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Por: Alberto Nunes
É escandaloso o modo como assistimos à morte do mérito e da competitividade de igual para igual entre candidatos a concursos e postos públicos. Abraão Vicente
A partir de Dezembro de1999, decidi dedicar-me ao estudo da História de Cabo Verde e do Fogo em particular. Decidi, desde então, incidir os meus estudos sobre os problemas políticos, económicos e sociais. Está a ser, para mim, uma experiência agradável. Depois de alguns anos a vasculhar algumas fontes, a ler alguns documentos/livros e acompanhar, minuciosamente, algumas práticas relacionadas a esta problemática, resolvi, a partir de 2004, produzir alguns artigos resultantes desse exercício intelectual empreendido desde 1999.
Neste exercício intelectua baseado em documentos pude enquadrar a ilha do Fogo no contexto nacional e conclui, a partir de dados fiáveis que, até o final do século XVIII ela ocupava o segundo lugar em termos de desenvolvimento a nível nacional. Nessa altura, ailha de São Vicente já estava a receber os seus primeiros habitantes, a do Sal teve, ainda, de esperar alguns anos para que, no início do século XIX, passasse a receber também os seus primeiros habitantes. A partir do final do século XVIII e o início do século XIX com o povoamento, principalmente de São Vicente a ilha do Fogo começou a conhecer o seu declínio em termos de progresso. Vários factores estiveram e estão na sua origem entre os quais o conformismo.
O desenvolvimento do Fogo apartir de então passa a ser natural e explica com o andar do tempo, isto é, o tempo passa algumas coisas foram feitas – gestão corrente. Os pequenos investimentos que explicam, de certa forma, algum crescimento não foram provocados, aconteceram no desenrolar dos tempos.
No pós-independência, enquanto muitas ilhas conheceram alguns investimentos a do Fogo foi abandonada e esquecida pelos sucessivos governos, embora na década de 90 viesse a receber três infra-estruturas – Um Liceu, um Aeródromo e um pequeno Cais.
Ao estudar critica e desapaixonadamente a situação política, social e económica do Fogo preocupei-me muito principalmente com várias práticas que têm contribuído significativamente para o seu atraso e estagnação durante vários anos e resolvi como disse produzir alguns artigos dando à estampa a situação aqui vivida e, ao mesmo tempo, reivindicar o direito que o cidadão do Fogo tem no contexto nacional. Reivindiquei também a nível do Fogo a JUSTIÇA SOCIAL.
Chamei atenção aos partidos políticos, à sociedade civil e a alguns dirigentes relativamente aos direitos, deveres e responsabilidade que cada um tem na construção de uma sociedade fraterna e justa onde cada cidadão independentemente do seu credo, ideologia, raça e origem possa usufruir do seu direito, baseando no mérito e na competência deacordo com a Constituição da República e Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Depois de ter escrito vários artigos relacionados com o atraso e abandono da ilha, em Dezembro de 2008, na sequência de concretização de algumas obras, do lançamento de algumas pedras para o arranque de novas obras e do arranque de outras obras escrevi um artigo e mandei publicá-lo no semanário A Semana com o seguinte título “ Fogo: O Prelúdio De Uma Nova Era”. Na altura, referia-me ao hospital dos Mosteiros, Gare marítima, obra de remodelação e ampliação do Aeródromo de São Filipe, Liceus de Cova Figueira e de Ponta Verde, Centro de Formação Profissional para a região do Fogo e Brava, início de asfaltagem da estrada Salto à entrada do Parque Natural, arranque do Anel Rodoviário, remodelação e ampliação do Posto Sanitário na então Vila de Cova Figueira, electrificação rural nos três concelhos etc. Naquele artigo falei de alguns postos de trabalhos criados pelas empresas; falei de forma apartidária de aquisição dos trabalhadores por parte das empresas; falei da movimentação que a realização dessas obras provocava na ilha dando a sensação do arranque do desenvolvimento e crescimento de uma ilha que há séculos andava abandonada e adormecida e por último falei dos benefícios que as obras podiriam trazer para ilha. Hoje, no Fogo relativamente a estes aspectos ouvem-se comentários diferentes dos que têm sido antes de 2008.
