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CHA DAS CALDEIRAS- FINAIS DO SECULO XIX E PRINCIPIOS DO SECULO XX

Posted by Kaka on April 21, 2010 at 1:44 PM

No ano em que se comemora os 550 anos dos descobrimentos de Cabo Verde,os 35 da independencia nacional, tambem e justo, para nos, realcar alguns fenomenos relativos a Cha das Caldeiras, que neste momento convem relembrar. E do conhecimento geral que a ultima erupcao vulcanica ocorreu ha 15 anos, mas poucos estao atentos ao facto de esta localidade estar prestes comemorar os seus primeiros cem anos de vida como comunida humana. A decada que vem a seguir, sera o periodo que vai consolidar “Os Cem Anos da Solidao” da comunidade da Cha das Caldeiras. Participando desta comemoracao, trazemos em destaque um  possivel retrato de como era esta localidade ha mais ou menos cem anos.


 

CHÃ DAS CALDEIRAS NOS FINAIS

DO SECULO XIX E PRINCÍPIOS DO SECULO XX

 

    No alto da enorme montanha que constitui a ilha do Fogo, existe uma grande planície, a que se chama Chã das Caldeiras, rodeada nos três quartos dos seus limites por rochedos altíssimos e alcantilados. Estes rochedos, que chegam a atingir mil metros de altura, constituem uma caldeira em hemiciclo, de nove quilômetros de  diâmetro, aberta a Leste. No interior da Chã é a bordeira, e no lado de fora é conhecida como a serra. O hemiciclo da Chã termina em duas escarpas, a do Corvo e a do Espigão. Um de cada lado do Vulcão,constituem as únicas aberturas da Chã.




 

     Orlando Ribeiro  compara Chã das Caldeiras a um “átrio”; Descreve-a como “ uma depressão de uns dois quilómetros de largura, em forma de ferradura, de fundo plano, embora acidentado por vários cones adventícios e correntes de lavas.” Continuando diz: “Um degrau transversal de 50m de altura, suave mas bem marcado divide o fundo da Chã em dois pavimentos.”

   

    É na Chã das Caldeiras que se ergue a grande montanha chamada de Vulcão do Fogo. Com quinhentos metros de diâmetro, ergue-se a mil e cem metros de altura acima da Chã, perfazendo dois mil oitocentos e vinte e nove metros de altitude, o ponto mais salto de Cabo Verde.


    A paisagem da Chã é impressionante. De um lado a grande muralha circundante; do outro lado a enorme massa vulcânica de perfil cónico, situada precisamente na parte desguarnecida de rochedos. No flanco oriental da Chã, essa massa vulcânica descai  directamente até o mar, num declive de dois mil e setecentos metros em cinco quilómetros.


   Entre o Vulcão e a grande muralha ou bordeira há o negrume da enorme planície, sobre a qual se vêem espessas camadas de lavas, enormes pedregulhos, cones adventícios cobertos de cinzas e areias negras.

 

É apenas ao pé e à sombra da grande bordeira que encontramos alguma vegetação. É nesta parte que,  ainda hoje, se pratica a agricultura. Antes, completamente inculta, o sopé da bordeira estava coberto de mato, predominando três tipos de arbustos:  A losna, o tortolho e o lentísco. No meio destes, havia ainda uma diversidade de vegetação, com realce para um  número considerável de plantas endémicas. Trata-se, com efeito, de um importante nicho ecológico.


Essa vegetação nascia e crescia espontâneamente, constituindo um mato onde dificilmente se poderia ver um homem que lá entrasse, a apenas alguns metros de distância. A losna, por exemplo, segundo Joaquim Vieira Botelho da Costa, era da altura de um homem, e, em algumas partes, da altura de um homem a cavalo.


            Em Chã das Caldeiras existiam nascentes de água, sendo uma muito importante que corria ao longo das rochas, infiltrando-se poucos metros depois na areia. José Maria de Sousa Monteiro, descreve - a assim : " Neste valle há uma grande nascente deágua doce que corre sem utilidade alguma, porque não há quem a approveite pelorisco de trânsito, e mais ainda porque temem de ir alli estabelecer-se: econtudo é a ilha tão falta de água".


     Entretanto, não podemos afirmar que Chã das Caldeiras fosse neste período um baldio completamente abandonado. Além de ser muitas vezes usada como lugar de passagem pelas pessoas que faziam o percurso Mosteiros, zona Sul e são Filipe, a Chã atraía ainda muitas pessoas que se dedicavam ao apanho de produtos vulcânicos. Desses produtos podemos citar  o sulfato de sódio, conhecido pelo povo por "contra" e de muita importância na medicina tradicional e o enxofre que foi objecto de estudos importantes. O naturalista João da Silva Feijóo foi enviado  à ilha para estudar os mecanismos de extrair o enxofre, cuja fama percorria o arquipélago, pois era de excelente qualidade. Em 1916, ess enxofre foi levado à exposição de produtos da Província. A confirmar o interesse pelo produto, ainda em 1917, resolveu - se  subsidiar um estudo  sobre o seu valor qualitativo, a produtividade do jazigo e condições de exploração.

