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CARREDINHA, A MINHA ALDEIA (VII)

Posted by Remoaldo Cardoso on March 27, 2011 at 9:30 AM

Carredinha e fe. Minha,diria! E, tambem, todo o mundo que ali viveu e deixou estoria. E que tem estoria dela para contar. Ha txeu…

 

A Carredinha que a Nene conhece, se existisse agora, era uma aldeia nova, com apenas cento e poucos anos de vida. Nene, de nome completo, Mary Cardoso Mendes, sobrinha do meu avo, Fabiao Mendes Cardoso, nasceu em Wareham, Massachusetts, Estados Unidos da America, a 7 de Fevereiro de 1911. Filha de pais Caboverdeanos, visitou a familia no arquipelago com sua mae, em 1916, com apenas cinco anos de idade. Ela era a unica decendente! Por azar, a mae adoeceu gravemente, nessa jornada, nao podendo ela resitir a infeccao, morreu. Foi sepultada, no cemeterio de Sao Filipe. E ela, por ser menor de idade, nao podia viajar sozinha e indocumentada. Por outro lado, o transporte para a America era entao escasso, teria que viver a espera, com a familia do meu avo em Carredinha.

 

Dois anos mais tarde, em 28 de Stetembro de 1918 nasceram o meu pai e a minha tia, gemeos e nominados Franciso e Francisca M. Cardoso, vulgarmente conhecidos por Norato e Norata, respectivamente. Para alem de brincar, serviu de “babysitter” para o meu pai e a minha tia Norata. Mais tarde (as tias), Piquena e a Mamazinha, ajutaram-se ao grupo. Com a meninada a brincar e por a crianca nao ter jeito de ficar parada, ela ainda se lembra da paga-saia, da seta e sobretudo da mola-finca, quando os aspatos nao lhe serviam e por outro lado acabram.

 

Lembra de zinbrao, da barneda que comiam e de lenha de flera, de cana de milho e de pulgueira, com que cozinhavam. Sem esquecer a “divan”, com colchao de saco, enchido de capa ou de “panasco”, as pulgas e percevejos, lhe aponquentavam quando dormia fora da casa, das rachaduras em calcanhar… ate do bicho de cachorros que lhe engrossou o catovelo esquerdo, na fome de 1926.

 

O pai da Nene, era entao um pequeno empresario de construcao civil. Construia e vendia casas para o sustento da familia. Mandava dinheiro para a “child support”, o suficiente para cuidar dela e do resto da familia, coisa que vinha fazendo desde longa data.

 

Em 1928, a Nene, apesar de sentir-se ligeiramente doente, o meu avo conseguiu por os seus documentos em dia, na embaixada dos Estados Unidos e com a ajuda de uma familia que emigrava para Massachusetts, embarcou num navio chamado “Madalan”(?) que exporadicamente, fazia viagens para New Bedford.

 

Tempo depois ela chegou. Sem a queixa, a nao ser o tempo da duracao da viagem. Sem perder tempo, queriam que ela fosse para a escola. Coisa que abruptamente ela rejeitou. Sentia vergonha de ir para a escola (“Kind guard”, a comecar no principio, com 17 anos de idade. Considerava-se adulta. Pouco meses depois comecou a trabalhar numa fabrica. No trabalho ela apreendeu a falar o engles e em casa falava o crioulo. Sempre a pensar como adulta que assumiu, arranjou cedo e cuidou da sua familia, como toda a gente faz. Casou com Alfredo Mendes (nosso parentesco) e viveram em Oakdale, que nessa data era uma comunidade, onde viviam inumeros Caboverdeanos. Tiveram 4 filhos. Atualmente a familia conta com 8 netos, 9 bisnetos e 6 trisnetos. Provou-se com os seus orgulhosos e responsaveis actos, a Mulher da familia. Por isso, nunca esqueceu da familia que ela deixou em Cabo Verde. Alias, deixou de mandar dinheiro, quando as informacoes dela, vieram por alguma razao a desaparecer. Soube que Prentchentche, o seu tio tinha morrido. Mas sempre pensou que um dia por sorte e se a vida nao for curta iria encontrar com o resto da familia.

 

Trabalhou nessa fabrica ate o “retirement”, que contra a sua vontade concluiu-se aos seus 82 anos idade. Disse-me que ainda se sentia perfeitamente jovem, para trabalhar.

