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Mem?rias

Posted by Manduco on November 26, 2009 at 4:19 AM

Eliezer Monteiro


Quando criança, eu passava as férias de verão inteiras em Chã, na casa de meu pai, junto dos meus primos, irmãos, tios, amigos. Era uma enorme ansiedade na hora de ir, Vai menino que ainda perdes esse carro. Tinha razão quem me deu a bronca, havia poucos carros que faziam o transporte e sempre iam cheios, muito cheios. Quando, espremido por entre aspessoas, caixas de peixe, móveis e o tudo o mais que se podia transportar, pensava que, Aqui não cabe nem mais uma agulha, aparecia sempre um passageiro com um cabra ou um bode fedido, que sempre ficava a meu lado, Muito obrigado.


A saída era ao lado do mercado, sempre, por volta da uma hora com o sol já derretendo a ansiedade que alguns trouxeram de conhecer a cidade, passear no prisídio, comprar nomercado, Vamos embora condutor, Pelo amor de Deus, Vamos, e fomos.


Até Brandon a viagem não tinha muitas surpresas, a paisagem era a mesma, cor depoeira, amarga, povoada por alguns magros exemplares de cabras, comendo pedras, como aprenderam, para não perecerem.

A partir daí melhorava um pouco. Em Patim tinha sempre um bêbado para alegrar o povo que abarrotava o carro. Depois que todos riram tentei, sem êxito, saber o que se passara. Não consegui me mexer, de tão amassado que estava. Mal sabia que um passageiro menos cheiroso havia de ficar a meu lado, daqui a pouco e pelo resto da viagem.


Daqui a pouco chegamos a Txada furna, Cabeça fundon onde alguem sempre dava um queijo fresco de leite de cabra, Um pedaço para cada um, Dá um pedacinho para o menino lá no fundo, Coitado, estátodo amassado.


O carro entrou, por fim, na caldeira amada, e eu desci. Os próximos trinta minutos de viagem seriam a pé, carregando o saco com as roupas, poucas, diga-se para conhecimento de todos, os doces para as crianças, a erva para minha avó fumar o canhoto e a bola para jogarmos no final do dia. Sempre alguém vinha a meu encontro, meus primos e os primos de meus primos, querendo saber das novidades da cidade, dos doces, sejamos sinceros. Dos doces anos de minha infância tenho eu enormes saudades.


No primeiro dia tinha muitos privilégios, quase nenhuma obrigação. Jantamos djagacida ku leti e fomos todos dormir, juntos, no colchão de capa de milho esticado no chão da sala, embalados pelas histórias de outros reinos contados pelos mais velhos.


De manhã todos são acordados pela avó, Acordem que o sol já vai alto, todos tomam o café e saem para a lida, os meninos para cuidar dos animais e as meninas para catar feijão, lenha e cuidar da casa.


Depoisdo almoço brincávamos um pouco de carrinho de lata e boneca de pano e depois íamos buscar água para os animais, Eles também são filhos de Deus, como diziam os mais velhos.


A rotina da tarde era igual ao da manhã de hoje e o da noite era igual ao da noite de ontem, a não ser pelo jantar, que hoje é papa ku leti, não djagacida, O cardápio é variado, como se vê.


Os três meses se passavam rapidamente e, antes que me atentasse a isso, era hora de voltar para a cidade, no mesmo carro, com as mesmas pessoas me amassando, não com o mesmo bode fedido, mas com um leitão igualmente fedorento a meu lado, Muito obrigado.


 

Aquele abraço.

Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro


Categories: Artigos, Eliezer Monteiro

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6 Comments

Reply JOAO TAVARES
08:16 AM on December 10, 2009 
Meu caro Amigo,
As tua memórias espelham a minha infância e fazem brotar a mais seca saudade no meu peito!
Um abraço do teu sempre amigo,
João Brandão
Reply Joao Jose
11:20 PM on December 05, 2009 
Inda tem mas recordacao di bu ka fra. Lembra di kel dia ki bu ba djuga na mar ki bu sapa baxu dedon i ki kantu bu bem casa noti bu ba logo interna ruba casa pa mae ka manda boka. I kantu un resolve na bem fra mae ma bu tene dedo sapadu, de repente pai txiga ku kel teknika di medicina tradicional pa pobu acucra fino pa cola kel dedo ki staba ta cuazi ta kai. Parcem ma e del di kel bes ki bu panha gosto pa medicina?! Dam es resposta pmd nsta speral
Reply Joao Jose
11:15 PM on December 05, 2009 
Lembra di screbe argum artigo sobre kes rezas ki nhos ta fazeba na casa bo ku mae ku kesotos minis. Um certo dia ma bu teneba priguica di raza i bu ba deta mas cedo. Kantu bu deta bu faze kel calculo logo cedo pa mae ka dabu kel corta costa ki e bom na el bu ba na ka TORRADU panha padaz di madera bu ba faze CRUZ pa bu po ruba cama pa bu ka SONHA FEDE dia ki bu teneba priguica di raza.
Reply Joao Jose
11:06 PM on December 05, 2009 
ok gaston. nhso tene grandi memoria, nka sabe e kantu GB? Mas nta pensa ki es ka tene virus pmd nho sta lembra di kuze ki nem mi ki te ki bu ta saiba ki casa pa ba txan nta ficaba triste na casa mi mi so.
Reply madueno
07:08 AM on November 27, 2009 
Pois é mister Eliezer troxe dessa vez um texto brilhante a qual me fez voltar ao meu tempo
também a qual passamos por um percurso cuase identico e que nos faz hoje sentir muitas saudades
e a qual memorias é para isso mesmo que serve e certamente preenche-nos muitas vezes o vazio que
sentimos por estar longe da familia e longe do que um dia fizemos e que hoje estamos condicionados
a fazer ,mas a tua memoria nos faz sentir que é hoje .obrigado mister e muita força ai meu.
Reply Betinho
12:09 PM on November 26, 2009 
Caro Eliezer, essa sua ausencia por algum tempo, devia ser por um motivo muito forte pensava eu nestes ultimos dias, pois senti saudades dos teus textos de memoria e penso ter sido um profeta. Este texto justifica essa ausencia. Vejo sempre teus textos com um grande valor historico. Muita forca. Continue! Alberto Nunes