|
|
.by Fausto Do Rosário on Friday, January 28, 2011 at 7:35pm.
“Ca Podê” (ou história contada em três capítulos, com outras tantas dedicatórias de permeio)
Primeiro: Corria o ano lectivo 1983/84: Professor de Língua Portuguesa do então Ciclo Preparatório, na Escola “Pedro Cardoso” em São Filipe, nesse dia, segunda-feira, destinei a parte final da aula para corrigir os trabalhos de casa sobre a formação do feminino, tema leccionado na semana anterior. O exercício era simples: consistia em colocar nos espaços á frente dos substantivos macaco, capitão e doente, as formas correspondentes á mudança de género. Já quase no fim, uma resposta chamou-me atenção: para macaco, o aluno tinha feito corresponder a palavra “sancha”; para capitão deixara o espaço em branco e, para doente escrevera: “a ca podê”. Contendo a vontade de rir, mal pude esperar pelo intervalo para contar aos colegas, cuja estrondosa gargalhada ainda é capaz de estar a ressoar nas paredes da sala dos professores.
Todavia, já em casa, pensando um pouco mais sobre o assunto, percebi que o aluno, afinal, em parte, tinha resolvido bem o exercício: tinha colocado o determinante “a” que, no caso, explicitava o género do substantivo; contudo, raciocinando na sua língua materna, fora “traído” pela expressão, que no nosso bom crioulo do Fogo (que não tem lugar nas aulas de “língua cauberdiano” da RTC) designa aquele ou aquela cujo estado de saúde não é o melhor: “ca podê”. (Ao Francisco Tavares por nunca se cansar de pedir que lha conte de novo).
Segundo: Já Delegado do Ministério da Educação, na minha primeira abertura de ano lectivo, sublinhei a necessidade do professor enriquecer o seu discurso oral e escrito, buscando sinónimos que tornassem mais sugestiva a sua mensagem. Quando terminei, ficou-me a impressão de ter aborrecido os professores e de nada ter dito de interesse. Estava enganado. Algumas semanas depois, recebi um pedido de justificação de faltas em que o subscritor sustentava o mesmo pelo facto de “ter estado de náusea”… Manuel Medina, extraordinário chefe de secretaria e sempre bem-disposto, tinha feito, a lápis, a seguinte observação: “ de ressaca ou grávido?”. Despachei, solicitando ao professor que explicitasse o motivo. A resposta veio, esclarecedora: “de náusea, por morte da tia”. Percebi, então, que o meu colega de profissão, motivado pelo meu discurso, não querendo utilizar as velhas e estafadas expressões “de nojo” ou “de luto”, tinha ido ao dicionário e, sem se preocupar com o contexto, tinha, desta arte, “ficado de náusea”. Sartre (de quem, confesso, nunca consegui ler até o final “A náusea”) teria dado um sorriso. (Ao Corsino Tolentino pela sua lúcida, incisiva e elegante apreciação, feita numa das ultimas edições do programa televisivo “Visão Global”, sobre o estado da Língua Portuguesa em Cabo Verde; sob o risco do meu primo Filomeno ficar com ciúmes).
Terceiro: Dia 28 de Agosto de 2009. A RTC transmite o jogo “Fogo - Boavista”, para Taça Independência: um dos repórteres interrompe o jornalista encarregado de fazer o comentário para informar que o “lateral-direito” da equipa da Boavista “tem uma fractura na cabeça”. Mandei, de imediato, o meu filho de doze anos sair da sala para que não visse a cena eventualmente chocante de um jogador estendido no relvado, contorcendo-se ou até em convulsões, quem sabe restando-lhe poucos minutos de vida… Mas, depois, lá entendi o jornalista suavizar a situação, explicando não se tratar de uma fractura, mas sim de um corte no couro cabeludo; mais tarde, acrescentou que se tratava do sobrolho direito, lugar frequente de lesões para futebolistas, sobretudo na disputa de bolas pelo ar. Não pude deixar de me lembrar do meu aluno, hoje homem feito, no distante ano de 1983/84: tal como ele, o novel repórter tinha sido traído pelo crioulo e, assim, “quebra cabeça” passara para “fractura na cabeça”. (Ao Jaime Rodrigues, missionário do jornalismo no Fogo, nem sempre compreendido, inclusive pelo autor destas linhas, mal-amado muitas vezes, bode expiatório outras tantas, mas sempre persistente…).
Muitos têm sido aqueles que como Ondina Ferreira, Corsino Tolentino ou, ainda, Óscar Ribeiro, tem escrito e opinado sobre a urgente necessidade de uma revisão do ensino, da utilização e promoção da língua portuguesa (“a mais bela experiência românica nos trópicos”, segundo Baltasar Lopes; “a maior herança cultural deixada pelo colonialismo, segundo Amílcar Cabral). Sem dúvida, ela está bastante “ca podê” por força das muitas “fracturas” sofridas (sendo a redução dos tempos lectivos no 10ºAno, com aparente compensação/aumento nos primeiros anos do Básico a ultima; a resolução problema não é quantitativa). E, se dela não cuidarmos rapidamente, talvez venhamos a ficar definitivamente “de náusea” pela morte de um importante valor cultural
.
The words you entered did not match the given text. Please try again.

Oops!
Oops, you forgot something.