|
|
O mês de Março é o mês de apanho do café, e é tambem chamado pelos mais velhos, mês de Vindima, isto por analogia, supostamente, com o apanho das uvas em Portugal, tendo em conta o nosso passado de colonia daquele país.
Esta analogia também reflecte a prosperidade que, igual a uva para portugueses, o café representava e representa para a vida económica da Ilha do Fogo, especialmente dos Mosteiros.
A par do económico, o café já foi gerador de toda uma movimentacão multidisciplinar que, no seu conjunto, redundava numa azáfama, mas de todos preferido, exactamente porque ninguém ficava fora dos seus benefícios, ainda que parcial, como é óbvio, inclusivé o próprio rato, que ajunta em ninho especial, depois de comer as cascas adocicadas, os grãos que são muito bem vindos, sobretudo pela criançada na ‘recolha’ do café, a que tem lugar depois da colheita regular.
Devido a seca persistente, a producão do café tem vindo a reduzir-se, e o seu cultivo afastando-se dia-a-dia para as zonas montanhosas, lamentavelmente.
O arbusto que o produz, (cafeeiro ou cafezeiro), para além do valioso café e da sua concorrida lenha para cozinhar, embeleza toda a costa alta dos Mosteiros, ate o perímetro florestal de Monte Velha. Aqui aproveito desejar paz à alma do saudoso Gil Alves Monteiro (Sr. Ivo) um dos nomes indissocíaveis a essa linda Floresta, que carece enquadramento no desenvolvimento do Concelho e da Ilha.
A influência da produção do café era de tal ordem que acabou por influenciar a própria arquitectura dos Mosteiros, uma vez que ainda hoje em algumas casas, para a secagem do café, encontramos dispensas, um ou mais quintais,isto conforme o poderio do proprietário, abertos ao sol.
A produção do café que em alguns momentos já foi o maior sector de emprego e motor do progresso económico do Concelho e ainda hoje recordada com saudades por muito dos Foguenses da minha geração e não só. É dela que resultou o meu primeiro contacto com ruído duma máquina industrial (uma debulhadora de café;),cujo funcionámento era um espectáculo em cada ano, especialmente para nós crianças da época.
Durante o período áugeo do café nos Mosteiros, a sua colheita era de espectativa geral, porque de uma ou outra forma trazia alegria a todo mundo: As crianças mais assíduas nas escolas esperavam-na com ansiedade, para nos fins de semana ou mesmo depois das aulas irem a espera da rebusca, sobretudo para, compra de brinquedos, mancarra, guloseimas, etc. Para os proprietários, se a colheita for boa e tempo de pensar em : liquidação de dívidas; melhoramento da casa e do guarda-roupas; envio de mais um filho para o liceu da Praia; ou São Vicente e raras vezes para estudos pòs liceais em Portugal, ou como emigrante para o estrangeiro.
Este “mês de vindima” que, normalmente, decorria entre o inicio de Março e os finais de Abril, para alem da movimentação dos residentes do Concelho, trazia doutras paragens pessoas de negocios (representantes de casas comerciais da Praia e do Mindelo); vendedores ambulantes; tecnicos da Praia para operarem a maquina de debulha do café e que pertencia ao Estado e que ajudava a reduzir o sacrificio dos bracos das debulhadeiras e o desgaste acelerado dos pilões e de duas maquinetas da Capela do Monte Queimado, espaço que ainda hoje continua, intacto e sendo o maior produtor, singular, do café do Concelho.
O mesmo período, devido a prosperidade que representava era aproveitado para realização de casamentos, baptizados, registos; saídas de casa; bailes nacionais; abertura de novas lojas e mercearias; reabastecimento das casas comerciais, normalmente com novidades e como não podiam deixar de ser, as chegadas de barcos e aviões ,afretados.
Na minha infância, para além do espectáculo da máquina debulhadora, haviam mais dois que, de entre outros, me intrigavam e ao mesmo tempo me davam gozo:Um era as lojinhas sazonais que surgiam nas zonas altas, isto ė mais perto possível das zonas sob vigilância dos guardas; outro era a deslocação da Vila da Igreija de uma senhora, proprietária por casamento, que em vez do marido, como era costume da época, deslocava as zonas altas, trajada de joker, sobre uma mula e cujas redias eram asseguradas durante o percurso por um cidadão da terra, para acompanhar a faina do café. Este realmente era caso único e por isso também espectáculo único, sobretudo para nós, criancas de então.
Assim considero que o nosso Café é um dos Patrimónios do Concelho dos Mosteiros e da Ilha do Fogo em geral, embora que não represente hoje aquela força económica do passado, mantém seu valor a nível dos cafés, sendo o mais aromático de todos e, quicá preferido, se um dia chegar a ser tratado e valorizado como aconteceu com o nosso grogue, ponche, manecom, que hoje já concorrem nos mercados internacionais.
O mês de Março é mês de colheita de produtos valiosos, tais como, a uva que deu vinho para a última seia de Cristo, o café que aprecíamos muito, mas ė também o mês de celebração da peça mais linda e emblemática da Natureza: das Mulheres, as quais as melhores felicitacoes e maiores sucessos nas suas lutas.
Brockton, 23/03/10
Categories: Artigos, Lucindo Rosa
The words you entered did not match the given text. Please try again.
Oops!
Oops, you forgot something.