Albercas do Ponê (Chote Manelin)
Toni Volcan fazia-lhe lembrar Ponê, um conhecido trapaceiro (artista) da ilha, que chegou a dar voltas ao arquipélago, carregando sempre uma pasta diplomática, fazendo-se passar por Delegado do Governo, durante o regime de Partido Unico, comendo e bebendo à farta, sem pagar um tostão.
Um dos episódios marcantes na memória de Craque, acerca das habilidades de Ponê, rezava o seguinte:
Dentro de duas semanas havia uma festa de casamento; dinheiro para o baile havia, mas para a charmosa alberca áfrica, não; com sandálias áfrica, as membras eram à escolha.
Um dia, munido de uma alberca no pé direito, deslocou-se a S. Filipe. Entrou na oficina de um conhecido sapateiro de moda, sito na Rua do Hospital e encomendou um par de sandálias, exactamente iguais às que trazia. Não queria mais enfeites, nem acrescentos. Pretendia umas iguais e muito boas.
Ponê explicou, paciente e demoradamente a sua pretensão ao sapateiro, até meter na cabeça dura do artífice a compreensão do seu desejo. Com a sua paciência de malandro lá conseguiu fazer-se entender.
Com a alberca do pé esquerdo, fez idêntica encomenda em casa de outro sapateiro, também de moda, sito em Santa Filomena.
Teve desta vez mais trabalho ainda para se tornar claro, mas também logrou atingir o seu objectivo.
Quando julgou estarem as sandálias já prontas, um moço de recados foi pedir a alberca do pé direito ao sapateiro da Rua do Hospital, enquanto outro moço, a do pé esquerdo ao mestre de Santa Filomena. Como uma sandália não podia servir, sem o respectivo par, os dois mestres não hesitaram em entregar as ditas sandálias, mesmo sem conhecerem o freguês.
E assim, Ponê apropriou-se de um par de albercas que aguardava ansiosamente, para a festa de casamento.
Assim, com muita graça e piada, Ponê subtraia, inteligentemente e sem violência, coisas de que os outros não precisavam (como ele costumava dizer) mas de que ele necessitava, de uma forma tão engenhosa que, muitas vezes, eram as próprias vítimas que lhe apertavam a mão, como veio a acontecer com os dois mestres sapateiros.
Por: Livio Lopes