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Apresentação do Livro “Testemunho de um Combatente” da autoria do Arquitecto, Gestor de Empresa e Combatente da Liberdade da Pátria - Pedro Rolando dos Reis Martins
Data: 29 de Outubro de 2009
Horas 16 H
Local: Mosteiros – Salão Nobre da Câmara Municipal
São Filipe Data: 30 Outubro de 2009
Horas 16H
Local: Centro Cultural Francês H. Montrond
Apresentador: Professor Alberto Nunes
Esboço de Apresentação
Não tenho por hábito hierarquizar pessoas e assim começaria por saudar com uma Boa Tarde
Ilustres convidados
Por ser um cidadão ligado à história, o combatente da liberdade da pátria, Pedro Rolando dos Reis Martins entendeu, por bem, formular-me o convite para aqui estar na qualidade do apresentador da 3ª edição do livro “Testemunho de um Combatente”. Sem hesitar, respondi positivamente o pedido, apesar do meu escasso tempo nestes últimos meses. Todavia, essa atitude para com a minha humilde pessoa é gratificante. Pois, este convite é, para mim, um privilégio e, ao mesmo tempo, responsabilidade: privilégio por estar aqui como apresentador e responsabilidade por ter de descortinar as escritas, as ideias e o pensamento de um grande homem tão bem experimentado na vida e na história. Mas afinal, que tipo de cidadão seria eu se tivesse que fugir do meu dever de cidadania? Ao Pedro, sou-lhe grato e aproveito o ensejo para lhe agradecer por esta oportunidade.
A história é uma ciência ingrata e selectiva por natureza. Ingrata, porque ela não se repete. Por este facto deixa-nos, muitas vezes, com vontade/prazer de rever, reviver e provar determinados acontecimentos; Selectiva, porque, muitos acontecimentos importantes ficam por conhecer e explicar. Pois, não é possível dar conta de tudo que se passa na sociedade. Afinal, o historiador é um homem com as suas limitações humanas. Ele não é um Deus. Não é omnisciente e nem tão-pouco omnipresente. Apesar disso, a história é uma ciência importante e, sobretudo fascinante, pois, leva-nos a estabelecer conexões entre os acontecimentos do passado e do presente para, consequentemente, agirmos em função da realidade.
Corroborando com as ideias dos historiadores Henri Marrou e Adam Shaff acerca da história, realidade e verdade, devo dizer que só ela pode libertar o homem de todas as incongruências e escravidão da sociedade. Esta, por sua vez, precisa conhecer com exactidão os factos que já se passaram e, sobretudo, estabelecer conexões entre esses factos passados com os do presente para poder adoptar uma postura crítica e imparcial em relação ao futuro.
A história é feita de vitórias e derrotas. Ela é marcada sempre, como diz o pensador Karl Marx por confrontos que envolvem forças antagónicas - dialéctica. Na história, houve sempre um vencido e um vencedor. Todavia, poucos são os que se assumem como vencidos. Esses conceitos foram, muitas vezes confundidos na história, pois, são duas realidades distintas. São conceitos antagónicos e que precisam de ser analisados com calma, seriedade e, sobretudo honestidade intelectual.
Este pequeno preâmbulo serve perfeitamente para contextualizar o livro, Testemunho de um Combatente, da autoria de Pedro Rolando dos Reis Martins, um dos Combatentes da Liberdade da Pátria em Cabo Verde. Pois, este livro enraizou-se dentro de um contexto antagónico de história que envolve vencido e vencedor. O contexto é o do sistema colonial português em Cabo Verde que envolve os colonizadores portugueses e colonizados cabo-verdianos. A essência do livro está no sistema colonial português e num grupo de jovens cabo-verdianos que liderava com determinação, coragem, entusiasmo, fé, esperança e fidelidade um movimento clandestino no interior da ilha de Santiago em prol da Luta de Libertação Nacional. Esses jovens amigos, simpatizantes e militantes do PAIGC em Cabo Verde tinham um objectivo claro e definido que era o de libertar a pátria cabo-verdiana da sua metrópole portuguesa, pondo, assim, o fim dos abusos, das injustiças e represálias em Cabo Verde. Para atingir esse objectivo, tinham, também, claramente, em mente os riscos que iriam correr dentro de um sistema tão perigoso e, sobretudo opressor. Apesar desse risco tão grande consideravam a causa justa para uma luta digna, independentemente do que acontecesse. Esses jovens contavam com apoio de muitas instituições como também de algumas individualidades. Entretanto, tiveram também de enfrentar para além dos homens afectos ao sistema colonial, muitos outros cabo-verdianos que eram contra a ideia de libertação nacional.
