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“A pobreza oprime milhares de pessoas no mundo “ Bento XVI
O homem é, por natureza, um ser livre. Em Cabo Verde, não obstante, ele precisa empenhar-se para enfrentar e ultrapassar a pobreza, a ganância e o desconhecimento, pois estes três males têm estado a condicionar fortemente a liberdade humana.
Deste modo, ele precisa conquistar a sua independência económica, imbuir-se de valores éticos e morais e, ainda, conhecer as normas que regulam a vida na sociedade, de forma a evitar a lesão á sua liberdade, direitos e garantias. A independência económica, a aquisição dos valores, o conhecimento (saber) e o cultivo dessas normas são condições sine qua non para que ele possa desfrutar da verdadeira liberdade. Como é sabido, nesta sociedade nem todos têm autonomia financeira, cultivam valores e possuem conhecimento dos seus direitos, liberdades e garantias.
Por causa da pobreza, ganância e desconhecimento, muitos não usufruem da liberdade. Em síntese, pode concluir que estes três males constituem, por um lado, impedimentos para muitos cidadãos viverem na verdadeira liberdade e, por outro lado, constituem meios para muitos conseguirem ser e ter alguma coisa.
A liberdade é, aqui, entendida como um valor inerente e, sobretudo, inalienável ao homem. Trata-se da combinação e interacção entre as normas jurídicas, morais, éticas, sociais e religiosas e destas com a consciência sã do próproio. A consciência sã significa que o homem está em condições cognitivas de distinguir o bem, o bem comum e o mal. Tendo conhecimento da sua liberdade, o homem deve nortear e viver a vida em função de interesses comuns superiores e deve distanciar-se de tudo que privilegie o egoísmo ou interesse mesquinho do “grupinho”. Assim procedendo, de certeza, fará corresponder liberdade com as demais regras que norteiam a sociedade.
Liberdade, normas que regulam a vivência na sociedade e consciência sã constituem, por um lado, pedra basilar de um Estado de Direito Democrático e, por outro, a condição necessária para uma vivência sadia entre os homens.
Entendemos que a liberdade, moral e ética têm em comum, entre outros pilares, a transparência. Nelas não deve haver espaços para obscurantismo. Assim, num país, como nosso, onde constitucionalmente é consagrado o Estado de Direito Democrático, o governo, os partidos políticos, a sociedade civil, as instituições públicas e privadas devem trabalhar incansavelmente na edificação e manutenção de um Estado liberal, democrático, ético e moral. Os ingredientes, característicos de um Estado de Direito democrático, devem ser vividos e saboreados pelos cidadãos. Vividos e saboreados na prática e não ditos através de discursos líricos e poéticos como tem sido prática neste país.
É muito perceptível em Cabo Verde que os partidos políticos e a sociedade civil estão aquém das vivencias, das práticas, dos valores e normas que regulam ou, pelo menos, devem regular, a sociedade. Entendemos que, os partidos políticos devem assumir uma postura clara e objectiva que visa, exclusivamente, resolver os reais problemas do país e dos cabo-verdianos.
É necessário e, sobretudo, urgente para o bem do país que os partidos políticos façam coincidir os objectivos e estratégias anunciados nos meios de comunicação social com os objectivos e estratégias traçados no seio do partido evitando, o quanto possível, a manipulação da consciência daqueles que não tiveram sorte e oportunidade de cultivar o seu intelecto ou daqueles que uma determinada circunstância da vida (pobreza, por exemplo) os obriga a concordar e, sobretudo praticar algo que os inquietará pelo resto da vida. Em Cabo Verde, muitos vêem o poder como meio e não como fim. Meio para muitos serem e terem algo.
Algo que fora do quadro partidário seria quase impossível. Nesta tentativa de ser e de ter algo, dentro do quadro partidário, muitos acabam colocando de lado os valores supramencionados, a Constituição da República e as normas que regulam o Estado de Direito Democrático. Quantas famílias já foram destruídas porque o partido ou candidato teria de chegar ou manter-se no poder? Quantas famílias estão de relações cortadas porque o partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder? Quantas boas amizades já foram destruídas porque partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder? Quantos crimes comprovados já foram cometidos porque o partido ou candidato teria de manter-se ou chegar ao poder…? Preocupante é que os partidos ou candidatos beneficiados com estas práticas não têm o peso na consciência, pelo menos não o demonstram, que estão no poder devido à destruição ou tentativa de destruição de muitas famílias, de uma boa relação de amizade, de um bom nome e, consequentemente, dos valores e principios já mencionados… É muito perceptível que muitos não se incomodam com práticas erradas para chegar, manter-se ou pôr o partido/candidato no poder. Aliás, percebe-se aqui que a desonestidade, falta de carácter, imoralidade, indignidade, crime… passam a ser vistos, dentro do quadro partidário, como coisas normais. Por isso, vê-se muitos cidadãos que cultivam valores a afastar-se dos partidos políticos e, por outro lado, vê-se muitos que não foram educados dentro de um quadro de valores a aproximarem-se dos partidos políticos para conseguir ser e ter. Em síntese, os partidos políticos devem adoptar uma postura mais séria, responsável e, sobretudo uma atitude que coadune com o Estado de Direito Democrático consagrado na Lei Máxima do país.
