz, os zunidos do vento na fresta da porta embalavam os meninos sonhadores. Naquele dia não terias pesadelo porque as expectativas eram muitas.
Reply Remoaldo Cardoso
06:20 PM on May 01, 2010 
Muito rico, Eliezer. E de artigos como esse que o Manduco precisa e espera de todos. Contibuacao.
Reply TAMBARINADURO
05:25 PM on May 01, 2010 
Tambarina sta meste tchuba pel bira cada bez + forti...tchuba di merca ka tem piada...tchuba di fogo e sabi pa xuxu
Reply Barroso de Monte Burro
05:15 PM on May 01, 2010 
Menino voce me faz lembrar Monte Burro. Fortes saudades no Mundo! Voce lembra me que nunca eu conheco vulcao ate ainda que tenho 92 anos.
Estou a pensar ir para Franca porque meu neto nasceu na franca e entao pensar a passar uns 3 ou 4 anos na franca ate o menino ficar mais grande. Depois de a Franca vou para Partugal porque meu filho que nao havei visto ha muitos anos esta la a trabalhar com dureza e tenho que morar com ele palo menos por alguns outros anos que estao a vir porque ele eh o filho que eu nao morei muito com ele.

Depois de a Franca e de o Portugal agora depois vou para Djarfogo. Eu queria ir agora para Djarfogo mas estou triste porque nao podo por causa de os meninos na Franca e no portugal.

Quando chegar Djarfogo vou imediaticamente ir para olhar o vulcao. Agora estou velho nao da para ir para riba do vulcao porque nada de mim agora vai para riba porque tudo esta muito debaixo, por isso eu irme-ei ficar em baixo do vulcao, porque as coisas de ir para riba agora nao da comigo.

Se as coisas dava melhor para riba, depois de cabar de andar o mundo eu pensava casar no Fogo e racomencar uma nova familha, mas Djarfogo de nosso tem muita subida e eu nada de mim vai para riba entao nao da para casar mais com rapariga nova.