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Vivemos num mundo onde os meios tradicionais de comunicação se aliam às novas possibilidades que internet traz para exercerem um poder cada vez mais determinante na educação e formação. No sentido contrario, a escola e a família vão-se experimentando algumas limitações das suas influencias. Estamos perante um mundo globalizado, onde os fundamentos das identidades nacionais e locais se sujeitam a esses poderes cada vez mais autoritários.
Assim, a simbiose cultural é cada vez mais intensa. No entanto, os povos e culturas com fraco domínio dos instrumentos de promoção e divulgação cultural, sofrem uma intensa e constante aculturação por parte dos que dominam estes mesmos meios e instrumentos. Essa simbiose não enriquece porque não há uma troca de valores e experiências, mas sim, uma imposição lenta e profunda com danos na cultura que recebe.
Nesse sufoco, os jovens das culturas sujeitas a essas influencias constantes vivem e vão-se formando em meio de confusões e de desvios à sua própria identidade, o que acaba por prejudicar a sua afirmação e adaptabilidade às diversidades do mundo. Quando a juventude não se reconhece, as dificuldades são maiores para o sucesso, e o futuro do povo ganha, assim, mais uma ameaça.
Infelizmente, a nossa amada ilha do Fogo nao conseguiu, atraves do tempo, munir-se de instrumentos capazes de lhe permitir uma difusao intensa dos seus/nossos valores culturais, situando-se, desta forma, no grupo dos povos deficitarios no caso de intercambios culturais, não só no conceito universal, como também no nacional. Importa-nos, agora, ver essa relacção do Fogo no contexto nacional.
O Fogo é, seguramente como Santiago, o berço da caboverdianidade. A nossa ilha foi, como a ilha irmã, o espaço da fecundação e da gênese dos primeiros traços da caboverdianidade, da cultura e da raça crioula. Essas duas ilhas foram então, os dois focos de difusão da identidade crioula por séculos, num período em que, devido à insularidade do território e a exigüidade dos meios de comunicação, os contactos inter-ilhas eram bastante limitados. Do Fogo e de Santiago, as duas primeiras ilhas sistematicamente povoadas, se propagou durante séculos aspectos culturais importantes que se substanciam nos conceitos de "badio" e "sampadjudo".
Mas hoje, ao contrario do que vigorou por séculos, as tecnologias e os meios de comunicação vem provocando revoluções e invertendo esse movimento secular. O Fogo, como os povos que não tem esses meios e instrumentos de divulgação, vem sofrendo em agonia nessa simbiose do contexto actual. Neste momento, a ilha não consegue dar o contributo que lhe cabe no reforço da caboverdianidade. Os jovens começam a estar perdidos e confusos, aceitando outros valores como modelos e matrizes culturais. Esta Assumpção leva geralmente a uma avaliação negativa da riqueza patrimonial que nós temos. Nesta condição, o jovem não se valoriza porque vive envolto em preconceitos que passivamente ajudou a criar em si mesmo; o povo não enriquece porque se sente menos valorizado e capaz do que o povo que tem como modelo. Desfavorece-se, deste modo, a nossa condição de partida às aspirações individuais e colectivas que legitimamente estão apontadas no nosso futuro.
A solução passa por incidir melhor na educação cultural da nossa juventude, tentando dominar melhor o que nos tem escapado, mas principalmente usar eficientemente os vários meios que ainda dispomos. Quando chegar os momentos de promoção, devera ser prioritario dar vida à riqueza que temos e libertar a parte da nossa identidade que nós mesmos encarceramos. Se fizermos isso, poremos ao nosso dispor uma diversidade de apetrechos importantes para o alcance das nossas aspirações, ao mesmo tempo em que contribuiremos, como nos e devido, para o enrequecimento da caboverdianidade com valores que a nossa apatia, por décadas, tem sonegado.
É necessário reconhecer que, ainda, o nosso caso precisa, umbilicalmente, dos poderes públicos instituídos para a realizacao dos primeiros passos. Que toda e qualquer voz seja escutada para juntos sermos capazes de identificar e eliminar alguns gumes de orgulho que possam ter esterilizado essa possibilidade como prova de que evoluímos com o tempo e com as nossas experiências.
Categories: Artigos, Claudio Fonseca (Khacka)
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