Eu, da minha parte, nestes dias, relativamente à electrificação rural fiquei satisfeito com a chegada de energia eléctrica aos povoados de Baluarte Cima, Monte Preto, Mãe Joana (minha aldeia natal) e Estância Roque. Dou os meus parabéns ao Governo de Cabo Verde, à Câmara Municipal de Santa Catarina e aos parceiros envolvidos no financiamento e na execução do trabalho. Hoje, estes bairros são diferentes e proporcionam novas oportunidades aos seus habitantes. Hoje, no bairro que me viu nascer já posso usar meu portátil e escrever, já posso dormir noites necessárias sem medo ou receio de perder o telejornal, sem medo ou receio de assistir um bom programa televisivo etc. Sinceramente, tudo isso é para mim, uma sensação agradável. Já não tenho mais pressa de sair do meu bairro natal. Penso também que os outros conterrâneos que habitam lá ainda têm o mesmo sentimento. Este sentimento e esta minha atitude de reconhecer publicamente estas iniciativas provam, de certo modo que, quando as coisas funcionam e bem, os cidadãos de bom senso que acompanham a dinâmica e o progresso sentem e reconhecem esses feitos.
Se nestes sectores houve ganhos significativos à vista de todos, noutros ainda precisam de uma intervenção profunda, revolucionária de modo que possamos edificar uma sociedade sobre o alicerce da Justiça, do mérito, da competência, em suma, uma sociedade alicerçada na Constituição da República e noutros documentos normativos do nosso país e não só.
A Constituição da Republicade Cabo Verde no seu art. 23º diz que “Todos os cidadãos têm igual dignidade social e são iguais perante a lei, ninguém podendo ser privilegiado, beneficiado ou prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razãode raça, sexo, ascendência, língua, origem, religião, condições sociais e económicas ou convicções políticas ou ideológicas”. O texto é realmentelindo e rico de conteúdo. Entretanto, sabemos que na prática não funciona assim. Quantas vezes já assistimos os governantes a não respeitarem a opção política e partidária de um cidadão? Quantas vezes assistimos, na nossa sociedade, cidadão perseguido, excluído, ignorado por motivo da sua opção? Vejam o que passou com David Lima Gomes, candidato do MpD às últimas eleições autárquicas na ilha Brava…
A ilha do Fogo podia estar num patamar bem diferente do que se encontra neste momento: se houvesse mais respeito pelas opções de cada cidadão; se houvesse menos injúria às pessoas que pensam de forma diferente daquelas que estão no poder; se houvesse democracia; se houvesse promoção de mérito, competência e excelência; se houvesse mais…
Como cidadão cabo-verdiano e foguense, fico orgulhoso com a construção do centro de saúde dos Mosteiros; com o arranque do anel rodoviário; com o arranque da construção do Liceu em Cova Figueira; com a construção do Centro de Formação Profissional para a Região do Fogo e Brava; com asfaltagem da estrada Salto a entrada do Parque Natural…
Todavia, como cidadão cabo-verdiano e foguense não me orgulho ao ver estudantes reprovados com subsídios para estudarem dentro e fora do país; ao ver apoios canalizados numa só família, porque os pais são do partido no poder e ver bons estudantes sem subsídios e excluídos porque os pais têm uma opção política diferente; não me orgulho ver indivíduos sem competências técnicas e sem requisitos a ocuparem cargos de alta responsabilidade e com salário exorbitante (superior a de um técnico superior) sem ter passado pelo menos pelo Liceu só porque é militante; não me orgulho ver indivíduos ocupando determinados postos sabendo de antemão que nada vai fazer a não ser ganhar um óptimo salário só porque é militante ou os pais o são; não me orgulho ver jovens “playboy” trabalhando em empresa e outros funcionários de instituições públicas com pensão social; não me orgulho ver e ouvir esses jovens a “bazofiar” na rua da minha ilha dizendo aos velhos e vulneráveis sem pensão social que estes não a têm porque votaram “torto” etc.
É lamentável, é injurioso, é um atentado à intelectualidade ver os nossos governantes descarados e propositados a distribuírem trabalhos públicos, sem concursos e sem fiscalização aos amigos e militantes contribuindo para enriquecer determinados indivíduos, em curto prazo com recursos públicos, deixando bons e honestos trabalhadores de fora conduzindo-os à miséria extrema só porque estes últimos têm opção política diferente de quem está no poder ou na linguagem de muitos porque votaram “torto”. É Triste! Aos prejudicados/vítimas deste sistema vergonhoso, arcaico… peço-lhes coragem, paciência e determinação, pois Jesus Cristo e Nelson Mandela são exemplos a seguir com o espírito de perdão. Jesus no alto do madeiro da Cruz pediu ao Pai para perdoar aqueles que O crucificaram injustamente e Nelson Mandela depois de cumprir vinte sete anos de prisão injustamente ao sair da prisão concedeu perdão aos que o condenavam e proclamou uma África do Sul livre e sem vingança. Assim governou durante um mandato.
Não me orgulho com ainjustiça.
Cidade de São Filipe, Setembro de 2010
Alberto Nunes
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