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Censura agride a liberdade e a democracia em Cabo Verde

Posted by Dr. Azágua on April 25, 2010 at 10:16 AM

Censura agride a liberdade e a democracia em Cabo Verde


By Dr. Azágua


 

“O parlamento aprovou, na generalidade, o novo estatuto dos jornalistas que consagra a obrigatoriedade de ter uma formação superior para o exercício da actividade jornalística em Cabo Verde. O diploma recebeu os votos favoráveis de 39 deputados do PAICV e dois da UCID. A bancada do MpD absteve-se.” Não acreditava no que acabava de ler no jornal ASemana on line, estão a brincar, pensei, mas no fundo sabia que se tratava de realidade, nova realidade.


“Censurar meios de comunicação – não importa quem dá a ordem – é um acto de violência e de contestação à democracia. Principalmente quando sabemos que toda empresa ou profissional de comunicação é sujeito a punições extremas. Esse rigor legal, com que muitos não concordam, deveria ser o argumento garantidor do não cometimento de excessos pelos detentores do poder. Toda vez que, além dessa nefasta machadinha colocada sobre a cabeça do jornalista e de sua empresa, ainda houver ação restritiva ao direito de informação, configura-se uma ofensa à democracia e ao sagrado direito do povo ser informado.” (Cardoso Gonçalves).


Na verdade, o Estado de Cabo Verde já está sob censura há 3 dias. Algo de ruim está se passando num país dito democrático. A imprensa jamais poderá ser tolhida no seu direito de informar acontecimentos e coisas reais, que o povo tem o direito de delas tomar conhecimento.


Como disse e bem o Al Binda um liberal e defensor de poucas leis, (confessa ele) no FORCV.com, “A liberdade é assim: há sempre alguém que abusa dela. O próprio Parlamento resolveu abusar da liberdade de informação e do direito de informação ao exigir curso superior para o exercício da profissão de jornalISMO; o PROBLEMA é como alguém escreveu, os jornalistas estão em silêncio, estão amordaçados, perderam as suas linguas, não dizem nada, não se revoltam. Mas onde é que se viu isso? Agora exige curso superior como se curso superior fosse sinónimo de competência e inteligência. Mas então porque é que a maioria dos governantes desta terra é incapaz de formular uma frase com sujeito predicado e complementos?”


A decisão do Parlamento com a abstenção do MPD (PAICV 39, UCID 2) de proibir qualquer cidadão de informar ou de se manifestar, é mais do que uma arbitrariedade, é uma agressão à liberdade de expressão e à própria democracia em nosso país.


Não esqueçamos que Cabo Verde correu com a ditadura Salazarista em troca pela liberdade de expressão. Amordaçar a imprensa é comportamento típico dos regimes totalitários. Seus agentes costumam impedir que o povo seja informado para evitar que se rebele e exija a apuração e punição dos responsáveis, principalmente quando eles fazem parte da elite mandatária. Qualquer país que já viveu sob alguma ditadura sabe bem o que isto significa. Eu sei, porque ainda me lembro - como se fosse hoje - o dia de 25 de Abril – melhor, entre 27 a 30 de Abril de 1974, na Praia, e o 1º de Maio do mesmo ano, dia em que libertaram os presos políticos em Chão-Bom, Tarrafal. Eu estava lá no meio dessa grande multidão vinda de todos os cantos da ilha de Santiago e doutras ilhas. E que grande dia para qualquer ser humano sentir na pele, perceber de uma vez por todas o significado de liberdade!


É necessário entender que o nosso Cabo Verde possui muitas boas leis, mas hoje só quero referir-me à nossa Constituição que, decerto, juristas como o Dr. Virgílio de Pina Brandão, Dr. Carlos Fonseca “Zona”, Dr. Casimiro de Pina e outros, poderão melhor debater sobre esta questão fundamental: A Liberdade de Expressão.

 

 

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

TÍTULO I

DA REPÚBLICA

Artigo 1º

(República de Cabo Verde)

 

1. Cabo Verde é uma República soberana, unitária e democrática, que garante o respeito pela dignidade da pessoa humana e reconhece a inviolabilidade e inalienabilidade dos Direitos do Homem como fundamento de toda a comunidade humana, da paz e da justiça.