É muito perceptível que Cabo Verde não possui, ainda, uma sociedade civil organizada, forte e consciente dos seus direitos e deveres. Temos ainda, “grosso modo”, uma sociedade que funciona a reboque dos partidos políticos e estes, por sua vez, aproveitam-se, como estratégia de silenciar os cidadãos, esta fragilidade para camuflar os críticos/activos no partido A ou B consoante o posicionamento individual de cada um.
Os cidadãos conscientes devem estar atentos às estratégias e atitudes dos partidos políticos. Devem ter a capacidade e prudência necessárias para congratular-se com tudo que é bom e que beneficie Cabo Verde e os cabo-verdianos, mas também, devem ter a mesma postura para repudiar tudo aquilo cujo fim devia ser de todos mas que é usado para o interesse meramente pessoal ou partidário.
A sociedade civil cabo-verdiana precisa organizar-se, não em função dos partidos políticos, mas em torno dos reais problemas que afectam Cabo Verde e os cabo-verdianos e, ao mesmo tempo, ser parte da solução desses problemas. É imperiosa a necessidade da criação e cultivo, em Cabo Verde, de uma consciência fora do âmbito partidário que possa contribuir para contrabalançar o sistema pernicioso, bipartidário, já montado. Esta sociedade tem de ser forte, competente e, sobretudo altruísta. Deve primar não para resolver a ganância de quem quer se eternizar no poder ou de quem quer chegar lá a todo custo. Ela deve ser prudente, inteligente, interessada para o bem comum e desinteressada em relação a tudo que vise resolver caprichos pessoais e partidários.
Entendemos, entretanto, que não será fácil ter uma sociedade civil organizada, competente, altruísta e conhecedora dos seus direitos e deveres; uma sociedade civil em que os cidadãos têm uma certa independência económica, conhecimento sistematizado e dispostos a servir Cabo Verde e os cabo-verdianos dentro de um quadro legal e imbuído dos valores já mencionados; uma sociedade que prima para labutar no intuito de resolver os reais problemas que afectam o país. Acreditamos, no entanto, que se cada cidadão individualmente, as famílias, as instituições públicas e privadas, as igrejas, as universidades… começarem a trabalhar seriamente cumprindo escrupulosamente as suas funções, tê-la-emos, de certeza. Dizia que não será fácil porque, como é sabido, vivemos numa sociedade onde impera o imediatismo, o lucro fácil, o enriquecimento rápido, o oportunismo, o parasitismo; onde tudo é quase visto como meio e não como fim; onde muitos querem ter sem trabalhar; onde muitos querem ser sem se prepararem; onde quase tudo que é errado é visto como certo.
Impera, deste modo, a necessidade do surgimento de cidadãos conscientes, corajosos e determinados a frearem ganância de alguns homens e lutar incansavelmente a favor da dignificação humana. É claro que, estes cidadãos defendidos aqui têm de ter em mente que não se trata de uma tarefa fácil, mas, entretanto, possível, mas para tal devem peregrinar um caminho espinhoso. O pensador brasileiro Milton Santos que experimentou e venceu esta caminhada afirmou que “ um homem que pensa, e que por isso mesmo frequentemente se encontra isolado no seu pensar, deve saber que os chamados obstáculos e derrotas são a única rota para as possíveis vitórias, porque as ideias, quando genuínas, unicamente triunfam após um caminho espinhoso”. Entendemos que, o cidadão cabo-verdiano precisa interiorizar e praticar essa experiência desse pensador a bem de um Cabo Verde de todos e para todos.
Caminhamos para o ano das eleições em Cabo Verde: que vença o candidato/partido que a maioria escolher num quadro da verdadeira democracia e não o imposto à maioria pela fraude ou pela manipulação e compra de consciência! Motivados pelo futuro, estamos aqui.
Cidade de São Filipe, Janeiro de 2010
Alberto Nunes
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