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Enxada Encostada

Posted by TAMBARINADURO at 09:48 PM on February 08, 2010

As maos calosas do menino de doze anos de idade jogaram no fundo do quintal a enxada, madrasta. O dia foi duro. O sol abrasador do mes de Outubro nao tinha poupado o filho de parida que tinha estado, o dia inteiro, no rabo da enxada. O menino, cheio de fome, sabia que essa aposta em asagua nao era o destino que queria. Ele nao queria esse empreendimento em que o esforço e o trabalho nao produziam retorno ou remuneraçao equivalente. O seu pai, Djokim, tinha trabalhado, a vida inteira, so para garantir o tres por dia. Falando nisso, o menino dirigiu-se a cozinha a procura de algo para quebrar o jejum. Batata assada e um copo de leite de cabra magra era o consolo do dia. Sob o gri-gri dos grilos o menino engoliu os ultimos bocados e foi pra cama.

 

O cansaço era tanto que mal deitou na cama de cancaran, ele dormiu que nem um anjo. O galo cantou logo e a madrugada raiou sem demora. Energetico, o menino pos-se em pe e rumou pra Sao Filipe, as unhas. A madrugada encheu-se de crianças de bata azul claro e rosto verde de esperança. A passos largos, uns descalços, outros de arbecas e outros de sapatos, todos marcharam, alegres e ruidosos. A alegria era geral e contagiante.

 

Joao Lopes - presente; Manuel Miranda - presente; Antonio Pires - presente. Era o primeiro dia de aulas no ciclo preparatorio Pedro Cardoso e as salas estavam a rebentar pelas costuras. Apesar do tumultuo causado pelo numero exagerado de crianças pelos corredores procurando orientaçao, dentro das salas o silencio era sepulcral. So se ouvia o ruido abafado e distante do mar revoltoso a rebentar contra as areias negras do Bocarrom. Na sala, a voz assertiva da professora cortava o silencio que pairava no ar. Nem a mosca atrevia um voo sorrateiro nessa sala abarrotada de crianças. Nisso, a porta entreabriu -se e surgiu uma crianca franzina que se fez pela porta adentro procurando assento. Mal tinha sentado, a conceituada professora Onaleta Acesnof quiz saber o nome do menino distinto que acabara de chegar. ''O meu nome e Fafi Beludo'' - respondeu a criança de uma forma meio timida, sob o olhar curioso da criançada. Era Outubro de 1975.

 

O ano anterior fora ano de muita fartura. Mas esse ano, 1975, '' tchuba staba djorri''. O mes de Setembro nao choveu e nem prometeu. O ceu desnublado condenava a colheita a mais um ano de fracasso apesar do tempo, sangue e suor que o povo investiu na agricultura. A ameaça de mais um ano de seca perturbava a todos, menos um - Fafi Beludo. Agora, sentado na sala de aulas, longe da enxada e guarda aos corvos, ele estava a seguir atentamente os conselhos da professora, que num tom de esperança, convidavam as crianças a serem homens de amanha. Fafi Belufo, trisneto Nho Lau, aquele homem que carregava o cavalo ao ombro, nao tinha medo de um mau ano agricola. Ele queria ser o pioneiro, que no trabalho e no estudo seria sempre o primeiro; queria ser um daqueles que mudariam o futuro '' devagar e certo, mas avancando sempre, ilha a ilha, dor a dor''.

 

Sendo o primeiro da familia a concluir o segundo grau, Fafi Beludo queria um destino diferente. Ele nao queria ficar preso ao rabo da enxada. Esse era o destino que ele temia mais do que a fome e a miseria. Miseria do tipo cronico e contagioso; a causa da emigracao do seu seu pai prara as roças de Sao Tome. Emigracao que so rendeu malaria e febre amarela ao pai. Pai que entao era escravo da enxada e vida sacrificadada. Fafi queria quebrar a rotina desse destino circular que por mais que andasse acabava sempre no mesmo sitio. Era a sua vez, e tambem a vez de centenas de crianças que ambulavam radiantes pelos corredores da escola, a procura de um novo futuro. O filho do povo agora apostava num novo destino; num desafio ao destino e a natureza. Pegaram no livro e encostaram as enxadas.

 

Hoje, em restrospectiva, olhamos o percurso da gente, da historia e da ilha. Queiramos ou nao, esta estoria e histora. Fafi Beludo e os outros se tornaram autores, actores e donos dos seus destinos. Mesmo Jacob, servindo a Labao, depois de sete e mais sete anos, nao foi mais abençoado do que eles, que nessa manha de Outubro de 1975, iniciaram as aulas no Ciclo Preparatorio Pedro Cardoso. Tornaram-se homens de sucesso e as suas maos finas e cautelosas, que um dia encostaram as enxadas, hoje traçam o futuro da nossa Patria que o mundo conhece e prespeita: aquela que nao teme a seca e nem esta condenada a enxada, madrasta.

Categories: Tambarinaduro, Artigos, Noticias

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3 Comments

Reply Kaka
06:06 PM on February 10, 2010
Muito rico e inteligente! Acho, sinceramente, que o Tambarinaduro tem um dom que ele mesmo precisa dar a liberdade, compartilhar connosco e enriquecer mais este nosso convivio. Obrigado.
Reply XUJIM PE DE FERRO
04:18 PM on February 09, 2010
mininus de quel bez e omis di oji...Es dja biranu Cabo Verdi grandi...Cabo Verdi di oji e ca fim di mundo suma bedju...viva mininus di 1975
Reply Remoaldo Cardoso
11:57 AM on February 09, 2010
Gostei muito. Nao desista de utilizar o teu tempo livre - que nao e - nisso. Um dia orgularas disso e do tempo que nao dixaste perder em banalidades, que ja apostam o milenio. Continue a escrever.

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Em Breve: Um Fabuloso Trabalho

 

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