Artigo 2º

(Estado de Direito Democrático)

1. A República de Cabo Verde organiza-se em Estado de direito democrático assente nos princípios da soberania popular, no pluralismo de expressão e de organização política democrática e no respeito pelos direitos e liberdades fundamentais.



TÍTULO II

DIREITOS, LIBERDADES E GARANTIAS

CAPÍTULO I

DOS DIREITOS, LIBERDADES E GARANTIAS INDIVIDUAIS

Artigo 28º

(Direito à liberdade)

1. É inviolável o direito à liberdade.


2. São garantidas as liberdades pessoal, de pensamento, expressão e informação, de associação, de religião, de culto, de criação intelectual, artística e cultural, de manifestação e as demais consagradas na Constituição, nas leis e no Direito Internacional geral ou convencional recebido na ordem jurídica interna.

3. Ninguém pode ser obrigado a declarar a sua ideologia, religião ou culto, filiação política ou sindical.

Não tenho as mínimas dúvidas que Cabo Verde produziu nos últimos 20 anos um verdadeiro arsenal de juristas, capazes de interpretar a Constituição quão um bom seguidor da Bíblia Sagrada ou do Qurão, com o empenho para fiscalizar e exigir o cumprimento das leis.


A liberdade de expressão é o bem maior das sociedades democráticas. A censura, em suas diversas formas – directa ou indireta, prévia ou posterior, administrativa ou judicial –, tem merecido, no correr dos anos, a preocupação e o repúdio dos povos.(...)

Dever fundamental


Quase vinte anos após a promulgação da actual Constituição, a nação cabo-verdiana está suficientemente madura para não permitir que a sua Lei Maior seja violada nos preceitos que asseguram aos seus cidadãos os seus direitos fundamentais, conquistados literalmente com sangue, suor e lágrimas.

Assim, nunca é demais lembrar o Artigo 47º (liberdade de expressão e de informação),


1. Todos têm a liberdade de exprimir e de divulgar as suas ideias pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, ninguém podendo ser inquietado pelas suas opiniões políticas, filosóficas, religiosas ou outras.

 

2. Todos têm a liberdade de informar e de serem informados, procurando, recebendo e divulgando informações e ideias, sob qualquer forma, sem limitações, discriminações ou impedimentos.

3. É proibida a limitação do exercício dessas liberdades por qualquer tipo ou forma de censura.


4. A liberdade de expressão e de informação não justifica a ofensa à honra e consideração das pessoas, nem a violação do seu direito à imagem ou à reserva da intimidade da vida pessoal e familiar.


5. A liberdade de expressão e de informação é ainda limitada pelo dever de :

a) protecção da infância e da juventude ;

b) não fazer a apologia da violência, do racismo, da xenofobia e de qualquer forma de discriminação, nomeadamente da mulher.


6. As infracções cometidas no exercício da liberdade de expressão e informação farão o infractor incorrer em responsabilidade civil, disciplinar e criminal, nos termos da lei.


7. É assegurado a todas as pessoas singulares ou colectivas, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta e de rectificação, bem como o direito de indemnização pelos danos sofridos em virtude de infracções cometidas no exercício da liberdade de expressão e informação.

Defender intransigentemente estes princípios é um dever fundamental não só para jornalistas, mas para todos os que enxergam a democracia como peça fundamental dos Direitos Humanos.m universal.

Embora haja sempre questões sobre a chamada Lei de Imprensa, que muitos consideram imprópria, não podemos ignorar que a legislação geral coloca os meios de comunicação numa verdadeira camisa de força no que tange à responsabilidade pelo material que veicula como se verifica no Artigo 47º, alíneas 6 e 7 acima referidos.

 

Todas as vezes que um jornal, rádio, televisão ou outro meio regulamentado de comunicação comete algum excesso, seus responsáveis são processados, respondendo cível e criminalmente pelo ocorrido. Além das penas restritivas de liberdade a que estão sujeitos, ainda podem ser condenados a pagar pesadas indemnizações que, em muitos casos, são absurdas, mas existem.

Na minha modesta opinião, acho que em vez do Parlamento ter havido tomado essa decisão agravante e chocante num estado democrático, deveria, primeiro, consultar a opinião pública que, mais cedo ou mais tarde, irá contestar esta nova lei de imprensa no Supremo Tribunal de Justiça.

