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Ilha do Fogo: Conquistas e Desafios

Posted by Manduco on September 29, 2010 at 2:01 AM

Por: Alberto Nunes


É escandaloso o modo como assistimos à morte do mérito e da competitividade de igual para igual entre candidatos a concursos e postos públicos. Abraão Vicente


A partir de Dezembro de1999, decidi dedicar-me ao estudo da História de Cabo Verde e do Fogo em particular. Decidi, desde então, incidir os meus estudos sobre os problemas políticos, económicos e sociais. Está a ser, para mim, uma experiência agradável. Depois de alguns anos a vasculhar algumas fontes, a ler alguns documentos/livros e acompanhar, minuciosamente, algumas práticas relacionadas a esta problemática, resolvi, a partir de 2004, produzir alguns artigos resultantes desse exercício intelectual empreendido desde 1999.


Neste exercício intelectua baseado em documentos pude enquadrar a ilha do Fogo no contexto nacional e conclui, a partir de dados fiáveis que, até o final do século XVIII ela ocupava o segundo lugar em termos de desenvolvimento a nível nacional. Nessa altura, ailha de São Vicente já estava a receber os seus primeiros habitantes, a do Sal teve, ainda, de esperar alguns anos para que, no início do século XIX, passasse a receber também os seus primeiros habitantes. A partir do final do século XVIII e o início do século XIX com o povoamento, principalmente de São Vicente a ilha do Fogo começou a conhecer o seu declínio em termos de progresso. Vários factores estiveram e estão na sua origem entre os quais o conformismo.


O desenvolvimento do Fogo apartir de então passa a ser natural e explica com o andar do tempo, isto é, o tempo passa algumas coisas foram feitas – gestão corrente. Os pequenos investimentos que explicam, de certa forma, algum crescimento não foram provocados, aconteceram no desenrolar dos tempos.


No pós-independência, enquanto muitas ilhas conheceram alguns investimentos a do Fogo foi abandonada e esquecida pelos sucessivos governos, embora na década de 90 viesse a receber três infra-estruturas – Um Liceu, um Aeródromo e um pequeno Cais. 


Ao estudar critica e desapaixonadamente a situação política, social e económica do Fogo preocupei-me muito principalmente com várias práticas que têm contribuído significativamente para o seu atraso e estagnação durante vários anos e resolvi como disse produzir alguns artigos dando à estampa a situação aqui vivida e, ao mesmo tempo, reivindicar o direito que o cidadão do Fogo tem no contexto nacional. Reivindiquei também a nível do Fogo a JUSTIÇA SOCIAL.


Chamei atenção aos partidos políticos, à sociedade civil e a alguns dirigentes relativamente aos direitos, deveres e responsabilidade que cada um tem na construção de uma sociedade fraterna e justa onde cada cidadão independentemente do seu credo, ideologia, raça e origem possa usufruir do seu direito, baseando no mérito e na competência deacordo com a Constituição da República e Declaração Universal dos Direitos Humanos.


Depois de ter escrito vários artigos relacionados com o atraso e abandono da ilha, em Dezembro de 2008, na sequência de concretização de algumas obras, do lançamento de algumas pedras para o arranque de novas obras e do arranque de outras obras escrevi um artigo e mandei publicá-lo no semanário A Semana com o seguinte título “ Fogo: O Prelúdio De Uma Nova Era”. Na altura, referia-me ao hospital dos Mosteiros, Gare marítima, obra de remodelação e ampliação do Aeródromo de São Filipe, Liceus de Cova Figueira e de Ponta Verde, Centro de Formação Profissional para a região do Fogo e Brava, início de asfaltagem da estrada Salto à entrada do Parque Natural, arranque do Anel Rodoviário, remodelação e ampliação do Posto Sanitário na então Vila de Cova Figueira, electrificação rural nos três concelhos etc. Naquele artigo falei de alguns postos de trabalhos criados pelas empresas; falei de forma apartidária de aquisição dos trabalhadores por parte das empresas; falei da movimentação que a realização dessas obras provocava na ilha dando a sensação do arranque do desenvolvimento e crescimento de uma ilha que há séculos andava abandonada e adormecida e por último falei dos benefícios que as obras podiriam trazer para ilha. Hoje, no Fogo relativamente a estes aspectos ouvem-se comentários diferentes dos que têm sido antes de 2008.