Foi no limiar dos anos sessenta e início dos anos setenta que esse grupo de jovens, na maioria de Santa Catarina, ilha de Santiago, ligados ao PAIGC, promoveram acções fortes contra o sistema colonial e contra o regime de Salazar/ Marcelo Caetano. As acções desencadeadas contribuíram para a detenção de dezenas de jovens na cadeia civil da Praia e, posteriormente, no Campo de Concentração do Tarrafal. Os agentes do sistema colonial prenderam-nos e encarceram-nos sem julgamento. Usaram métodos arcaicos e contra a condição humana para fazê-los confessar os seus envolvimentos na luta clandestina. Os jovens foram submetidos à tortura e humilhação. Trata-se de uma história chocante e emocionante. Confesso-vos que tive de interromper as leituras várias vezes para enxugar as lágrimas que caiam no meu rosto, ao ler certas passagens. Em nome da convicção, determinação, coragem e de um ideal nobre e altruísta muitos desses jovens, entre os quais Pedro Rolando dos Reis Martins, sacrificaram uma parte d sua vida. Numa conversa informal entre Pedro Martins, minha esposa e eu, o Pedro disse-nos o seguinte: “só quem tem valor reconhece o valor nos outros”. Lendo com muita atenção o seu livro pude perceber que os colonizadores não reconheceram o valor desses jovens durante todo o processo da luta na clandestinidade. Caso normal para nós ligados diariamente à ciência histórica. Afinal, Jesus Cristo, o Justo, não foi condenado injustamente, torturado até a morte pelos malfeitores? E depois da morte mais cruel da história um dos assassinos confessou: “ esse Homem era realmente Justo”. Caso semelhante aconteceu com os presos políticos no Campo de concentração do Tarrafal e o Director Dadinho Fontes. Nas derradeiras horas dos presos políticos no Tarrafal, Dadinho Fontes aproximou-se dos presos e até se sentou no leito onde os presos dormiam e num jeito de desculpa disse-lhes que cumpria um dever profissional. A história foi, é e será marcada dessa maneira.
Vejo este livro como um documento com alto valor histórico, pois foi escrito por um autor que é também sujeito envolvido na história relatada e, ao mesmo tempo, testemunho ocular de todos os factos nele relatados. Nesta perspectiva a importância do livro transcende o campo da história e poderá servir não só os historiadores como também outros estudiosos dos problemas políticos e sociais ligados à Luta de Libertação Nacional.
A história contida no livro retrata, por um lado, a vida do autor como cidadão activo, como militante do PAIGC e, sobretudo como um verdadeiro Combatente da Liberdade da Pátria; por outro lado retrata uma parcela, seleccionada, do processo histórico da Luta de Libertação Nacional. Pois, se bem entendi o propósito do autor, ele não queria com o livro relatar ou analisar todos os acontecimentos relacionados com a luta de libertação Nacional.
Os factos/realidades narrados por Pedro Martins neste seu valioso livro, evidenciam com nitidez o processo dialéctico na parte introdutória desta minha apresentação acerca do vencido e o vencedor. Esses factos eminentemente históricos surgidos dentro do contexto colonial opunham duas realidades diferentes: O sistema colonial português montado nas colónias portuguesas em África durante cinco séculos e um grupo de jovens revolucionários, emergente. No contexto colonial os colonizadores foram sempre vitoriosos e acreditavam que usando as armas do medo, intimidação, tortura, perseguição poderiam manter o sistema por tempo indefinido. Neste contexto, os colonizados tinham duas alternativas: primeira - compactuar com ele, baixando a cabeça e acreditar que não era possível uma mudança, mesmo tendo a plena consciência de que se tratava de um sistema arcaico, retrógrado e que promovia o abuso, a exploração e que usurpava a liberdade e os direitos dos cidadãos; Segunda, demarcar-se dele e esperar seus efeitos nefastos por alguns tempos e, ao mesmo tempo, abrir o caminho à fundação de uma sociedade livre e democrática fundamentada no respeito pelos direitos do homem. Pedro Martins e muitos outros colegas combatentes optaram pela segunda alternativa e pagaram tudo que tinam pela liberdade da pátria inclusive com o próprio corpo. Uma atitude corajosa e altruísta. No quadro colonial, ninguém, mas ninguém mesmo convenceria os colonizadores que o sistema montado por eles se tratava de um sistema injusto, retrógrado e arcaico, baseado na exploração que abusava dos autóctones; sistema que transformava os autóctones em estrangeiros na sua própria terra; um sistema de natureza repressiva etc. Entretanto, independentemente da natureza repressiva dos castigos levados a cabo pelos seus agentes, os colonizadores estavam convictos de que aquele sistema, seria o caminho certo e viável que os colonizados teriam de seguir. Por outro lado, havia os colonizados, filhos da terra que queriam traçar os seus próprios caminhos e caminho de uma Nação conduzida por filhos da terra, livre de todos os tipos de perseguição, abuso e injustiça. Convém, realçar que esta luta da conquista de uma nação livre, democrática conduzida pelos filhos da terra é uma luta histórica e precedeu e muito aos revolucionários dos anos cinquenta e sessenta. No entanto, devo realçar que a acção desses homens dos anos cinquenta, sessenta e setenta foi determinante na conquista da liberdade da pátria e na fundação do Estado Nacional. A Pátria Cabo-verdiana passou a ser livre da nação portuguesa a cinco de Julho de 1975 graças ao esforço abnegado de muitos cidadãos, graças ao derramamento de sangue e de perda de vida de muitos Cabo-Verdianos e Guineenses.