 

Alternativa: Um Conselho de Jornalismo

 

Um Conselho de Jornalismo evitaria todo o processo e burocracia da Justiça e dos Tribunais no que respeita a “direito de resposta”, quando um jornalista afirmar falsidades sobre uma pessoa com o intuito de degenerar a sua imagem e que raramente ou nunca recorre aos tribunais por causa da lentidão dos processos. Tal como, por exemplo, quando existe um conselho de medicina para evitar negligências, erros, abusos, por parte dos médicos, enfermeiros, etc., o mesmo se faria com um Conselho de Jornalismo não-partidário, para analizar, processar e punir de uma forma mais rápida aqueles que fogem às regras estabelecidadas.

 

 

Para terminar, queria deixar uma só pergunta.

 

De quem veio essa ideia de censurar, de agridir a liberdade e a democracia em Cabo Verde? De quem?

 

Quero saber!


Categories: Artigos, Dr Azagua

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9 Comments

Reply IMACULADA DE JESUS
04:06 PM on April 26, 2010 
Gostaria de ver a lista geral dos deputados e ver qual e a ilha que pior apresenta categorias de deputados. A Assembleia Nacional tem esta lista? Vamos chegar la em debates nacionais, regionais e locais.
Reply IMACULADA DE JESUS
03:55 PM on April 26, 2010 
A meu ver, devia-se preocupar mais com o desempenho de alguns deputados, apesar de serem eleitos pelo povo, que, invés de exigirem aos jornalistas, exigissem a si próprios como pessoas que analisam e interpretam as leis da República, porque ao tentarem pintar o papel de juízes, censuradores e criadores de requisitos que devem nortear o Jornalismo cabo-verdiano, estão, de algum modo, a criar motivos para serem julgados também.
A Casa Parlamentar devia apontar dedo à sua própria pessoa, onde abunda deputados sem mínimos de requisitos para interpretar as leis, a politica nacional e internacional, pior para estar a ganhar aproximadamente 200.000$00 mensais.
A lei devia começar pelos deputados, onde a Casa Parlamentar podesse reflectir competência, preenchendo de forma culta o curriculum, conforme manda a função pública.
Ter deputados que não colocam uma vírgula e que nem diga um _ ai ou ui _ não vale a pena.
Espero para ver.
Reply Dr. Azágua
01:29 PM on April 26, 2010 
Danilo! Danilo! Vou chamar o teu irmão Xiba ou Natavo agora mesmo para te dar um puxão de orelhas!

Brincadeira à parte, rumo ao assunto....

Como sabes pá, se eu fosse tirano, teria "tomado conta" de ti nos tempos de meninice, na porta ká Nhambápu, pé-di-tanbarina, fonsáku, ou fonte kurral. Ironia do destino...

P.S. Não te esqueças que eu fui o primeiro menino (foi confirmado) que levou uma boa de borracha (que o nho padre Luis tinha me oferecido porque era seu ajudante de altar) e ter introduzido futebol de "onze" em Chã-das-Caldeiras. Lembras do meu tio Jaime d'Abi quando ensinava lá? Pois é! Ia lá sempre com ele nas férias de Abril. Foi um lugar magéstico e inspirador para mim... Ainda me lembro vívidamente do nhô Simiano, Tito, Socorro, Ntoninho de Júlia que tomava conta das propriedades do estado, e outros.

Voltando ao assunto inicial, cabe-me dizer-te que não tiro partido no que se refere ao MEU Cabo Verde porque é tanto MEU como o Presidente da República, o PM, ou seja quem for! Defendo as cores de CV a qualquer momento, seja onde for!

Espero que não seja "pau mandado" do teu primo e não preciso mencionar o nome. Entendo a tua convicção e a forma como "engoles" as coisas lá dentro. Eu, da minha parte, fecho um capítulo e abro um outro - rumo à meta final. Espero que faça o mesmo e que continue escrevendo "memórias dos tempos perdidos" porque aprecio o teu amor e orgulho à terra, mas na minha modesta opinião, acho que - tal como os outros tantos ogulhos foguenses que temos - tens muitos contos engraçados e interessantes para nos contar e espero que continue a fazê-lo.

Continue contando as boas histórias que gostas de fazer e espero que não te esqueça as guerrinhas de futebol e o "furto" das hósteas na igreja, dos mangos, das tamarindos, do sinbron, das papaias, dos cajú e tantos outros. Tentarei fazer o mesmo, pois a cultura é muito mais interessante do que a política, sinceramente. É como tentar convencer um sportinguista para ser benfiquista, um católico para se converter ao Islão, um MPDista para se tornar PAICVista. Nã dá! Na verdade, não se brinca com o sentimento...

