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O menino estava sentado atrás do "funco", olhando, em extâse, a chuva que caía na fria tarde de setembro. Sentiam-se, o menino, os outros meninos, os pais e os"dodonos" e "donas", dizia eu que sentiam-se todos leves, aliviados do peso imposto pelo temor de um ano de "azágua mofino".
Na "padjigal" só tem um restinho de uvas moscatel, daquelas mais tardias, que amadurecem apenas quando as outras já se apodreceram de tão maduras, apenas para dizerem (falo das moscatel), em linguagem de uvas, sou mais gostosa, sou mais gostosa.
A chuva dá uma trégua, 'tempo dja da', como dizem o menino e os outros meninos. Todos saem às pressas ao campo para apanhar o pasto para o gado e depois correr atrás de "txantxiroti", molhados pela chuva e com dificuldades para voar. Que alegria!
-É melhor voltarmos para casa- diz o menino mais velho
-Porquê? - querem saber os outros
-'Capel' ainda está no vulcão - diz o mais velho, fazendo referência a uma nuvem que fica em cima da cratera principal do vulcão e que, dizem os mais velhos e, obrigatoriamente, mais sábios, é sinal de muita chuva. Que regressem todos, então, para o funco! Nem precisei pedir duas vezes.
Em instantes a chuva recomeça sua dança, com mais vigor agora, com mais vontade. Até parece que apenas estava esperando as crianças chegarem em casa.
Já é noitinha e já é manhã...segundo dia.
Antes das seis da manhã o pai liga o rádio para ouvir notícias. Diz o locutor, aquele homenzinho que mora dentro do rádio, como imagina o menino, continuando, diz o locutor que a chuva caiu em todas as ilhas.Todos ficam radiantes.
-Venham tomar café - chama a prima. De novo, não foi preciso pedir duas vezes. Todos tomam café com leite de cabra, um pouquinho de açucar, pois as bocas são muitas e o açucar pouco, e um pedaço de 'gufongo'. Hoje é café de fidju, não café de n'ganha. Hoje choveu, hoje é dia de festa.
Desjejum acabado, todos se preparam para ir para 'boca fonte' trabalhar. Uns farão as covas, outros enterrarão as sementes, dois de milho e dois defeijão, dois de bongim e dois de milho, em cada cova. Outras farão acomida, tão desejada, depois de horas de labuta. O menino sonha com o dia em que ele não mais enterrará as sementes. Sonha com o dia em que terá sua própria enxada e fará as covas, como os meninos mais velhos. Mal sabe ele que ele será médico e que sonhará muito com os dias em que ele, os outros meninos, os pais, os "dodonos" e as "donas" ficavam atrás do "funco" vendo a chuva cair, nas frias tardes do mês de setembro.
Aquele abraço.
Eliezer Monteiro - Rio de Janeiro
Categories: Artigos
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