Em todo esse processo heróico e histórico o PAIGC teve um papel proeminente e determinante. Pelo facto de ter conduzido, com sucesso, um processo heróico e histórico entendo que é justo reconhecê-lo como partido heróico e histórico, pois, deu contributo indelével à sociedade cabo-verdiana. Alertei, aos leitores, há pouco que o propósito do autor não era o de esgotar o assunto da luta de libertação neste livro, pois, muitos factos ficaram por narrar e explicar, muitos intervenientes no processo de luta de libertação nacional não foram mencionados etc. Tudo isso tem a ver com aquilo que disse no preâmbulo e prende-se com a questão da natureza selectiva da ciência histórica.
Reconheceu que o PAIGC fez um trabalho abnegado em prol da independência nacional. Tentou, através de luta política para conseguir a liberdade da pátria e percebeu que frente às autoridades coloniais não era possível, resolveu partir para a luta armada. O PAIGC chegou à independência nacional com uma luta bem sucedida, apesar de muito sangue derramado e perda de muitos combatentes, inclusive do seu líder histórico Amílcar Cabral a 20 de Janeiro de 73 em Guiné Conacry.
O autor reconheceu, no seu livro, todo esse trabalho empreendido pelos combatentes da liberdade da pátria dentro do quadro do PAIGC, como também, reconheceu o trabalho levado a cabo pela UPICV liderada por José Leitão da Graça, homem que segundo Pedro Martins é “íntegro e consequente, mas nunca teve a oportunidade de desempenhar qualquer cargo de importância ao nível da sua estatura, pois viu-se marginalizado no seu próprio país, pelo qual se bateu toda a vida”. Este exemplo e muitos outros que foram dados pelo autor e muitos outros que se verificaram e se verificam hoje na sociedade cabo-verdiana, mostram até que ponto a essência ideológica do PAIGC sofreu alteração nas vésperas da independência e, no pós 25 de Abril. Nesta lógica o autor do livro “Testemunho de um Combatente” chama a atenção de “que chegou o momento de um grande debate genuinamente democrático para uma reorganização objectiva da vida política do país nos moldes da democracia moderna, a fim de se evitar o que a história dos nossos dias tem provado como sendo negativo e ultrapassado, o monopólio do poder por uma facção que se julga a única capaz de governar”. Urge a necessidade dos novos dirigentes do PAIGC, hoje PAICV voltarem às fontes de origem para resgatar os valores, os programas que nortearam a fundação deste magnífico partido.
Para finalizar devo dizer que se trata de um livro pedagógico, frontal e muito fascinante, aborda um tema aparentemente bem conhecido e estudado, mas que no entanto, gera controversas no seio da nossa sociedade. O combatente Pedro Martins já deu o seu duplo contributo: Primeiro com o seu próprio corpo que hoje serve como fonte histórica que nos ajuda a compreender melhor o sistema repressivo do Governo colonial português no limiar do seu ciclo em Cabo Verde; o segundo, com este magnífico e valioso livro que nos ajudará, certamente, na compreensão daquilo que foi esse mesmo sistema implantado em Cabo Verde desde o século XV e que perdurou contra a vontade da maioria da população durante cinco séculos.
Ao Combatente Pedro Martins o meu muito obrigado e permita-me usar as palavras do saudoso Mário Fonseca pela” coragem, determinação, entusiasmo, fé, esperança e fidelidade” que teve em prol de um Cabo Verde Livre e Democrático. O futuro poderá ser melhor que o presente. Sonho/utopia necessária, parafraseando um outro combatente, Corsino Tolentino.
Uma obra recomendada aos Jovens e sobretudo estudantes.
Uma boa leitura a todos
&
Muito Obrigado
Alberto Nunes
Categories: Artigos, Alberto Nunes
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