![]() |
| 01-11-05 |
Nascido no Fogo, António Barbosa Carreira foi um historiador e um homem de ideias firmes que deu a Cabo Verde pistas de vital importância sobre o seu passado e a sua identidade |
POR: Pedro Miguel Cardoso No passar dos anos e com o evoluir da História, novas datas juntam-se à longa lista de efemérides. É assim que, cumprindo esta dinâmica, o 28 de Outubro tornou-se, também ele, um dia especial. Nesta data, há precisamente cem anos, nascia no Fogo António Barbosa Carreira, um historiador que, ao interpretar as mutações do tempo, deu a Cabo Verde pistas de vital importância sobre o seu passado e a sua identidade. Um homem de ideias firmes e um trabalhador incansável que é hoje homenageado no seu São Filipe natal. Imparável, a linha do tempo alonga-se indefinidamente. Nela figuram as datas, pessoas, feitos e momentos que marcam um povo e que os investigadores vão descortinando, pouco a pouco. Foi neste trabalho de tirar do obscurantismo feitos, movimentos e personagens do passado de Cabo Verde que, durante os 83 anos da sua vida, António Carreira se destacou. Esmiuçando os múltiplos aspectos que contribuíram para a definição da identidade crioula, Carreira contribuiu significativamente para o encontro dos cabo-verdianos com o seu passado e, consequentemente, com eles próprios. Por isso mesmo, o homem de quem hoje se comemora o centenário é uma referência incontornável da historiografia cabo-verdiana. Carreira nasceu no Fogo em 28 de Outubro de 1905, mas viveu a maior parte do tempo em Portugal e na Guiné-Bissau. O seu interesse pela História cabo-verdiana levou-o a viajar por vários países, onde recolheu dados que lhe permitiram aprofundar o conhecimento sobre vários aspectos do passado cabo-verdiano. O resultado das suas investigações está presente em vários artigos científicos e livros que, ainda hoje, são considerados a base da História cabo-verdiana. “Panaria Cabo-verdiana e Guineense” e “Cabo Verde: Classes Sociais, Estrutura Familiar. Migrações” são alguns dos muitos livros escritos por Carreira. Esta bibliografia imensa é, para os investigadores que se lhe seguiram, “de leitura obrigatória”, diz Daniel Pereira. Para este historiador, que foi “impulsionado a estudar a História de Cabo Verde depois de ler as obras de Carreira”, nunca mais um investigador cabo-verdiano conseguiu igualar a dimensão deste que quis saber de onde vinha para saber o que era e onde queria ir. Para atingir o nível de Carreira, diz, “é preciso os historiadores publicarem muito mais, estudarem muito mais”. De facto, as investigações deste estudioso e autodidacta, que hoje faria cem anos, se estivesse vivo, ao contrário de se debruçarem sobre uma temática específica, abordam inúmeras facetas da História cabo-verdiana, desde a economia à cultura, passando pelos aspectos sociais. Uma opção metodológica possivelmente influenciada, explica Daniel Pereira, “pelo seu amigo íntimo Vitorino Magalhães Godinho, um importante historiador português da École des Annales, que vê a História sob um ponto de vista globalizante”. Mas para além da capacidade intelectual e de trabalho de Carreira, um outro factor tornou este investigador ímpar: o “espírito indomável” que, segundo Daniel Pereira, o levou “a suplantar grandes dificuldades” e a “enfrentar os poderes instituídos” para lograr a publicação de alguns dos seus estudos. É o caso da premiada obra “Cabo Verde: Formação e Extinção de uma sociedade escravocrata” que, pela temática que abordava, tornava-se incómoda para alguns sectores da sociedade de então. Assim, pelo abraçar incansável da causa da verdade histórica (sempre sujeita a interpretações, como é óbvio), Daniel Pereira considera que “Carreira é uma figura incontornável na reconciliação dos cabo-verdianos com a sua História, e no encontro de si mesmo como povo, porque antes deste historiador quase ninguém conhecia o passado de Cabo Verde”. Pelo que, defende, “para que a memória subsistisse de forma plena, o liceu de São Filipe deveria ser baptizado com o nome deste historiador”. Pedro Miguel Cardoso in: www.asemana.cv edicao de 01-11-05 |