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JúlioCorreia
Tenho por mim “e isto tem sido a matriz da minha linha política” que o posicionamento dos actores políticos, sem prejuízo para as suas identidades partidárias e as causas ideológicas que defendem, devem ter sempre uma visão clara e crítica das realidades mormente aquelas que estão sob o cenário da sua legitimação, enquanto pessoas públicas.
Vem este intróito a propósito de um texto que serviu de base a uma conferência de imprensa dada à comunicação social pelo deputado do MPD pelo círculo do Fogo, senhor Jorge Nogueira, igualmente presidente da comissão política regional doFogo por esse partido. Na dita conferência, a par de muitas palavras injuriosas e comparações difamatórias ao Secretário Geral do PAICV, Dr. Armindo Maurício, ele recria um cenário, tão falacioso quão catastrófico, da situação da Ilha do Fogo e do viver dos Foguenses, a partir de 2001, momento em que o PAICV começa a governar Cabo Verde.
Incumbe-me desmistificar o texto do referido deputado, em vários planos da sua argumentação, mas sobretudo em dois aspectos de enorme importância, em prol do melhor esclarecimento da opinião pública:
Primeiro:
A um deputado da Nação espera-se que, para além da afirmação da sua linha política e ideológica, tenha para com o seu círculo eleitoral o dever da verdade, da honestidade intelectual e da lealdade, não sobrepondo a estes valores fundamentais e perfídia e a raiva em relação aos adversários políticos, bem como a falácia em relação às realidades que saltam à vista.
Sem faltar respeito ao deputado Jorge Nogueira com quem tenho divergências e dissemelhanças políticas, mas por quem tenho o respeito, simpatia, mas igualmente a crença de que em momento algum sacrificaria as verdades sobre o Fogo no altar do desespero eleitoral. Devo confessar o meu profundo desapontamento e algum espanto quando li as palavras constantes no referido texto de conferência de imprensa.
Diria até numa comparação mais prosaica que este deputado se revela com uma enorme miopia em relação à ilha do Fogo e, mais do que isso, revela uma enorme incapacidade de escolher óculos mais assertivos em relação à tal miopia, deitando mão a óculos que não o deixam ver o que a todos, inclusive aos que nele votaram, de facto saltam à vista.
Segundo:
Um outro aspecto que importa ponderar em relação a este texto tem a ver com a real dimensão do desenvolvimento do Fogo nos últimos anos, maquiavelicamente negado pelo deputado Jorge Nogueira. Todos os foguenses, inclusive a minoria que tem votado MPD, sabem e reconhecem que estão criadas as condições para o salto qualitativo do desenvolvimento regional da Ilha do Fogo, integrando plenamente a dinâmica que faz hoje de Cabo Verde um país de desenvolvimento médio e susceptível de atingir o desenvolvimento sustentável, na segunda década do XXI.
Em termos de infra-estruturas, os Foguenses, inclusive os que votaram neste deputado, aplaudem as obras no anel rodoviário (que já estão a galgar as imediações de São Jorge e a caminhar para Mosteiros), o terminal de passageiros do portode Vale de Cavaleiros e o alargamento para breve do cais do mesmo porto e a ampliação em curso do aeroporto de S. Filipe (criando condições básicas para o futuro aeroporto internacional do Fogo).
Mais: Centro de saúde dos Mosteiros (dando fim à especulação criada nos anos 90 em torno de uma “primeira pedra” que ao invés de virar construção teria ficado no monte de entulhos), o centro de formação profissional de S. Filipe, a introdução de cursos profissionais de nível universitário pela universidade de Cabo Verde, a estrada asfaltada para Chã das Caldeiras (cirando centralidade turística entre o eixo “vulcão/Chã das Caldeiras).
Mais: a instalação de um balcão da empresa no dia e a casa do direito dos Mosteiros, a correcção das bacias hidrográficas da mobilização e gestão da água, a electrificação de toda a ilha (a caminhar para os 100% de cobertura uma enorme evolução sobre os recorrentes 25% que eram a meta do MPD para o Fogo nos anos 90) e a direcção de projectos voltados para o desenvolvimento integrado da ilha com o financiamento do MCA.
Eainda mais: a contemplação da ilha com projectos dorsais do governo tais como a habitação (projecto casa para todos), governação electrónica e “gotinha d´agua” no quadro do projecto “mundu novu” e a valorização dos produtos locais do Fogo através do incentivo à produção do vinho e da projecção do museu do café do Fogo.
Tudo isso que é muito, não esgota entretanto as expectativas, de resto legítimas, que os foguenses têm sobre o desenvolvimento do Fogo, nem esgota a visão que o governo de Cabo Verde projecta para enquadrar a nossa querida Ilha.
Sou de opinião que precisamos todos e em convergência e sem perigar o nosso direito à diferença e dissemelhança, de um compromisso político leal e sério em relação ao Fogo, que não se compadece com a miopia revelada na citada conferência de imprensa e muito menos com a recusa de escolher óculos contra tal miopia e que permitissem ver o Fogo com realidade e realismo.
Permitindo-me um rasgo político, mais magnânimo, eu ousaria dizer que tive em temos a ilusão de que, apesar de exercermos a actividade política em bancadas parlamentares diferentes, pudesse contar com o deputado Jorge Nogueira para estarmos juntos nesta outra bancada que nos une que é o Fogo.
Entretanto, para que essa realidade fosse possível a condição indispensável seria, frontalidade mas nunca deslealdade, diferença mas nunca inverdade e não menos importante os nossos partidos mas nunca em detrimento dos grandes interesses e ideais da Ilha do Fogo.
E já agora para terminar, renovaria um convite em tempos feito por mim e no parlamento ao deputado Nogueira a uma viagem em torno na nossa querida Ilha (parte dela naturalmente no anel rodoviário em construção) desde que ele aceitea nobreza de mudar de óculos.
JC
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