Eu, da minha parte, nestes dias, relativamente à electrificação rural fiquei satisfeito com a chegada de energia eléctrica aos povoados de Baluarte Cima, Monte Preto, Mãe Joana (minha aldeia natal) e Estância Roque. Dou os meus parabéns ao Governo de Cabo Verde, à Câmara Municipal de Santa Catarina e aos parceiros envolvidos no financiamento e na execução do trabalho. Hoje, estes bairros são diferentes e proporcionam novas oportunidades aos seus habitantes. Hoje, no bairro que me viu nascer já posso usar meu portátil e escrever, já posso dormir noites necessárias sem medo ou receio de perder o telejornal, sem medo ou receio de assistir um bom programa televisivo etc. Sinceramente, tudo isso é para mim, uma sensação agradável. Já não tenho mais pressa de sair do meu bairro natal. Penso também que os outros conterrâneos que habitam lá ainda têm o mesmo sentimento. Este sentimento e esta minha atitude de reconhecer publicamente estas iniciativas provam, de certo modo que, quando as coisas funcionam e bem, os cidadãos de bom senso que acompanham a dinâmica e o progresso sentem e reconhecem esses feitos.


Se nestes sectores houve ganhos significativos à vista de todos, noutros ainda precisam de uma intervenção profunda, revolucionária de modo que possamos edificar uma sociedade sobre o alicerce da Justiça, do mérito, da competência, em suma, uma sociedade alicerçada na Constituição da República e noutros documentos normativos do nosso país e não só.  


A Constituição da Republicade Cabo Verde no seu art. 23º diz que “Todos os cidadãos têm igual dignidade social e são iguais perante a lei, ninguém podendo ser privilegiado, beneficiado ou prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razãode raça, sexo, ascendência, língua, origem, religião, condições sociais e económicas ou convicções políticas ou ideológicas”. O texto é realmentelindo e rico de conteúdo. Entretanto, sabemos que na prática não funciona assim. Quantas vezes já assistimos os governantes a não respeitarem a opção política e partidária de um cidadão? Quantas vezes assistimos, na nossa sociedade, cidadão perseguido, excluído, ignorado por motivo da sua opção? Vejam o que passou com David Lima Gomes, candidato do MpD às últimas eleições autárquicas na ilha Brava…


A ilha do Fogo podia estar num patamar bem diferente do que se encontra neste momento: se houvesse mais respeito pelas opções de cada cidadão; se houvesse menos injúria às pessoas que pensam de forma diferente daquelas que estão no poder; se houvesse democracia; se houvesse promoção de mérito, competência e excelência; se houvesse mais…


Como cidadão cabo-verdiano e foguense, fico orgulhoso com a construção do centro de saúde dos Mosteiros; com o arranque do anel rodoviário; com o arranque da construção do Liceu em Cova Figueira; com a construção do Centro de Formação Profissional para a Região do Fogo e Brava; com asfaltagem da estrada Salto a entrada do Parque Natural…


Todavia, como cidadão cabo-verdiano e foguense não me orgulho ao ver estudantes reprovados com subsídios para estudarem dentro e fora do país; ao ver apoios canalizados numa só família, porque os pais são do partido no poder e ver bons estudantes sem subsídios e excluídos porque os pais têm uma opção política diferente; não me orgulho ver indivíduos sem competências técnicas e sem requisitos a ocuparem cargos de alta responsabilidade e com salário exorbitante (superior a de um técnico superior) sem ter passado pelo menos pelo Liceu só porque é militante; não me orgulho ver indivíduos ocupando determinados postos sabendo de antemão que nada vai fazer a não ser ganhar um óptimo salário só porque é militante ou os pais o são; não me orgulho ver jovens “playboy” trabalhando em empresa e outros funcionários de instituições públicas com pensão social; não me orgulho ver e ouvir esses jovens a “bazofiar” na rua da minha ilha dizendo aos velhos e vulneráveis sem pensão social que estes não a têm porque votaram “torto” etc.