U ki axa?
Reply Danillon
11:54 AM on April 26, 2010 
Não queria com a minha simples opinião atingir o Olímpo tirano do Dr. Azágua. Não atingiremos a democracia a popular o conceito mas a praticá-los. A minha opinião teve a base as esclhas que os caboverdianos fizeram, os seus eleitos parlamentares sejam ele da oposição ou apoiantes do governo.Merecem respeito. Acredito que na Assembleia Nacional tem muitos deputados que são formados em Direito,.Segui o conselho do Dr.Azágua tanto que os sites referidos fazem parte do favoritos deste computador, achei estranho não encontrar nenhum artigo ou comentario que evocasse a inconstitucionalidade desta lei. Se fosse assim tão encontrar descrepâncias entre a constituição e esta lei. De qualquer forma o Manduco.net congratula de ter no seu elenco um jornalista com carteira.
Abraços
Reply Zelito
11:29 AM on April 26, 2010 
M-ta lembra qantu du ta brincaba qui maioria di nhos ta imaginaba y inspira na um arguem qui mas tem influencia na nos formasan di personalidadi.
Certu dia m-staba ta passa m-obi minis ta discuti q'al des era Napoleao. Um finca pe el da mon na petu y el fra: Mim ta ser moda Napoleao qui era tropa ti caba na nada, prusor di prusoris, puliticu qui fica na nos menti moda quel tempu qui ta papiada na aparecimentu di Amilcar Cabral na tchan di caldera y qui nunca mas nu ca discubri.
M-tem gana conche quel homi qui se storia fica-m na cabeca moda um injesan qui ta forca-m a sonha tudu dia a ser cada bes mas forti, rijo, balenti, intiligenti y ativu.
Ami e fan di Napoleao. Por issu m-ta poi capaceti di asu, coleti militar y bota di ferru.
Reply Dr. Azágua
08:41 PM on April 25, 2010 
Aconselho-te Danilo para fazer uma visita ao FORCV.com onde estão muitos comentários de intelectuais, políticos e membros do governo (anónimos) que eu pessoalmente conheço. Lá, talvez terás oportunidade de melhor entender os teus direitos constitucionais e a liberdade de expressão. Tu que vives nas fronteiras do rio Tejo, notaste algo diferente hoje? Não? Claro que não! Hoje é o dia 25 de Abril. Já leste os jornais online de Cabo Verde? Bom, quanto à política, não tenho tempo para dar aulas na internet. Eu digo, tu decides. Sempre. PS. Não trabalho como jornalista, mas tenho cartão profissional. Estou aqui em tua defesa. Sempre!
Reply Danillon
02:44 PM on April 25, 2010 
Lamento não dar apoio ao Azágua apesar de entender as suas preocupações, mas espero que os deputados caboverdianos, mesmo aqueles que absteram desta não tenham a intenção de atingir as expressões como as nossas. Não percebi que aqui no manduco tenha estado um jornalista profissional, mas neste caso se estivesse com as devidas condições agora propostas, só estariamos previlegiados. Estou por um lado contene que as coisas estejam devidamente nos respectivos lugares. Se o jornalismo é um simples emitir de opiniões , aí estariamos todos num cagaço de preocupações. Espero contudo que não tome as dimensões oníricas do Azágua.
Reply Kaka
02:29 PM on April 25, 2010 
Obrigado, Azagua, por informar e compartilhar as suas opinioes, fazendo uso da liberdade de expressao. Desconheco completamente esta lei, mas desconfio que seja uma limitacao a liberdade de comuicacao. Penso que a lei servira apenas para questoes de enquadramentos legais e profissionais. Embora delimite o conceito de jornalista, nao penso que limite o poder e o direito de informar apenas aos que estao dentro deste conceito tecnico. Nos continuaremos a informar, sem limitacoes, mesmo estando a Leste deste conceito, que acreditamos ser apenas para questoes profissionais.
Reply NAPOLEAO
11:13 AM on April 25, 2010 
O regresso do Dr. Azagua trouxe bonança e mais chuvas neste "padjigal de Djarfogo"
Tema polémico e interessante. Vamos, todos, de cabeça fria analisar esta questão.
Abraços.