 

Ha quatro anos atras, no mes de Dezembro de 2007, mandou a sua neta para ir buscar o meu pai e a minha tia que por falta de infomacoes deixou de mandar as cartas com dolares e mantenhas. Nessa altura eu estava de ferias em Cabo Verde. Para tomar parte na festa dos 90 aniversarios da minha mae Dona.

 

Indo da Praia, nesse dia, cheguei ao Fogo. Levei comigo o meu BMW, preto, descapotavel. Queria que a minha mae montasse pela primeira vez, no dia do seu aniversario, um carro dessa envergadura. Foi o que um dia lhe prometi: fazer algo exemplar, grande para nos. Para a familia. O carro e meu mas, devo-lhe a sua existencia como Mae. Devo tudo a essa Mae querida.

 

Ao chegar a casa da minha Irma, “rassecado” depois de ter “composto” a cabeca em pro-festa com duas garrafas de Hennessey, entre o Porto de Vale-dos-Cavaleiros e Tongom, ouvi que alguem, digamos, estrangeira, procurava Francisco e Francisca, de Carredinha, va-la, Maria Gomes… que ninguem conhecia, porque lhe faltara acrescentar Cardoso. Informei-lhe que era o meu pai e a minha tia que na altura estavam mortos e que em casa chamavamos-lhes Norato e Norata. Acrescentei-lhe que tambem eu vivia nos Estados Unidos, havia quase 24 anos e falamos um pouco sobre outras questoes, trocamos as informacoes e ela e os seus acompanhantes despediram da minha madrinha, a unica sobrevivente familiar paterno no Pais, com mais de 80 anos e que conheci toda a vida. E, no mesmo dia ela embarcou, pois foi para Cabo Verde, numa semana de ferias.

 

Regressei a America, um mes mais tarde e no meu primeiro fim de semana aqui, fui visita-la. Nene estava tao bem desposta que nao acreditei que somava essa idade. Chorou de tristeza e (mais) de alegria, porque nao pensou que teria a oportunidade de conhecer e abracar alguem da sua familia, que sobretudo estava perto, antes dela morrer. Ela ja conhece uma parte dos meus filhos, a minha mulher e no dia da festa surpreza do seu aniversario em 27 de Marco proximo, vou tentar levar o resto da familia para ela abracar.

 

Ela faz anos no dia 7 de Fevereiro, no mesmo dia que eu faco. So que eu fiz 58 e ela 100, em 2011, sendo agora ela a pessoa mais velha que vim a conhecer, no mundo, no meu lado paterno.

 

Viveu 12 anos na Carredinha. Lembra de muitas personalidades que por estoria sei existirem e de tantas coisas que fazia com a meninada. Tambem, andou nos caminhos da Carredinha, sem optar a sua caminhada ao objectivo e destino que a minha juventude auferiu. Recorda ainda do lugar onde se faz o eco. Comeu camoca de milho vermelho com com leite e café, sem esquecer os ovos de cardoniz e da galinha da guine. Nao deixou de recordar a sobremesa com melao, cujo o cheiro testimunha nostalgiar.

 

E jardineira domestica, permanente, no seu gigante “yeard”. Bem disposta, como uma jovem vulgar, nao usa a cana para lhe ajudar a equilibrar e nao tem um enfermeiro, tampouco o “CVS” ainda em sua casa. Ve o seu doutor pela insistencia da sua familia, regularmente.

 

Por isso e porque temos muito em comum, sobretudo, como parente, aproveito esta oportunidade para desejar a Nene a continuacao de mais anos de vida, com a mesma desposisao de sempre e que a celebracao dos seus 100 aniversarios seja repleto de muita alegria, desejando-lhe que sentisse como se estivesse em Carredinha, na companhia do tio querido que agora desejava abracar. Que dure mais, com a familia. Vai o nosso caloroso abraco para todos aqueles que estao celebrando com ela este acto. Para finalizar vai para a Nene, mais uma vez, um feliz Centenario.

 

Por: Remoaldo Cardoso

20 de Marco de 2011.

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2 Comments

Reply TAMBARINADURO
04:33 PM on March 27, 2011 
interssante storia
Reply Kaka
10:44 AM on March 27, 2011 
Um storia belo e comovente. Mas um ritrato emocionante di nos vida de povo emigrante. El debe ter sido um experiencia bastante forte es reencontro cum membro de bu familia ki bu ta diskonhiseba, ma ki ten tantu rikordasaun guardadu kuel.
kel vive,inda, txeu tempo de vida.