É lamentável, é injurioso, é um atentado à intelectualidade ver os nossos governantes descarados e propositados a distribuírem trabalhos públicos, sem concursos e sem fiscalização aos amigos e militantes contribuindo para enriquecer determinados indivíduos, em curto prazo com recursos públicos, deixando bons e honestos trabalhadores de fora conduzindo-os à miséria extrema só porque estes últimos têm opção política diferente de quem está no poder ou na linguagem de muitos porque votaram “torto”. É Triste!  Aos prejudicados/vítimas deste sistema vergonhoso, arcaico… peço-lhes coragem, paciência e determinação, pois Jesus Cristo e Nelson Mandela são exemplos a seguir com o espírito de perdão. Jesus no alto do madeiro da Cruz pediu ao Pai para perdoar aqueles que O crucificaram injustamente e Nelson Mandela depois de cumprir vinte sete anos de prisão injustamente ao sair da prisão concedeu perdão aos que o condenavam e proclamou uma África do Sul livre e sem vingança. Assim governou durante um mandato.


Não me orgulho com ainjustiça.


Cidade de São Filipe, Setembro de 2010

Alberto Nunes

 


Categories: Artigos, Alberto Nunes

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4 Comments

Reply Tutu
04:33 AM on October 02, 2010 
PAICV ca faze nada na Fogo pamode so me Tutu que faze tudo cuza que tem na Fogo. Me Tutu que faze Liceu, me Tutu que faze cais, me Tutu que faze aeroporto, me Tutu que atcha ma e me Tutu que faze tudo cusa. Tudo cusa que tem na Fogo e de me Tutu. Na Fogo ca tem nada, tem so 3 cusa e es e de me Tutu.
Jesus e de me Tutu, Nelson Mandela e de me Tutu.
Reply Remoaldo Cardoso
10:11 PM on October 01, 2010 
A ELEISSAO - IVAN LESSA Colunista da BBC - Brasil

