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Escrevo porque gosto de escrever. Gosto, tambem de ler. Falando de escrever, faço-o, porém, sobre os mais variados temas e assuntos, sem pretender dissecá-los: Ser o senhor da verdade e/ou ter a última palavra... Nunca!... Tanto mais que o faço para divertir, ocupar os meus (escassos) tempos livres. E, divertindo,procuro ser útil, criticando (...) vertudes e difeitos do Homem do nosso planeta. Ensaio poesias, em linguas Caboverdiana, Portuguesa e também em Inglesa. Escrevo peças de teatro, contos... sem me importar com as minhas limitações filologicas. Alguns, apesar de uma relativa falta de confiança em mim mesmo, já foram publicados sob os pseudónomos “Joy Kardosu, RemoMenCar e R. Kardozu. A maioria conserva-se inédita...
Desta feita, hoje vou me ocupar de um “pequeno” acidente de trânsito, de que fui vítima. Da queda erigida em trambolhão. E do comportamento de alguns dos meus “amigos” face a esse “trágico” acontecimento, para não chamá-lo de tragicomedia, a qual virou.
A ocorrência registou-se, em 1984. Às 14:00, da endiabrada tarde do dia 2 de Março. Regressava de Sanfilipe, após o cumprimento da missão que me fora incumbida. Não vou inventar palavras para drarnatizar e colorir essa realidade. Porque, nisso não pode haver lugar para romantismo, nem para poesias. Pelo contrário, vou procurar ser o mais fiel que possa, nem que tenha que vasculhar o dicionário, para pineirar as palavras que me permitam construir as frases que ilucidarn e transmitem a todos, a sensação que tive tanto no momento do impacto... como, também, após do tal pesadelo...
Encabritava uma motorizada, do estilo Cross, marca Suzuki, com 100cc de potência e por azar, novinha em folha. Desnecessário se torna comentar a sua ligeireza, onde 35 milhas por hora, nas nossas estradas, dão a impressão e/ou correspondem a 100 milhas nos auto-estradas. Fui aconselhado nesse dia por um mecânico amigo, que não a acelerasse a fundo, porquanto não andar pelo menos 1500 kilometros. 0 limite da rodagem, como lhe chamava. Havia andado apenas 761 km. E eu tinha j urado a mim mesmo, conservá-la intacta, pelo menos 10 anos a contar da data...
Arranquei de Sanfilipe. Era meio dia em pino. Ia para os Mosteiros que dista da Cidade a 45 km. Contentíssimo, porque, com a moto que me fora distribuido, jamais haveria para mim o castigo de me levantar as tantas de madrugada (mesmo antes do arriscar do “terral”, para apanhar o transporte para a Cidade... 50 a 60 km no máximo, fora a velocidade que marcava no “meu” velocimetro.Não obstante, perigrinava para a zona mais distante do Centro.
A estrutura rodoviaria revelava-se, primitivamente, dificiente. A sinuosidade, aliada ao descalcetamento aquí e acolá da estrada (e outros), permeavam ainda mais o perigo. Como dizem: andava-se com a acre na boca a desconjurar...porque, há sítio que um segundo de desatenção, poderia custar a vida. E essa sensação obrigava-me a reduzir a marcha e em contrapartida multiplicava a minha prudencia. Reluzia e contra-balançava na minha mente todos os sinais e conselhos do trânsito, portanto, o código das estradas. A prudência é a que assimilava. A responsabilidade e consequência que podiam resultar do meu descuido, pendiam na balança da minha consciência. Como quem ressentisse o pior e apesar disso... bem que dizem que todo o cuidado é pouco.
A super-preocupação é a melhor receita neste planeta de preço e de pressa...
Aguardando a uma certa distância de um carro que ultrapassei, topei com um camião de marca IFA, que em sentido oposto se deslizava na estrada a toda a brida. Fora de mão. Fez-me enconstar à berma da estrada, correndo o risco de um desastre fatal que, por cúmulo de sorte não se consumou. Parei indignado e rabioso. Olhei com assombro para ele até o monstro dobrar uma esquina e desaparecer na primeira curva, sem ao menos , por delicadeza parar para me pedir desculpa. Falando para os meus botões, certifiquei-me, em suma, de que não há mais respeito no mundo, à vida e à humanidade... Que utilidade teria o código das estradas sem a consciência e a responsabilidade assumidas pelos nossos condutores? Cada um por si... é a palavra de ordem que orienta o nosso século, para não lhe classificarmos de super-egoísmo.
Prosseguindo, parei na Tinteira para dar um recado e refazer um pouco da repugnância que ainda assolava o meu espírito. Da aversão e susto causados por aquele desrespeito e ma educação daquele condutor.
0 carro que me seguia, me abeirava, lentamente. Vi-o no meu retrovisor (coisa que faço, habitualmente, a cada 7 segundos... E a cada curva businava, por precaução, como forma de alertar aos outros...
