|
|
A variante foguense da língua cabo-verdiana, como muitas outras variantes e línguas à volta do mundo, está sujeita a influencias que direccionam para o seu enriquecimento e modernização, mas, que também, fazem perigar a sua existência futura. Perante esta ameaça e considerando a sua riqueza histórico- cultural e o seu valor documental, ainda por explorar, torna-se imperativo preservar o crioulo foguense como um legado necessário para o futuro.
A ilha do Fogo é das do povoamento mais antigo e, consequentemente, com as maiores riquezas históricas e culturais. É, pelas mesmas razoes que Santiago, o berço da cabo-verdianidade, e constitui por séculos, com a ilha irmã, os dois focos da difusão da nossa identidade nacional. Entretanto, muito trabalho precisa ser feito para o entendimento e esclarecimento do nosso passado, porque, ainda hoje, a historia de Cabo Verde é feita essencialmente com base em documentos escritos. Embora tenha havido importantes trabalhos da arqueologia, especialmente a marítima, o recurso a outros tipos de testemunhos permanece incipiente.
Mas, se a historia de Cabo Verde tem-se padecido por causa desta limitação, pior torna-se a historia particular do Fogo que se esbarra na escassez desta forma de documentação. Como os documentos escritos em ralação à ilha são exíguos, deve-se preservar e dar atenção a toda e qualquer forma de testemunhos que se encontre às nossas mãos. Por esta razão, há de se destacar o papel documental que se edifica no crioulo foguense e a sua importancia na construçao da nossa historia. Pois, sendo o crioulo foguense contemporâneo do de Santiago, e como este, o primeiro que se formou, a sua riqueza histórico-cultural encerra elementos importantes que são capazes de aclarar a origem de aspectos distintos da nossa identidade. Nota-se que a linguística, como ciência auxiliar, ajuda a detectar o sentido dos movimentos populacionais no passado- suas origens, seu percursos e seus destinos. Assim, ela pode elucidar os movimentos internos e também os que tiveram o nosso pais e/ou ilha como destino.
Consideramos aqui algumas das nossas particularidades que o estudo da nossa língua poderá ajudar a aclarar:
Ainda que não hajam duvidas quanto aos contingentes que participaram no povoamento de Cabo Verde e o reflexo que tiveram na formação na nossa língua, é possível conseguir pistas importante sobre pormenores que ditaram a formação de particularidades regionais.
O Contingente Africano permanece uma amálgama de confusões e, ainda, não se pode determinar claramente o contributo de cada etnia no nosso povoamento. É necessário melhorar esse conhecimento, concentrando-se nos conteúdos que a grande diversidade cultural proveniente da Costa Ocidental Africana, numa interacção secular, deixou na nossa cultura e nos seus detalhes evidenciados na nossa língua.
Do contingente europeu, embora o entendimento seja bem melhor, existem detalhes que devem ser elucidados. Por exemplo, durante séculos, a Élite foguense ( os brancos) gabava-se de ser a classe mais distinta e nobre de todo o arquipélago. Essa assunção influenciou grandemente a formação da identidade colectiva foguense. Pois, as crenças que os indivíduos e grupos têm acerca de si mesmos são armas poderosas na determinação da sua forma de ser, agir, sentir e pensar. Embora, ainda, não se tenha dado atenção a isso, um exame futuro afigura-se indispensável, pois, nada é mais importante ao indivíduo ou a um povo do que conhecer a si mesmo. Aqui, um estudo interdisciplinar da nossa língua com outras ciências ajuda a identificar a origem de certos grupos que se destinaram ao Fogo, esclarecendo, assim, algumas razoes da nossa identidade.
Se o estudo da língua ajuda a detectar os movimentos que tiveram a nossa ilha como destino, ela ajuda também a decifrar os movimentos que partiram do Fogo. Por exemplo, é corrente falar-se, hoje, de duas grandes variantes culturais em Cabo Verde - A de Sotavento e a de Barlavento. Advem disso, ainda, a tentação de se posicionar as ilhas de Santiago e de SãoVicente como as suas leais representantes. É com esse conceito que se quer apadrinhar e padronizar as variantes do crioulo falado em Cabo Verde. Mas será esse conceito correcto? Serão estas as nossas verdadeiras grandes distinções culturais? Esse conceito contradiz os factos que testemunha(ra)m a existência secular dos dois focos que moldaram e difundiram os conceitos da nossa cultura nacional- Fogo e Santiago. Embora se reconheça o peso conjuntural que as ilhas de Santiago e São Vicente vêm tendo há algumas décadas, essas contradições com a realidade podem ser superadas através do tal estudo interdisciplinar que tem como objectos a língua e outras particularidades, sobretudo as musicas, as danças, as festas tradicionais. Será um estudo enriquecedor quando aliado com o conhecimento, que se tem, do papel que a ilha do Fogo desempenhou no povoamento de algumas ilhas e na edificação de outras.
Esta atenção merecida à nossa lingua não se resume ao debravar das relacções que o Fogo teve com outros espaços exteriores. Podemos, tambem considerar as diversas variantes regionais que temos dentro da própria ilha. Não sei se nalguma outra ilha do arquipélago existe particularidades tão distintas no crioulo de umas regiões para outras como existe no Fogo. Na nossa ilha, pode-se identificar a origem de algumas pessoas pelas variantes locais do crioulo que falam. Pelo falar, facilmente se diferencia os natuirais dos três concelhos existentes e, dentro dos concelhos, ainda se pode detectar diferenças de algumas localidades para outras. Essas diferenças nunca devem ser desvalorizadas porque denunciam influências e razões que terão de ser levadas em conta, na tentativa de uma explicação global de quem nós somos.
A nossa reflexão não nos deixa ver a variante que falamos como uma variante qualquer. Por isso, não podemos aceitar de ânimo leve que algumas formas de movimentações/manifestações, partindo elas de estranhos ou de alguns patrícios, ameaçam reduzir a expressão da nossa língua e, com ela, eliminar e desperdiçar todas as riquezas nela contidas. Sabemos que não se pode desviar as línguas das dinâmicas que lhes são inerentes, mas porém, não podemos, conscientemente, posicionar-nos na fileira dos que lhe preparam o retiro para os túmulos memoriais, quais espectadores que se deleitam ou se emudecem quando importantes monumentos dão lugar as ”modernidades”. A nossa lingua é uma fiel depositaria da nossa historia e, como tal, deve ser valorizada, se tivermos o sábio intuido de revalar ao mundo e a nós mesmos quem nós somos. O trabalho deve ser feito em casa.
Categories: Artigos, Claudio Fonseca (Khacka)