 

    Naturalmente, esta localidade desafiava os espíritos científicos e aventureiros. Assim, além de notícias de visitas efectuadas por vulcanólogos, geólogos, naturalistas e outros, é de salientar que em 7 de Abril de 1826, um Espanhol degredado na ilha do Fogo, consegue pela primeira vez subir ao "cume do pico". Esta é a primeira notícia que se tem da escalada ao Vulcão, o que veio encorajar outras tentativas. A partir de entao, é normal ouvir - se falar da sua escalada, tanto por curiosos e exploradores como por especialistas ou estudiosos científicos.


            Um grande testemunho de presença humana em Chã das Caldeiras, com alguma regularidade, são relatos da existência de gados, principalmente caprino, e cavalar em estado semi - selvagem. Botelho da Costanum BO de 1852, refere-se à Chã como um espaço que “ assim para o interior, como para fora, habitado por cabras silvestres,de cor escura semelhantes na agilidade a macacos".  Uma outra descrição no BO no 16 de 1884referindo-se à Chã diz, "(...)vestido de losna, de que se alimentam éguas e poldros quasi selvagens". Estes animais denunciam presença humana, como teremos ocasião de analisar em capítulopróprio.


    Esta paisagem tem provocado bastante admiração às pessoas que por lá passam. Muitos, como visitantes ou estudiosos, não deixaram de expressar os sentimentos inspirados  por esta localidade.




   

Orlando Ribeiro diz que “quem cavalga ao longo da Chã, ouvindo apenas o monótono crepitar dos cascos das mulas  sobre a escória grosseira oprimido entre as massas de relevo que o encerram no horizonte de tristeza, pensa que um caminho assim era digno de conduzir ao reino do Plutão, onde se entra sem esperança de voltar”.


            Félix António de Brito Capelo “O aspecto d’esta espécie de obelisco monstruoso issolado no meio daquelle vasto circo-todo coberto de cinzas e areias negras- produz necessariamente uma sensação indefinível- sui-generis: dir-se-hia ser o resto de enorme fogueira que mãos gigantes alli tivessem preparado!!! Não é possível fugir a uma sensação de issolamento, e (permitta-se a expressão ) de aniquilamento de si mesmo que experimenta quem observa aquelle espectáculo... e se não com os olhos do corpo, pelo menos com os olhos do espírito”.


Mas, o espirito aventureiro do homem, aliado a outros factores, vai, mais uma vez, desafiar e enfrentar os desafios que a natureza lhe impoe.


Claudio Fonseca

 

Categories: Artigos, Claudio Fonseca (Khacka)

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7 Comments

Reply paulo pina
02:33 AM on July 03, 2011 
mas um bom trabadju kaka...sima arguem fra li tempo e poku mas bu tem atxadu sempre um tempin pa bu da bu grandi kontribuisao pa djarfoguenses e djarfoguerus tuma consciencia di tamanhu nos burkan...mi djan prende txeu ku es artigu...
bem haja kaka tambe
Reply LUCINDO ROSA
01:28 PM on April 24, 2010 
Amigo, Claudio Fonseca
Por um bom trabalho nao se importam os sacrificios.Djarfogo merece e Cha das caldeiras nao menos, porque e tambem parte dos nossos coracoes. As vias de acesso, os servicos de apoio as comunidades, o inicio de infraestruturas turisticas ja justificam de per si o desafio dos corajosos pioneiros do povoamento de hoje uma das paisagens mais atractivas da Ilha e do Pais.
Todos juntos seguimos divulgando e defendendo Djarfogo sem exclusao de area.
Aquele abraco de sempre.
Reply Francisco Mendes
10:59 AM on April 23, 2010 
Excelente! Os 550 anos de CV dede ser tb de todas as ilhas e de todos os povoados.
Reply Remoaldo Cardoso
08:45 AM on April 23, 2010 
Excelente trabalho , meu caro. Ate parece que estas a virar Nhontoni do Rosario. Colhe e deixa esticar ao teu e o bem de Djarfogu e da sua gente.
Reply TAMBARINADURO
09:20 PM on April 22, 2010 
Dja da-n gana sinta, pe rakatchado, frenti dum bala ku uba, manssam, rumam, figo partugal, pa-m sola teki biko stika, stiky...Dipos pa-m bota um manekom, pam lembra nha mocindadi
Reply NAPOLEAO
10:41 AM on April 22, 2010 
Belissimo trabalho, Caca. Embora o tempo é escasso, tens contribuído bastante para a divulgação e aprofundamento das nossas raízes.
Continue nesta linha, meu caro, porque, embora dura e árdua a missão, vale ouro para os foguenses e cabo-verdianos.
Abraços.
Reply Eliezer
09:12 AM on April 22, 2010 
Poesia para meus ouvidos. É disso que precisamos; manduco precisa falar desse tipo de assunto, precisa mostrar ao mundo a cara de Djarfogo, precisa acalentar os filhos de Djarfogo perdidos no mundo. Falar de política e de políticos não, pelo menos não neste espaço. Quem não teria algo para contar sobre a terra de sua infância, quem não teria algo para escrever, tentando lavar sua nostalgia, quem não saberia expressar, em simples palavras que fossem, o peso de sua saudade?!
Cabe a nós decidirmos isso. Eu, pessoalmente, nem leio artigos sobre política. Não em MANDUCO!
É a minha opinião.