Vi além, um Volkswagem. E na rodovia, nenhum vivalma... Transeuntes. Abrandei a marcha, sem saber porqué. Dei uma olhadela ao meu retrovisor, e... quando ia cruzar uma lomba ( num “flash”, “crash” e estrondo), colidí com um Nissan (Pick-up) - carrinha de caixa aberta e antes que abrisse a boca ,num ápice já me rolava no chão. Eram quase duas horas da tarde.Ultra-velocjdade? Ou queriam intencionalmente, dar cabo de mim e da minha moto nova em folha? Foi o que me passou pela cabeça. O condutor do pick-up que, era o seu próprio dono, julgou-me morto, pois o impacto foi tão repentino e forte que ao me verem de pé, tão vivo como eles, ficaram de boca-aberta. 0 condutor comportou-se “humanamente” comigo. Só que me sentenciou logo... a cadeira eléctrica. Tamanho foi a minha desilusão e desgosto que, até cheguei a pensar que a minha morte resultaria menos do que a sua sentença. Isso por razões que não me convém descartar. A minha pequena distração e a velocidade com que ele conduzia um passageiro ao aeroporto, para não perder o avião das três é o preço desse “trágico” acidente...
Por cúmulo de azar e também, de sorte (repito), apanhei uma queda levantando ileso.Na minha moto nem houve um “scrátch” na pintura. Não sendo menor “bend” no volante e pousa-pé, a perda da manete de “embriagern” e um pequeno estalo na caixa do motor. Mais nada. Custa engolir isso, mas é pura verdade. Pingo de sangue nenhum escorrera do meu corpo. Pequenas arranhaduras nos braços e nos joelhos, resultantes do rolar do meu corpo contra as calçadas, numa distância de 16 metros do impacto.E eu a 8 metros, um pouco menos de 25 centímetros da orela de uma ponte... Contra 33 metros, em que ele conseguiu finalmente, parar... Lamentamos juntos. Muito. Deixei sem respostas as suas precipitadas acusações. Evitava, todavia, mais complicações que só ia contribuir sobremaneira, para aumentar o meu nojo… A consciência me não acusava, porquanto acreditava que a razão estava do meu lado. Mas, o veridito me não competia...
As informações do acidente veinculavam... As tortas e às direitas. Tanto os veiculos que iam para os Mosteiros, como os que iam para a cidade, paravam para dar fé e tomar “jazigo” para puderem passar, fizeram uma cerrada propaganda do acontecirmento. Disseram que eu tinha ficado mal e a motorizada, sem qualquer remissão. E o carro? Sofreu mais por acaso. A luz esquerda, o “ fender” a porta, o retrovisor, enfim, o lado esquerdo do veiculo, ficou seriamente danificado. Deu que falar e... Em resumo, a novidade causava calafrio. Eu tinha partido a bacia (só que não mencionaram o lavatório) e me encontrava gravíssimo e que a minha vida corria sérios riscos... Duvidavam que eu ia escapar… E para alguns dos meus “amigos” foi motivo de grande alvíssara. Como se eu tivesse ganho a lotaria. Tanto mais que telefonavam uns aos outros e de tanto eram os telefonemas que se podia considerar, a tolerança do ponto. Mas, eu que mal nenhum tenho feito a ninguém? A minha basofaria tinha acabado, porque não armo na motorizada nova.
Julguei que eu tinha um coração nobre. Porque tudo que até a data fiz foi ajudar aos outros, dar sempre o máximo de mim mesmo - mesmo quando não posso - à causa daqueles que de ajuda necessitam. Bem que dizem que o povo é mau e eu tenho razão de sobra para corroborar. Especularam-se tanto, que chegaram a dizer que o acidente foi premiditado. Ou então, tinha quer ser um tipo “patiado”. Levado ao diabo. E qual, afinal seria o desejo deles? Não é preciso ser sábio para advinhar.
A policia fez o levantamento do local, cumpriu as demais formalidades que lhe competia... Cabera portanto ao Tribunal pronunciar o veridicto. Até lá há quem reza para que a culpa me seja atribuida.
Quando o crepúsculo merguthava a charneca na penumbra, cada rato acudiu-se ao seu buraco, deixando o local mergulhado num verdadeiro ermo. Antes do raiar do sol, as informações já se encontravam na Capital do País... tão diformadas, como a própria mentalidade dos seus veinculadores. E durante algum tempo, esse incidente foi o filme do dia. Contavam-no com tanta piada, como se fosse eu o inventor do acidente.
Pretendendo continuar a ser um condutor supra-exemplar, ou seja prudentíssimo, antes de terminar queria deixar aqui expressa uma palavra de amizade para os propagandistas do meu acidente: Que conservem bem nas suas raizes, porque não sou a primeira e nem serei a dirradeira vítima. E por esse motivo continuo escrevendo.
Pos- escrito:A minha mãe que nessa data tinha 67 anos de idade, ao tomar conhecimento do acidente,saiu do Pico à boca da noite e madrugou-se nos Mosteiros. Ante o espanto dela, nesse dia,eu fui presidir uma conferência da juventude.
Dias depois me intimaram para responder no Tribunal. Passei maus bocados, pois nunca pensara que rivalidade amorosa podesse influenciar investigações sérias e podesse por em causa a reputação de um indivíduo que gozava sobremaneira de relevante simpatia do povo. Recorrí a outras instâncias, apresentei factos que comprometiam as investigações e o levantamento físico do local do acidente e como não tinham outro remédio, deram-me a razão e foi assim, que tudo ficou estória. Pouco tempo depois saí do País...
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