Peço vênia para discordar. De uma porção de coisas, feito um candidato a deputado.
Como todo mundo sabe (é, vocês quatro) em matéria de votar, eu sou menos que principiante apesar da idade avançada. Nunca votei em minha vida. Porque era obrigatório. Proibiam de pastar na grama da praça, eu ia lá e me fartava. Proibiam de conversar com o motorista do ônibus, eu vivia puxando papo. A juventude é rebelde e eu era jovem.
Com os anos, a conjuntura do país viu que votar não estava mesmo com nada e deixaram essa frescura para lá. Só aí me deu vontade de votar. O moleque em mim amadurecera mas não aprendera nada.
Deixaram-me, os ?homi?, 21 anos sem pedir minha presença diante de uma urna eleitoral, por mais modesta que fosse.
A vida é dura. Por mais que a gente faça, acabamos aceitando suas sacanagens. Não é assim que se faz?
Não é pra votar? Tudo bem. Entraram na minha. Não voto mesmo. De repente, como no esplêndido soneto do Vinícius, de repente, não mais que de repente, como quase tudo que se passa em nossa torrão, deram de novo para votar.
Aí a colher de chá virou chuá, conforme se dizia, na época de Getúlio e depois dos generais. Não se podia sair de casa sem uma escrutinização tendo lugar em plena via pública. Só dava altissonante alto-falante, cartaz na parede, discurso na esquina, digressões nos meios de comunicação e, principalmente, opinião.
Opinião, opinião, opinião. Argumentos? Pouquíssimos. Palpite? Assim, ó, à beça!
Daí que chegamos a 2010. Eleição seguiu-se a eleição, com um pequeno impeachment no meio, feito a azeitona no martini seco. Pela parte que me toca, nada me tocou. Mudei de casa, estado, país. Não votando.
Talvez para matar saudades da juventude perdida, aquela propalada aurora de nossa vida, nem passei perto de urna, presidente, mesário, esses bibelôs todos.
Agora, nesta quinta-feira, no dia em que digito estas mal informatizadas linhas, leio na primeira página virtual de nossas folhas que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda não se decidiu se será necessário ou não para o eleitor levar, além do título, um documento made in Brazil que estampe foto do indivíduo que vai cumprir seu deverzinho cívico.
Parece que a indecisão é só pra me chatear. O negócio é complicar. Deve dar um dinheirão. A paranóia ronda aqueles de minha idade e em tudo vejo complôs e intentonas pessoais. Eu ia até o consulado brasileiro aqui, no domingo, dia 3, para votar. Só porque descobri, com um imenso atraso, confesso, que os analfabetos não só podem mas como são obrigados a votar. Minha alma é incapaz de um bê-a-bá. Ao dever cívico, pois, raciocinara este vosso criado.
Sim, no Brasil, o voto é obrigatório. Conto o fato para dois ou três amigos ingleses no pub, mostro o recorte da propaganda eleitoral da Mulher-Pera. Faço o maior sucesso. Dizem, em sua língua arrevesada, que eu sou ?um pândego? e um ?tremendo gozador?, que, em inglês, são duas expressões bem mais divertidas do que minha tradução.
Agora, quando, depois do sucesso de meu anedotário e da foto da Mulher-Pera, assim que me pagaram o próximo pint de lager, eu vou em frente e, sempre com base em nossa altaneira realidade (cada vez mais próxima de uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas), procuro abafar ainda mais e revelo: sim, votar é obrigatório, agora bacana mesmo é que analfabeto vota, mas não pode ser candidato. Impossível descrever a reação de Tom, Dick e Kevin. Viraram os olhos vermelhos, caíram do banco, entornaram a cerveja. Mas, e isso é importantíssimo, a próxima rodada me sai inteiramente grátis.
Não é culpa minha, não é safadeza, não é falta de patriotismo. É bebida fermentada de graça e vontade de agradar. Uma espécie de cartão-postal do Rio com o Corcovado e o Pão de Açúcar pelos quais optei como ilustração.
Agora, o que eles pedem para ver de novo é a Mulher-Pera. Só para ser diferente, tiro do bolso a outra foto que guardo para ocasiões especiais: a do palhaço Tiririca, acompanhada de minhas devidas elucidações. Palhaço aqui é coisa séria. Tom, Dick e Kevin, com uma inesperada frieza, se despedem e vão cuidar de suas vidas.
Onde foi que errei? Onde foi que erramos todos?
BBC - Brasil
Reply De Djarfogo
06:57 PM on September 30, 2010 
Bom artigo. Continua a publicar: escritas assim vao servir para nossos jovens reflictir e pensar um Fogo diferente. Ate podem entender que o melhor para uma democracia e alternancia.
Djarfogo parribal tudo!
Reply Djinguilane
06:54 AM on September 29, 2010 
Olá, Dr Nunes, o Dr devia realçar no seu artigo que o MPD para além deste cais ,aerodromo e liceu que fez, oficializou várias escolas privadas da Ilha entre as quais está o Liceu João Paulo II,ex-Casa Materna que o Sr estudou grande conquista, ainda o telefone por todos os lados, bolsa de estudos sem ver para a cara dos alunos são grandes feitos deste partido para com a Ilha, enquanto o PAIGC/CV não irá inaugurar nestes 10 anos de governação nenhuma desta obra importante para a Ilha como porto do vale dos cavaleiros, aeroporto, pólo universitário, anel rodoviario, nem se quer irá passar pelos Mosteiros baixo( zona litoral) devemos ser coerentes em análises que fazemos, visto que ninguém é tolo ao contrário vê-se o Governo do SR José Maria Neves a inaugurar todos os santos dias em S.Antão, Boa Vista e Santiago, mas 2011 está perto, o povo da Ilha do Fogo é testemunha do abandono do Governo do PAIGC/CV nestes 25 anos após a independência, nós todos congratulamos com arranque destas obras para o Fogo, agora seria para inaugurar e não lançar pedras. Um abraço foguense e que continue a investiagr e estudar a Ilha que a nós todos pertence. Em termos de informação a INE ( Instituto de Estatistica de Cabo Verde) acabou de informar que os dois concelhos mais pobres do país ficam na Ilha do Fogo, Santa Catarina do Fogo e Mosteiros como foguense fico unguniado ao ouvir isso.