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Nos primórdios do povoamento das ilhas, quando os padres eram poucos e insuficientes para atender a todas as comunidades, por ocasiões festivas, sobretudo durante a quadra natalícia ou do(a) padroeiro(a) da freguesia, tornou-se prática destacar-se o sacristão, acompanhado de um ou mais ajudantes para fazer o périplo pela área de influência, distribuindo graças, rezando o terço e recolhendo donativos para a Igreja. Tal é a génese dos “Rênado” (Reis Magos ou Rei Nado?) que com o tempo, cristalizaram um périplo por toda ilha do Fogo, com início no Dia de Reis (6 de Janeiro) e final na Quarta-Feira de Cinzas. Percorrendo todas as localidades do interior da ilha bem como a de São Filipe, em parelha ou grupos de três/quatro elementos, um carregando a imagem coberta da Virgem e do Menino, outro um tamborim e um terceiro uma sineta, visitam e abençoam casas, rezam o terço e desfiam ladainhas seculares, entremeadas de latim e crioulo antigo enquanto recebem donativos diversos, na maioria das vezes em géneros alimentício, sinais de reconhecimento e de fé da parte daqueles que lhes abrem as portas.
Findo este tempo, o “rênado”, não cessa porém a sua actividade, sobretudo na área onde reside: reza o terço por ocasiões de luto, é figura obrigatória nas festas de romaria ou de devoção familiar, sempre bem acolhido e respeitado.
Dos meus tempos de criança, guardo a lembrança querida do “rênado” Pedro da Cruz, “Pedro Nacha”, vindo lá de Bernardo Gomes que sempre chegava a nossa casa com o seu séquito nas primeiras horas do dia: minha avó, Inês, ajoelhava-se diante da imagem, carregada por Pedro, aonde ficava por minutos rezando enquanto se ouvia a bela voz grave do “rênado” desfiando a saga de Cristo menino desde a Anunciação até a Crucificação onde “cada passo, cada légua/ um pingo e um pingo de sangue”…
Restam hoje, apenas alguns velhos “rênado”. Infelizmente, nem as autoridades e instituições que pomposamente nesta ilha e neste país tem a responsabilidade e se arrogam do direito, por vezes com arrogante exclusividade, de defenderem a cultura parecem interessadas no seu estudo e na sua preservação. A Igreja tão-pouco lhes presta alguma atenção. Assim pouco anos restam para que, levados pela inexorável Parca, os poucos que ainda hoje subsistem cessem de vez a sua actividade e se perca irremediavelmente um importante valor cultural. Restam apenas a memória, a devoção e o reconhecimento das gentes simples do povo que de portas abertas os acolhe na esperança de dias melhores pela bênção de Cristo/Menino.
Presto aqui uma singela homenagem a estes homens simples da cultura popular. Através das imagens de Nhô Tchina e Alberto de Curral d’Ochô, recolhidas, no ano passado, durante a festa de Nossa Senhora do Socorro em Morato, um abraço a Arturzinho dos Mosteiros e toda a solidariedade do mundo para com Nhô Raul d’Adelaida, hoje entrevado pela doença em cima de uma pobre cama e esquecido por toda a gente…
Categories: Artigos, Fausto do Rosario
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